UMA RESPOSTA DE AMOR

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Quando olho para a cruz e para a imagem de Cristo nela crucificado, não posso deixar de pensar nos sofrimentos e na morte, dele, mas também nos nossos. Falar dessas coisas não é fácil. Sempre somos tentados de deixá-las de lado, a não pensar nelas.

Por isso preferimos viver como se os sofrimentos e a morte não existissem e acabamos sempre surpreendidos quando chegam à nossa vida. Ninguém pede para sofrer e nem deveria desejar isso para os outros. Contudo as provações vêm e questionam, inevitavelmente, a nossa fé e o sentido que damos à nossa vida.

É nessas horas que imploramos respostas às perguntas existenciais sobre a vida e sobre a morte. Todo sofrimento e toda morte merecem respeito e solidariedade. Aliás, não tem nada de mais humano que isso. Afinal somos, justamente nós, seres inteligentes que queremos saber o porquê das coisas; e somos também nós que podemos, nessas horas, sair do nosso egoísmo e indiferença e expressar quanto sentimos o peso do sofrimento nosso e dos outros.

Essa é - e sempre será - a lição da cruz de Jesus. Ele não falou do sofrimento, sofreu. Não ensinou somente sobre a vida e sobre a morte, viveu de um jeito e morreu de uma maneira que sempre serão únicas e exemplares para nós. Jesus, com a sua paixão e morte, tornou-se solidário a todo ser humano que sofre e morre; que o saiba ou não, que o queira ou não. “Homem das dores”, assim também é chamado Jesus.

Certa vez, quando ainda era pároco, aconteceu por lá um fato trágico. Um jovem, empregado do Banco, foi morto durante um assalto. A cidade parou pela revolta e o horror. Chegou a hora do enterro. A mulher dele, grávida de alguns meses, chamava-se Marta. Achei que devia ler a página do evangelho de João, onde Jesus convida Marta, a irmã de Lázaro, a acreditar nele e na ressurreição. Na prática foi suficiente ler o evangelho; as poucas palavras que consegui dizer foram abafadas pela emoção minha e dos presentes. O choro da esposa e dos colegas, que tinham sobrevivido ao assalto, foi o único comentário. Feito de lágrimas mais do que de palavras. O silêncio também que se seguiu continuava falando aos nossos corações. Umas questões pairavam no ar, cheio de tristeza, mas, ao mesmo tempo, também de esperança. Por que tanto ódio se nós todos, quando queremos, sabemos ser solidários, amigos e fraternos? Por que nos nossos relacionamentos sobressai a nossa pior parte e não a bondade que habita no coração de todos?

A dureza do sofrimento e a brevidade da vida, somente apontam para uma resposta de amor. Se ainda não podemos superar todos os sofrimentos, ao menos podemos amenizá-los com a nossa amizade, com a nossa fraternidade. Se o mal nosso e da sociedade é causa de tantos sofrimentos, quase sempre inocentes, porque o cultivamos dentro de nós? Não deveríamos bani-lo de vez, excluí-lo como se isola uma doença perigosa e contagiosa? O sofrimento pede uma resposta de amor.

Olhar somente ao Cristo na cruz, sem enxergar os sofredores e os crucificados da vida, seria desvirtuar o sentido da própria cruz. Imaginar aquele sofrimento, sem nos deixar atingir pelas lágrimas daqueles que choram perto de nós, é falsa religiosidade. Olhar ao Cristo na cruz e alimentar sentimentos de ódio, de inimizade e de violência, é uma contradição escandalosa.

No Calvário, após a morte de Jesus, diz o evangelista Lucas, “as multidões que tinham acorrido para assistir à cena, viram o que tinha acontecido e foram embora, batendo no peito” (Lc 23,48). Se formos causa de sofrimento, está na hora de bater no nosso peito. Se ajudarmos a enxugar lágrimas, somos sinais de esperança. E o mundo será melhor.