A Indústria da Invasão
Édi Prado - 03.09.07


Invasão de terrenos. Está virando moda. E o local é sazonal. Ou seja, em cada estação, uma zona. Durante o período eleitoral ou o que antecede a esta etapa, eles preferem a zona norte, onde algumas pessoas se intitulam proprietários e vão demarcando os lotes por conta própria. São corretores práticos e vendem, alugam, emprestam, fazem caridade ao ceder temporariamente os barracos para quem não tem como forma de garantir o espaço. No período mais próximo das eleições, eles preferem a zona sul, onde os lotes são bem mais cotados no mercado imobiliário. Na verdade, são os bem sucedidos empresários da clandestinidade em áreas de invasão.

Eles mapearam a cidade. Têm a relação dos lotes desocupados ou abandonados. Sabem o tempo em cada lote está assim, convidando para serem invadidos. Alguns lotes, no centro da cidade, estão abandonados, transformando-se em lixeira pública e criadores de dengue. Mas isso não justifica as invasões. Esse é um problema da Prefeitura e dos setores ligados a obras públicas e lotes da área urbana. Se há omissão ou lerdeza nas ações municipais, mesmo assim não justifica as invasões.

Existe uma indústria da invasão. Isso está claro no modo de ação. Depois de eleger um lote-alvo, caminhões carregados com madeira, carpinteiros, pregos, martelos, serrotes e muita disposição, erguem dezenas de barracos nas marteladas da noite. E enquanto os operários exercem a função, os futuros moradores já estão ali, com rede, cama, fogão, crianças, idosos, deficientes físicos, sempre escoltados com camionetes, Ds 20, D10, Mitshubishi, carros zerados, motos. Mas se essas pessoas são sem tetos e sem terras, como é que eles conseguem, de uma hora para outro todo o aparato para a construção de um barraco, num tempo recorde? Estão doando madeiras e todo o material de construção e junto com a s doações já incluem os operários? E esses carros que ficam cercando as áreas invadidas, pertencem a quem?

O pior disso tudo é que ficam sacrificando velhos, crianças e deficientes físicos para justificar a ocupação. Mas segundo o IBGE, não existem sem tetos no Amapá. Pode até existir casas superlotadas, mas não se vêem ninguém dormindo as ruas, praças públicas, embaixo de marquises.

E como é que surge tanta gente sem teto e sem terras? Onde fica essa indústria, onde se podem escolher lotes de velhos, crianças e deficientes físicos aos montes para justificar essas invasões?
Tem alguma errada nessa história. Falam em empresários de cedem madeira para ocupação de lotes para depois os comprarem ao preço que bem quiserem. Citam políticos que garantem o apoio, como forma de ampliar ou de assegurar os eleitores. Se a voz do povo é a voz de Deus, está na hora das autoridades ouvirem essa voz.

E o mais estranho é que os “proprietários” com direito as aspas no chapéu, estão se tornando grandes - mini latifundiários, a maioria é de fora do estado, que vêem nesta prática, uma forma de tornar-se milionário à custa das omissões das autoridades.

Se quiserem identificar esses invasores profissionais, descobrir que é quem nessa indústria é só perguntar para um invasor. Eles têm a tabela de preço dos lotes invadidos, dependendo da zona invadida, metragem do lote e localização. Tudo a gosto do freguês. E não tem segredo, não. Se for um agente policial ou da Justiça, não importa. A informação é gratuita e sem cerimônia.