POR NOSSA CULPA, NOSSA MÁXIMA CULPA!

João Silva

Somos brasileiros com muito orgulho, com muito amor, ou aquele coro de 60 mil vozes que ouvimos dia desses não passa de empolgação de torcedor pouco politizado? Hipócritas ou felizes de verdade? Que será que o mundo pensa de nós acompanhando na tv nossa explosão de alegria provocada pelo desempenho dos atletas brasileiros nos XVI Jogos Pan Americanos, em que pese algumas decepções?

No meu entendimento o canto uníssono, ouvido nos dias de glória da seleção, dos nossos times de futebol, dos nossos atletas, é coisa puramente emocional, de momento, nada mais que isso; bem cedo aprendi que palavras são folhas ao vento quando destituídas do seu significado em nossas vidas, na convivência com nossos semelhantes, no esforço que fazemos para construirmos uma sociedade mais justa.

Quando vejo nosso País assaltado por quadrilheiros instalados nas diversas esferas do poder, de onde sangram as mazelas que ficarão impunes, quando vejo a sociedade acuada pelo crime organizado em cidades importantes, e a até na minha Macapá; quando vejo tantas desigualdades e a desesperança conformada do povo diante do que acontece, me assalta triste constatação de que cada um de nós poderia fazer mais, muito mais pelo Brasil.

Nosso canto poderia transpor os estádios de futebol, protestar e se indignar mais; poderia ganhar as ruas, chegar ao Congresso, aos tribunais, ao Ministério Público; poderia pressionar os vilões do Brasil, exigir reforma política pra valer, lutar por transformações que são mais importantes que a Copa do Mundo, que a goleada da seleção diante da Argentina, ou coisa que o valha. O canto festivo precisa ganhar o tom da indignação tardia, mas ainda necessária.

Ainda não engoli aquele diálogo asqueroso divulgado pela Polícia Federal, mediante autorização da Justiça, em que empresários, políticos e funcionários da maior estatal brasileira fazem galhofa do povo que trabalha de sol-a-sol para sobreviver neste País injusto, rindo da gente ao telefone enquanto tramavam como iriam roubar a Petrobrás, minar as nossas esperanças, desfazer os sonhos dos que ainda são capazes de sonhar.

São esquemas poderosos, encabeçados por ícones da impunidade, figurões que nuca são denunciados nem investigados como se fossem inimputáveis, para corroborar com Josias de Souza; gente que não aparece, mas se dá bem, faz escola nos negócios lucrativos da política; parece que tem licença pra roubar, fraudar, enriquecer a custa do erário sem que os alcance a espada da Justiça, o Leão da Receita e as algemas da Polícia Federal; no Brasil pouquíssimos governantes foram processados e punidos em mais de 500 anos de história.

Contra traição atroz perpetrada por essa gente, num País sem sede de justiça, bem que o povo deveria reagir com mais firmeza, erguendo a voz contra a velhacaria que faz troça da lei e dos valores morais que deveriam nortear a vida pública; é imperioso mirar nossa indignação contra essa gente que se faz indiferente ao destino de 180 milhões de brasileiros, em boa parte, ainda na escuridão do analfabetismo; no Caso Renan, por exemplo, dois ex-presidentes da República - José Sarney e Fernando Collor, mais que qualquer um dos seus pares, tinham o dever de declarar com quem estão nesta crise, se com o Brasil, o Senado, ou com a insolência de um correligionário que, do seu trono de presidente, insiste na insensatez que dificulta as investigações e afronta a verdade dos fatos?

O Senado é uma casa de políticos, mas nenhum desses políticos, agrupados ou não, pode transformar o julgamento de Renan em jogo de confraria com resultado previsível; está provado que o senador, enfrentando novas denúncias junto ao Conselho de Ética, mantinha relação promiscua com lobista da Mendes Junior, e isso é falta de decoro parlamentar; nesses casos, ninguém tem direito de parar o Pais, de procrastinar uma decisão, independentemente da relação de amizade, do vínculo partidário, dos acordos políticos.

O que realmente não se pode transigir é a defesa da sociedade e das instituições democráticas, principalmente nessas horas em que o corporativismo, as relações espúrias, os acordos de bastidores tentam reunir forças para impor uma derrota à opinião pública, à legalidade, à imprensa e ao povo brasileiro, ainda que meia bomba, exigindo a completa apuração dos fatos e a cassação do senador do PMDB.

O Brasil, como qualquer País, é obra dos indivíduos que são eleitos para governar em nome do povo que os elege, caso da democracia representativa; se a política é pequena, obviamente o país tende a ficar pequeno, mesmo que seja rico e a sua economia forte; mas se a política for exercida com grandeza, ai o país prospera, se desenvolve, divide com todos os cidadãos a riqueza produzida pelo trabalho do seu povo...Isso não é utopia, é possível, existirá se a gente quiser.

Por aqui, infelizmente, a cartilha dos políticos espertos, desonestos, populistas parece eterna; e nós, o povo, exposto a tudo que não presta, submetido ao que ela e eles determinam, quando votamos mal, quando não fiscalizamos nossos representantes, quando deixamos de exigir que utilizem com dignidade o mandato que damos a eles, revelando desamor ao Brasil precisando de nós para que seja terra de todos mesmo, e não de meia dúzia de maus brasileiros.

Por aqui, aberrações, desperdícios e incompetência deixaram o aeroporto de Macapá onde está, ignorando a existência de um gargalo que ameaça a segurança da população e impede o crescimento da cidade na direção da BR-156; e tudo com patrocínio de governantes que defendem o maior fracasso de gestão pública da história do Amapá, a CEA, sob alegação de que a empresa “é um patrimônio do povo amapaense”.

É a mesma turminha que não cuida da saúde, não cuida da educação, da segurança pública, da malha viária, não dá resposta a um povo sem perspectivas diante da onda de violência e desemprego provocada pela migração descontrolada, um tsumani que veio na nossa direção sob estímulo de gente que não gosta do Amapá.

Tamanha negligência nos remete à tragédia que todos nós vimos pela televisão, algo que poderia ter sido evitado se gestores corruptos não tivessem permitido a construção de um posto de gasolina, de prédios em redor da cabeceira da pista do aeroporto de Congonhas; se não tivessem procrastinado as normas de segurança que, afinal de contas, poderiam evitar que 200 vidas se apagassem por nossa culpa, por nossa máxima culpa quanto povo, democracia e sociedade organizada.