GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Crônica do falso adeus

Orlando Maretti
Observatório da Imprensa

Nesses tempos de literatice, profetas de auto-ajuda e gurus milionários, a mídia tem a propriedade de multiplicar e difundir notícias enganosas e espetáculos de pequena grandeza. Um exemplo contundente dessa tendência está circulando pela internet, na forma de um texto lacrimogêneo, atribuído indevidamente a Gabriel García Márquez, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1982. Soa como uma despedida, pois desde o ano passado o jornalista e escritor colombiano foi acometido de um câncer linfático, fato que ele mesmo reconheceu em diversas entrevistas. O tal texto alinhava, antecedidas por uma série de invocações a Deus, ações e tarefas que o pretenso autor gostaria de ter realizado, além de lamentar desejos e virtudes que não praticara. O texto tornou-se público no ano passado, quando o jornalista Márcio Moreira Alves o citou, com certa comoção, em sua coluna de O Globo, com base em notícia de um jornal peruano.

Gabriel García Márquez, ou Gabo, para os amigos, semanas depois não apenas negou, pela imprensa, que estivesse em estado terminal como também espinafrou a pieguice do texto e seu autor, identificando-o como um subliterato latino-americano. Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, o escritor colombiano lamenta a repercussão do texto. Aos 72 anos, apesar da doença, García Márquez encontra-se em plena atividade jornalística, depois de comprar a revista Cambio, em Bogotá, segundo notícia estampada em janeiro último no seu site Macondo <www.themodernword.com/gabo>.

Borges, outra vítima

Lendo agora o texto apócrifo, observam-se muitas semelhanças, na estrutura e no conteúdo, com outro que também circulou logo depois da morte de Jorge Luis Borges - enganosamente atribuído a ele mas, na verdade, também apócrifo, segundo afirmou Maria Kodama.

Da mesma forma, soava como uma despedida e estava recheado de imagens, tarefas ou desejos não realizados, a impossibilidade de fazer as coisas quando a vida se esvai. Continha alusões a sorvete (no caso de Borges, de sabor baunilha, rimando horrivelmente com lentilhas; no de Gabo, chocolate) e terminava exatamente da mesma maneira, lamentando a falta de tempo porque o autor estaria morrendo.

Auto-engano

Um amigo advertiu que a primeira pista para duvidar da autoria é a insistência na citação vocativa de Deus. Pelo que se sabe, García Márquez é um escritor de esquerda, simpatizante do marxismo, amigo de Fidel Castro, militante de causas sociais. Enfim, um humanista engajado, mas nem de longe seu perfil lembra um religioso. Outro amigo, mais maldoso, lembra a antiga desavença de Gabo com Mario Vargas Llosa, que lhe rendeu uma agressão do peruano num coquetel em Barcelona, para insinuar de onde teria partido a provocação.

No caso do texto apócrifo atribuído a Borges, há uma tentativa surrealista de associar sua figura a coisas pesadas ou chatas, como pára-quedas, galochas e guarda-chuvas.

Os dois textos foram vorazmente reproduzidos. Na falta de melhor idéia, alguns se apressaram em transformá-los em mensagens de final de ano. Eu mesmo recebi uma.

Como assessor de imprensa, acompanhei em 1993 um congresso nacional de Recursos Humanos, em São Paulo, e a atriz Irene Ravache, revezando-se na abertura com o psiquiatra Roberto Shiniashiky, um dos apologistas do rentável filão da auto-confiança, lia embevecida o texto anunciado como sendo de Borges, apesar de não constar, com é óbvio, de nenhuma antologia do escritor portenho.

As pessoas, em geral, estão predispostas a se emocionar, mesmo que desconfiem estar sendo enganadas. E existem os espertinhos que se aproveitam disso, explorando os bons sentimentos (dos outros). Pior do que a morte é a apropriação indébita da identidade de um doente para dar um recado ao mundo em seu nome. Pior ainda quando o doente tem a estatura literária de Gabriel García Márquez.

CASCATA
O texto atribuído a Gabo

Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.

Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mario Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes - te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.

Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...

Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre.

Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo.