Em carta aberta, Capiberipe acusa arbitrariedade de senador

Jornal Valor Econômico
Quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O ex-senador João Capiberibe (PSB-AP), atual 3º vice-presidente de seu partido, divulgou ontem sua "Carta Aberta ao senador Renan Calheiros". É um contudente testemunho sobre arbitrariedades cometidas pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, no exercício do cargo.

Capiberibe foi governador do Amapá e é adversário político do senador José Sarney (PMDB-AP), aliado de Renan. Na carta, historia a atuação decisiva do presidente do Senado na perda de seu mandato.

Identifica-se como o senador que, antes de completar o 3º ano de mandato, foi expurgado do Senado sem direito a defesa e substituído, pelo senador Gilvam Borges (PMDB). O PMDB, 20 dias depois das eleições de 2002, impetrou recurso junto ao TRE pedindo a cassação de seu mandato e de sua esposa, Janete, hoje deputada federal (PSB-AP), pela compra de dois votos por R$ 26 cada - " Acusação sustentada por duas testemunhas, que até hoje sobrevivem por conta deste processo. O feito não prosperou e fomos declarados inocentes".

O recurso do PMDB levou o caso às mãos do ministro Carlos Veloso, do TSE, que reformou a decisão do TRE do Amapá. Paralelamente, no Senado, Renan Calheiros decretava sua sentença - "Naquele dia (25 de outubro de 2005), você avocou para si os poderes da Mesa, do regimento interno, da Constituição Federal e do plenário, fazendo ouvido de mercador aos apelos de cinqüenta e dois senadores e senadoras que se revezaram na tribuna clamando para que eu tivesse respeitado o direito constitucional de defesa, garantido até mesmo aos que cometem crimes hediondos com requintes de crueldade".

Ao concluir a carta, Capiberibe confessa sentir uma "ponta de inveja" de Renan - "Você ganhou o direito de ser investigado pelo Conselho de Ética, pela Polícia Federal e, sobretudo pela imprensa. Tudo que queria era ser investigado. O Ministério Público Eleitoral não investigou por que, segundo ele, não havia crime, o TRE, por isso, declarou nossa inocência e a imprensa não procurou contar o nosso rebanho, para saber se teríamos bois suficientes para pagar os dois votos, que supostamente eu e minha companheira compramos para nos eleger".

O ex-senador conclui que Renan é um homem de sorte pois dispõe de tudo aquilo que lhe foi negado, os meios de provar a inocência - "Tivesse o Senado agido como determina o exercício do poder republicano, certamente não chegaríamos à situação caótica do presente".
(De São Paulo)