PM invade residência, prende e tortura menor acusado de participação em furto no Araxá, acusa família

Chico Terra

Imagine uma família pobre que mora em área de palafitas, cuja maior riqueza é ter o nome limpo e cujo orgulho é nunca ter pisado em uma delegacia de polícia. Assim é a família de Alan, 17 anos, que teve sua casa invadida por policiais militares este final de semana de onde foi arrancado do seu quarto onde descansava aguardando a hora de ir para o trabalho em uma lanchonete para ajudar o sustento da família, sob a acusação que ele teria receptado produtos de roubo.


Residência invadida pela PM no Araxá
Foto: Chico Terra

A PM chegou a casa de Alan por volta das 16:30 do sábado 1 de setembro, quando perguntaram por três CDs de Game que um dos rapazes que havia furtado, os três CDs, um cabo e uma fonte de alimentação de game, houvera dito aos policiais que estava em posse de Alan. Segundo Alan, os CDs estavam com ele porque o rapaz que subtraiu os mesmos, entregou a ele para que pudesse testar e assim sem que soubesse que se tratava de roubo, acabou envolvido na história.

Sob os olhos da família, com crianças presentes, sem apresentar mandado de busca, os policiais levaram além dos CDs o Play Station pertencente a Alan, algemaram-no, andaram com ele pela ponte expondo-o de maneira vergonhosa e de lá seguiram com o menor para uma área na bacia de decantação onde espancaram o rapaz com tapas, borrachadas e violento chute nas costas desferido pelo policial militar Chucre, que levou o menor ao chão, tentando faze-lo confessar a participação no roubo, inclusive um dos policiais (Elber) teria esfregado a tarja de identificação colada à farda com velcro, no rosto do menor. Não obtendo a confissão nem sob tortura, levaram-no junto com os demais e o entregaram no CIOSP do Pacoval onde a vítima do roubo não confirmou que o Play Station lhe pertencia. Mais tarde, o irmão mais velho de Alan, de posse da nota fiscal do aparelho tentou argumentar a favor da liberação do irmão, mas não logrou êxito.

Do CIOSP, Alan com hematomas no corpo, foi conduzido à delegacia de menores onde foram constatadas as lesões, de onde seguiu para exame de corpo delito e após, permaneceu até as 6 da manhã de domingo, quando foi liberado. A mãe do menor tinha um pequeno ferimento no pé que se agravou com o tempo de espera até a liberação de Alan.


D. Fátima, a mãe de Alan e a expressão de indignação
Foto Chico Terra

“Isso aqui não é nada comparado ao que estou sofrendo. A dor da humilhação pra minha família, não tem remédio. Eu já moro aqui há seis anos com meus filhos e nunca imaginei um dia na minha vida passar por uma coisa assim. Fui acusada de acoitar roubo dentro da minha própria casa. Mesmo que o menino que praticou o furto tenha inocentado meu filho, eles o levaram algemado. Eu quero que os superiores desses policiais apurem esse caso e apliquem a devida punição e que a gente possa ter proteção por denunciar esses policiais”, desabafou D. Fátima, a mãe de Alan.

Alan trabalha em uma lanchonete próxima a escola Alexandre Vaz Tavares onde os patrões defenderam a boa índole e confiabilidade do rapaz que trabalha com eles há três meses e se colocaram à disposição para sustentar opinião em favor do menor.


Alan, as marcas da violência e o sentimento traumático

Foto: Chico Terra

Sobre o sentimento que ficou após o infeliz incidente, Alan disse que: “A gente sente um trauma com relação à polícia. É a primeira vez que isso acontece e foi da pior forma possível. Chegaram, me algemaram, me espancaram e a minha imagem ficou muito suja por aqui, principalmente aqui que já é muito falado por ser uma área de gente pobre onde para eles todo mundo é bandido”, declarou Alan com a voz embargada pela emoção.

O comportamento dos policias confronta as orientações do comando da PM que tem investido no preparo da corporação para o trato com a sociedade. Recentemente em uma bela cerimônia realizada em Macapá, a PM formou uma turma em “Técnicas de abordagem”, o que parece não ter sido assimilado pelos atores destas ignominiosas cenas dignas dos tempos mais horrorosos da ditadura militar, página já considerada virada na história do país.

O lamentável fato se deu na oitava avenida do bairro Araxá.

A questão será encaminhada à Comissão dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado para apuração e devidas providências.