PIB 2007 entre Einstein e o IBGE
Pedro do Coutto (TI)

Em matéria de números - como digo sempre - é preciso dar personalidade a eles para analisá-los objetiva e corretamente. Não devemos nos deixar levar pela primeira impressão. Inclusive porque é com base no aspecto impressionista das informações que tecnocratas expõem o lado que desejam. É natural. Mas em 1905, quando aos trinta anos legou a relatividade ao universo, Einstein traçou a divisão básica e eterna entre o relativo e o absoluto. No absoluto a idéia de Deus. E se Deus é o absoluto, tudo mais é relativo.
Vejam só. Há poucos dias, o IBGE divulgou com grande destaque na imprensa o resultado de uma pesquisa sobre o crescimento do PIB do País no segundo trimestre do ano (abril, maio e junho), comparando-o com igual período de 2006. Apontou um avanço aparentemente extraordinário de nada menos que 5,4 por cento. Mas como tudo é relativo, vamos procurar a relatividade na comparação. Até porque um salto de 5,4 pontos em três meses pode induzir os menos avisados a acreditar que o Brasil ingressou numa fase de verdadeiro milagre econômico.

Não é isso exatamente. Cresceu 5,4 por cento em relação a quê? À média de crescimento registrada naquele trimestre do ano passado. Qual foi ela? Numa reportagem comparativa primorosa, os jornalistas Fernando Canzian e Pedro Soares, "Folha de S. Paulo" de 13 de setembro, revela os parâmetros em foco. No segundo trimestre de 2006, a economia brasileira havia evoluído 1,5 por cento. Assim, os 5,4 pontos incidem sobre qual valor? O da produção econômica ou o do aumento registrado?

No primeiro caso, portanto, teríamos que desconsiderar o 1,5 por cento. Seria 3,9 por cento. No segundo, devemos calcular o peso de 5,4 em cima de um ponto e meio por cento. Estamos, como se constata, partindo em busca da relatividade contida no cálculo do IBGE, aliás sempre honesto em seu conteúdo, mas sujeito às vezes, a uma divulgação formal que pode afastar o substantivo do adjetivo. Pode confundir o axioma com o teorema. Isto é, não exige comprovação e aquilo que tem de ser confirmado na prática.

A "Folha de S. Paulo", como estou citando, e todos os jornais, reproduziram dados do IBGE sobre a performance de 630 bilhões de reais. Difícil. No ano passado, a soma de tudo que foi produzido e consumido no Brasil fechou, em números redondos, na escala de 2 trilhões de reais, um trilhão de dólares. Se no trimestre em foco a produção elevou-se a 630 bilhões, seria de esperar que no exercício que termina em dezembro chegaria a 2,5 trilhões. Não é provável.

Não pode ser, pois neste caso o PIB de um ano para outro não teria avançado 5,4 pontos, mas sim pouco mais de 20 por cento. Essa, não. Isso de um lado. De outro, os números divulgados pelo IBGE assinalam - no segundo trimestre - um crescimento de 6,8 por cento na indústria. Uma evolução de 8,1 por cento tanto no comércio atacadista quanto no varejista. Uma progressão no setor de serviços e de intermediação financeira da ordem de 9,6 por cento.

Esta é a possível face: os juros cobrados pelo mercado e da taxa paga pelo governo aos bancos para rolar a dívida interna. Além disso, um aumento de 5,9 pontos no consumo. Estes indicadores todos, extremamente positivos, chocam-se, entretanto, com o índice do próprio IBGE quanto ao mercado de emprego.

Tanto se chocam que o instituto, no mês passado, acusou a existência de uma taxa de desemprego de 9,5 por cento, igual à que ele próprio registrou no início deste ano. Há uma contradição de que seria importante que os técnicos do IBGE explicassem de forma transparente. Ora, se a produção industrial disparou, as vendas comerciais deram um salto triplo, os serviços avançaram, o consumo cresceu muito mais do que a taxa demográfica de 1,3 por cento, como pode ser traduzida a estagnação do desemprego?

O normal seria que o mercado de trabalho se expandisse com a recuperação de postos temporariamente vagos. Não é fácil entender como tantos resultados positivos não geraram reflexo no panorama social. Não geraram. O salário brasileiro médio permaneceu na escala de 1 mill e 100 reais, muito baixo, como se vê. E o número de desempregados não caiu: permaneceu num patamar de quase 10 milhões de pessoas, já que a mão-de-obra ativa do País situa-se em torno de 95 milhões, metade da população brasileira.

A única explicação lógica para tão estranho fenômeno somente poderia ser encontrada na produtividade. Seria necessário que cada trabalhador ou funcionário público apresentasse um rendimento extraordinário, uma eficiência a toda prova, uma velocidade de decisão espetacular para fazer com que o crescimento da economia apontado fosse transmitido, como numa corrente elétrica, para toda a sociedade com resultado positivo para todos.

Este o enigma que os números oferecem para que possamos todos nós decifrar o vulto da esfinge. Não creio que seja tarefa fácil. Mas, afinal, o que é fácil nesta vida? O código dos números mais complicados ainda.