TRAGÉDIA ANUNCIADA

João Silva

Faz parte da minha rotina, eu gosto de interagir com a cidade em que nasci, em que vivi a juventude, amadureci e quero que guarde meus restos mortais; Macapá é a minha casa, é a minha oca, é um xodó que me faz sofrer e sorrir todos os dias da minha vida, dependendo daquilo que vejo enquanto caminho pelas suas trilhas urbanas.

Eu respiro a cidade; não de dizer que freqüento a noite, qualquer lugar, todos os lugares, todos os eventos, ou coisa parecida, até porque tenho uma natureza introspectiva; seletivo com o passar do tempo, gosto de sossego, música de qualidade, ambiente que ofereça serviço bom e respeito ao cidadão, coisa difícil ainda por aqui, mesmo na orla.

Então meu amigo, gostar da cidade é indignar-se com a falta de respeito ao direito dos outros, é não concordar com a omissão das instituições que deveriam preservar o interesse da maioria impossibilitada de viver num lugar menos violento, mais organizado, sem o abuso de indivíduos que invadem o Rio Amazonas, ocupam o passeio público com a venda de bugiganga, ou jogam lixo em qualquer lugar.

Olhando os absurdos que saltam aos olhos, Macapá parece uma terra sem lei; quem chega, nem bem bate a poeira do corpo, já vem engendrando uma agressão ao código de postura, ao código de trânsito, ao rio que abençoa esta cidade soprando a brisa ecumênica que alivia o calor desta época do ano, quando não se junta a outros para promover invasões no perímetro urbano, pra não falar de coisa pior.

Neste momento, por exemplo, estamos diante de um modismo perigoso trazido de outras capitais, como Belém, São Luis, Manaus, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro; trata-se do encontro de jovens para promover à boca da noite, nos finais de semana, o que eles chamam de “esquenta” , transformando postos de gasolina de Macapá em salão de festa sem porta, sem porteiro, sem ingresso a pagar.

É um risco, uma bomba de pavio curto à espera de uma centelha capaz de provocar uma tragédia; trata-se da mistura de sons poderosos, tocando alto ao mesmo tempo, para embalar a bebedeira de jovens que logo depois estarão ao volante dos seus automóveis, muitos deles fumando perto das bombas de gasolina, sem a sobriedade para preservar sua vida, a dos que o acompanham e a de inocentes que cruzarão com eles no trânsito caótico de Macapá.

Não importa se já existe algum registro na imprensa sobre isso; faço minha parte como sei fazer e gosto de fazer, até porque nunca é de mais prevenir o que precisa ser prevenido; o risco de vida que correm nossos jovens, aqui e lá fora, já foi suscitado no Congresso Nacional; parece que há uma lei tramitando com objetivo de proibir esse modismo que atrai para essas festas improvisadas centenas de ambulantes montados em triciclos, carregando caixas térmicas abarrotadas de bebida alcoólica, rapidamente consumida.

Agir rápido para evitar uma tragédia, para poupar vidas humanas, é o que se deve fazer; o que não se deve fazer é ficar olhando, sem fazer nada; então convido o Ministério Público Estadual a dar uma olhada nisso; também a Polícia Militar (Corpo de Bombeiros), a Prefeitura de Macapá, Defesa Civil, Secretaria de Meio-Ambiente do Amapá, quem sabe, desde que seja pra agir mesmo, tomar providência, porque essa coisa coloca em xeque a segurança das pessoas nos centros urbanos, e não pode prosperar!

Portanto, alguém, alguma instituição precisa reconhecer que o problema é sério, que precisa ser debelado, afinal de contas poluição sonora, bebedeira ao volante, fogo do cigarro desafiando milhares de litros de combustíveis, briga de jovens, tudo isso constitui uma mistura explosiva, principalmente em um posto de gasolina, indicando tragédia eminente que ainda podemos evitar...Certo?