Apelo a Lázaro

D. Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

Dom Helder Câmara escreveu este apelo a Lázaro - a todos os Lázaros da vida.

Pelo Amor que tenho aos ricos
- a quem não devo julgar
a quem não posso julgar
e que custaram
o sangue de Cristo -
eu te peço, Lázaro,
não fiques nas escadas
e não te deixes enxotar...
Irrompe banquete adentro.
Vai provocar náuseas
nos saciados convivas.
Vai levar-lhes
a face desfigurada de Cristo
de que tanto precisam
sem saber e sem crer...

('Mil razões para viver', Civilização Brasileira, pag.75)

Essas palavras sempre me deixaram pensativo. Parece um apelo à confusão: entrar no banquete dos outros, sem ser convidados, não é de boa educação. Mais ainda, provocando náuseas nos comensais.

Na realidade, o Apelo de D. Helder está no próprio evangelho. O rico, no meio dos tormentos, pede ao pai Abraão que mande Lázaro - que, nesse caso, seria o morto ressuscitado - alertar os seus irmãos, para não caírem na mesma armadilha que ele caiu: a da ilusão dos bens materiais. 'Tem Moisés e os profetas que os escutem! Se não acreditam neles, não acreditarão nem num morto ressuscitado', responde Abraão.

D. Helder também pede a Lázaro que faça alguma coisa, mas sem esperar o paraíso ou o inferno. Sem precisar vir do outro mundo. É agora que os lázaros da vida devem sair das calçadas, dos guetos, das favelas, das periferias, das invasões, dos acampamentos nas beiras das estradas, para 'irromper' no banquete dos satisfeitos.

Não é para fazer confusão, mas para gritar-lhes aquilo que o rico, lá do inferno, gostaria que os irmãos dele entendessem logo, ainda nesta vida, para não ir depois para o mesmo lugar onde ele está. Gostaria que descobrissem que os pequenos existem, que é preciso enxergar o pobre que está sentado fora de casa!

Para o 'pai' Abraão, esse pobre tem nome, chama-se Lázaro. Para o rico e os seus parentes, Lázaro, na prática, não existia. Mas será mesmo que todos os dias passavam na frente dele, para entrar em casa, sem vê-lo? Sabiam que estava lá. Porque o rico, agora nos tormentos, o reconhece, lá, ao lado do pai Abraão. O reconhece 'de longe'. Aquele rosto, aquelas feridas, eram-lhe familiares.

Esse foi o 'pecado' do rico. Nem as sobras dos banquetes chegavam a Lázaro. O abismo que separava a generosidade do rico e a humilhação do pobre era grande demais. Neste mundo, ainda, teria sido mais fácil superar aquele abismo se tivessem feito alguma coisa por e para o Lázaro. O rico e seus cinco irmãos deviam ter cuidado das feridas do pobre, deviam ter-lhe aberto o portão nobre para deixá-lo entrar no banquete. Nada. Não fizeram nada. Eles, estavam bem demais.

Os lázaros da vida devem irromper no banquete dos privilegiados, devem fazer barulho e cobrar a sua participação, porque estão fazendo um favor aos grandes: estão oferecendo-lhes a possibilidade de encher o abismo das desigualdades, das injustiças, da exclusão social, da história e da sociedade, para que também do outro lado, um dia, não haja mais abismos, mas o 'paraíso' da partilha e da fraternidade comece a alegrar a vida de todos, já, aqui, neste mundo.

Falta muito ainda para os lázaros se organizarem e começarem a incomodar até provocar náuseas, porém falta muito mais para os abastecidos abrirem os olhos e o coração. Continuam trancados nas suas mansões, ocupados nos seus banquetes. No entanto se um morto ressuscitar, quem sabe, acreditarão.