OS DOIS BURRINHOS

Dom Pedro José Conti,
bispo de Macapá

Dois burrinhos de carga caminhavam juntos. Um levava ouro, o outro simples farinha para a tropa. Inutilmente o segundo burrinho tentava puxar conversa com o primeiro. Este o olhava de cima para baixo, com desprezo. O que aquele burro miserável, carregado de farinha, queria com ele, escolhido para levar o ouro? Mas aconteceu que os ladrões caíram em cima daquela tropa e logo procuraram o que tinha mais valor. Com um chute mandaram embora o burrinho que carregava a farinha, e quase mataram de pancadas o burrinho do ouro, porque o coitado não queria entregar a carga.

Quando os ladrões se foram, o burrinho quase morto, pediu socorro ao outro colega que ainda estava de pé e carregado de farinha. Este último, a esta altura, desculpou-se por não poder ajudar em nada, porque, afinal, ele era um simples carregador de farinha, absolutamente indigno de aproximar-se de um burro tão importante escolhido para levar o ouro.

Assim se conclui a historinha. Isso acontece a quem se esquece que, apesar da carga, ou do cargo, continua sendo um burro como todos os outros.

Não conheço o autor desta história, nem lembro onde a encontrei, mas é tão simples e clara que o povo gosta de ouvi-la e de contá-la.

É mais uma lição de humildade. Uma virtude tão preciosa quanto o bom senso e a inteligência. Jesus falou muitas vezes da humildade; convidou-nos a escolher os últimos lugares, mais conscientes das nossas limitações do que inchados pelo nosso orgulho. Porém o mundo anda, mais do que nunca, cheio de arrogantes e fanfarrões. A ouvi-los parece que existem somente eles, os insubstituíveis salvadores da pátria. Os que sabem tudo, ajeitam tudo e, obviamente, criticam todos os outros.

O bom senso nos diz que se nos acomodarmos no último lugar, só poderemos ficar por aí mesmo, ou subir, convidados a maiores tarefas ou responsabilidades. Pelo contrário, quem se achou o tal, ocupando logo os primeiros lugares, só poderá ficar para trás, descendo os degraus da vida.

A inteligência também nos convida à prudência, a reconhecer o valor dos outros, porque sempre poderá aparecer alguém melhor e mais importante do que nós.

Fico pensativo quando vejo ex-cantores, ex-campeões, ex-tudo, mendigar um pouco de luz, porque a sua estrela parece que se apagou. Não sabiam que o sucesso era passageiro, que as modas iam passar e que têm muitas outras coisas na vida, que valem mais do que a fama e a glória dos homens?

Mas os orgulhosos se acham injustiçados, desmerecedores do esquecimento. Não se conformam com a queda, parece mesmo que tenham vivido só para aquele lugar, em cima, e que seja insuportável sentar mais em baixo. Ao contrário do que sempre ficou na sombra, pois continuará tranqüilo e satisfeito no seu canto. Se subir, por um pouco, voltará a gostar, como antes, das coisas mais simples e verdadeiras da vida, com menos bajuladores e aproveitadores ao seu redor.

Já deveríamos ter aprendido a lição, mas, infelizmente, sempre haverá quem ache que a humildade seja a virtude dos fracos e dos incapazes. Ao passo que o orgulho e a arrogância seriam as qualidades dos corajosos e dos ousados.

É mesmo. Cada um de nós é burro do seu jeito.