"Eis aqui a serva do Senhor"

Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

Nestes dias de Círio, espero que muitas pessoas participem das grandes procissões. São momentos fervorosos de devoção popular, de manifestações singelas de fé e piedade. É verdade que vamos a trás de uma pobre imagem, mas fazendo a memória daquela que para sempre será abençoada porque acreditou e aceitou ser a mãe do Salvador.

Gostaria que todos parassem um pouco para pensar, refletir e rezar, a sós, com a própria consciência. Porque, se na procissão do Círio somos levados pela multidão, isto não pode mais acontecer com a nossa fé. Esta deve ser pessoal, clara e capaz de motivar as escolhas mais importantes da nossa vida. Hoje a nossa identidade cristã, católica ou não, exige razões que resistam às críticas, às modas e à tentação de misturar tudo, para que tudo, infelizmente, se torne show e diversão. Neste caso, pouco vai ficar dos cantos, das aclamações e das emoções do Círio. Maria, que nestes dias aclamamos como Nossa Senhora de Nazaré, pode e quer nos ajudar a guardar no coração acontecimentos e palavras, como ela sabia fazer.

Hoje assistimos a duas posições extremas a respeito da religião, sobretudo cristã.

A primeira é aquela de colocar Deus em todo e qualquer canto, como se tudo dependesse dEle e Ele ficasse o tempo todo correndo atrás de nós, nos abençoando, ameaçando, sempre policiando. Apesar das palavras bonitas e das preces demoradas muitas vezes o resultado disso é o medo de Deus - sempre nos espreitando - e, pior, jogando toda a responsabilidade do que acontece nas costas, largas, do bom Deus. Quantas vezes escutamos dizer que aquele fato ou aquela circunstância foi "vontade de Deus". A nós cabe somente ter fé e rezar, para ver se ganhamos os favores dEle, já que é Ele que nos dá saúde, casa, carro, emprego, família, etc. Pelo visto Deus virou empregador, distribuidor de benesses, nem sempre ficando claro, à maioria, porque alguns mereçam e outros não.

Do lado oposto estão os ateus, quer dizer os que nem querem ouvir falar em Deus, achando que seja uma piedosa lenda ou invenção de sonhadores e mentirosos, mais preocupados em ganhar poder e dinheiro que em dizer a verdade ao povo. Hoje tem várias publicações defendendo e justificando o ateísmo prático e teórico. Neste caso a vida corre por conta dela. Vai evoluindo por lógica própria ou casualmente. Não tem ninguém para agradecer, mas também não tem ninguém para xingar. Simplesmente as coisas acontecem. Tudo acaba no material e por aqui mesmo. Não temos que prestar conta a ninguém, somente à nossa consciência, porque os deuses, de todas as religiões, são uma invenção dos filósofos e dos teólogos.

Estou falando difícil, mas para chegar a uma conclusão. A mais simples, aquela que Maria, aceitou cheia de fé e esperança verdadeiras. Ela entendeu que Deus não é nenhum quebra galho, nem distribuidor de favores. Ele mesmo nos revelou que tem um maravilhoso projeto de paz, fraternidade e justiça. Só que não quer fazer isso sozinho, quer que participemos da construção do Reino, assim esta total re-criação do mundo e da história humana será também fruto da nossa vontade, do nosso compromisso, do nosso sacrifício. Maria com o seu sim aceitou livremente de colaborar com o projeto do Deus da vida.

Ela não foi nem mero instrumento inconsciente e irresponsável e nem pensou que tudo aquilo ia prejudicar definitivamente a sua personalidade, os seus sonhos e as suas idéias. Amou mais e acreditou mais no grande "sonho" do Pai, acolhendo o Filho, por ação do Espírito Santo, que na sua individualidade.

É isso que Deus nos pede. Não quer impor, nem disputar com a liberdade humana. Ele nos convida a colocar os dons, que dEle também recebemos, para algo de muito maior que a nossa vida limitada. Pede-nos a confiança, pede-nos a doação. Quem perder a sua vida por causa do Reino, vai ganha-la. Quem entregar a sua vida por causa do Reino vai ser feliz.. Quem acredita não mede esforços. Maria, Nossa Senhora de Nazaré, disse: "Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua Palavra". E todas as gerações a chamam de bem-aventurada! Nós também.