O mundo de tia Amélia

Nas mais recentes férias em Macapá, acompanhei mamãe em visita à tia Amélia, a viúva de meu tio Manoel Borges, cuja virtuose no cavaquinho esta registrada em livro sobre a História do Amapá. Desde que morreu meu tio, há 5 anos, a tia mora com um filho, nora, netos e bisnetos, convivendo com a pobreza, sujeira e conflitos familiares.

Aos 92 anos, trêmula, caminha com dificuldade. A casa, há anos em obras, não lhe permite circular com segurança. Não vai sequer ao pátio, pegar sol, ver o movimento da rua. Da mesa de refeições , onde mais conversa do que come, recolhe-se ao seu quartinho e ao seu mundo visto pela televisão, onde acompanha terços , missas, e as “Páginas da Vida”, sem entender: - como pode existir uma mulher tão má como a Marta?

Em poucos minutos, um mundo de coisas me passou pela mente e pelos olhos, inclusive um rato que cortou caminho pelo quarto. Do tio lembro-me que era calado e tinha um olhar sempre triste. Já tia Amélia, fala, fala, fala...mas nenhum palavra-lamento sobre sua vida miserenta. Só gratidão às pessoas que lhe querem bem, dentre eles a nora Bel , e o filho mais velho. Este, a visita todos os dias, limpa os chinelos dela e, quando insiste muito, consegue levá-la até o pátio.

A nora, que ainda chora a morte do filho que teria 20 anos, se não tivesse sido assassinado há três; lamenta a má-sorte da filha, que vive confinada no quarto, porque o pai não aceitou conviver com sua gravidez de adolescente, nem com a criança que já está com mais de um ano. Este pai é o mesmo marido, que não permitiu que Bel fosse trabalhar fora, mesmo tendo sido aprovada em um concurso público. A pobre lamenta e sonha: - não posso morrer, sem realizar meu sonho de ter uma máquina de costura.

Tia Amélia se emociona com as lembranças do Amapá, dos seus amigos Lulu e Mundinha. Porém, quando me ofereço para levá-la até seus amigos, ela diz: - hoje não, hoje não posso! como se quisesse adiar a realização deste pequeno sonho e assim prolongar a própria vida. Despedimos-nos com ela em prantos, prometi voltar para buscá-la. Tia Amélia voltou para seu quartinho, para o seu “domingão lega”l diante da TV.

A noite fui à missa na Jesus de Nazaré. No início da liturgia, uma senhora franzina, dessas que chamam de doida, foi até a frente do altar e depois de fazer mesuras em frente ao Cristo crucificado, começou a falar destrambelhadamente, com gestos de indignação, coisas das quais só captei algumas frases: - o pobre precisa ter uma vida digna!!! Todo pobre é filho de Deus e merece ter “isso e aquilo” outro dizia, enumerando com o indicador da direita nos dedos da outra mão.

De imediato lembrei-me de tia Amélia, que talvez não tenha a consciência de que todo pobre merece ter uma vida digna, lembrei dos governantes que fazem suas promessas enumerando-as nos dedos das mãos. Pensei que, ao nos acomodarmos na “normalidade” deixamos de nos indignar, como a “doida” que subiu ao altar.


(Vânia Beatriz - amapaense degredada em Rondônia)