A HERANÇA

Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

Onde já se viu um pai dividir a herança entre os filhos antes de morrer? Claro que pode acontecer. Às vezes, para evitar os impostos, são colocadas casas, fazendas e firmas em nome dos filhos, antes que os "velhos" tenham que deixar tudo, não por livre e espontânea vontade, mas por causa de uma força maior que se chama morte. Os pais podem fazer isso também para evitar, o mais possível, brigas e confusões entre os herdeiros. Contudo, as famílias que ficam unidas após o falecimento dos pais são raras. Os caminhos da vida são tão diferentes! Os temperamentos são incompatíveis e nem todos conseguem se entender. E se juntarmos noras, genros, cunhados, cunhadas, netos e bisnetos, a história fica ainda mais complicada.

Em geral, o que foi dividido está entregue. Cada um faça o que quiser com o que é seu. O que os pais sonhavam que pudesse segurar os filhos, a divisão pacífica da herança, muitas vezes acaba afastando-os de vez. Nem todos ficam satisfeitos; alguns se acham menos amados pelos pais. Por aí vão as razões do afastamento.

Quantas heranças acabam na justiça humana e desaparecem pagando os emolumentos dos advogados. Não fica mais nada para dividir. Tanta confusão, ódio, raiva e gritarias, por nada.

Esse é o poder do dinheiro e dos bens materiais. Por causa da nossa cobiça, os laços de família passam para trás. Famílias maravilhosas se dissolvem entre brigas e contendas, na hora de dividir os bens dos pais. Para nós, muitas vezes, os bens valem mais do que as pessoas.

É por isso que o pai da parábola de Jesus nos surpreende pela maneira tão estranha de agir. Divide os bens e ainda corre ao encontro e faz festa para o filho que havia gastado tudo. - Um absurdo - declara o outro filho, o maior, o bonzinho, que ainda trabalhava com o pai. "Cômodo!" - deve ter pensado este filho. "Esbanjou tudo e ainda quer dar uma de arrependido; não dá para voltar numa boa. Como é que eu vou ficar? Com cara de besta por ter obedecido a vida toda? Não vou entrar na festa, não".

Fica claro na parábola: ao filho mais velho interessa mais do que o cabrito para comer com os amigos. Ele está de olho na herança que está ajudando a engordar, e que receberá logo que o velho se for. Tudo era dele. Agora terá que dividir a herança, mais uma vez, com aquele irmão que já havia esquecido.

Para o pai, o que vale é o filho. Os dois filhos, todos os filhos. Porém, aquele filho parece valer mais, porque estava perdido; foi dado por morto, e agora voltou vivo para casa.

Se não entendermos que a vida das pessoas, os nossos relacionamentos e a convivência amorosa valem mais do que todos os bens deste mundo, não conseguiremos compreender a parábola do Pai Misericordioso. Será impossível imaginarmos um mundo de irmãos. Mas esse é o grande projeto de Deus.

Continuaremos reclamando, invejando, achando que Ele não fez as coisas direito. Quem for rico continuará a defender os seus bens, com unhas, dentes, armas, enganos, trambiques... Quem for pobre ficará esperando a oportunidade, a chance, a sorte, o jeitinho etc.

Bastaria acreditar pra valer na festa do perdão, da paz, da fraternidade e da partilha. Enquanto os filhos-irmãos continuarem se julgando e se matando, o Pai continuará a correr de um para o outro, convidando ao amor.

Grande é o Pai. Nós, os filhos, mesquinhos.