O SOM DA MOEDA

Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

No tempo em que os juízes andavam no meio do povo, aconteceu um fato interessante. Um jovem muito pobre estava com fome, mas só tinha o dinheiro para comprar um pão. Comprou o pão e, andando pelas bancas da feira, aproximou-se de um ponto onde um senhor estava assando churrasquinhos. O cheiro da comida se espalhava pelo ar e dava água na boca. O jovem começou a aspirar com toda vontade o aroma gostoso do churrasco e a engolir o pão seco.

O vendedor dos espetos, naquele dia, ainda não havia vendido nada e estava tão mal-humorado, que se achou lesado pela aspiração do cheiro. Exigiu que o pobre pagasse o churrasquinho, visto que o cheiro também lhe pertencia de direito, como dono da carne que estava assando. O pobre não tinha como pagar e também reclamava que, afinal, não havia nem triscado no espeto. Como sempre, onde há discussão, junta-se uma multidão que ficou dividida entre os que diziam que o pobre devia pagar e quem sustentava o contrário.

Deus quis que um juiz passasse por aí para resolver a questão. Ele ouviu as partes, ponderou a situação e chegou à conclusão. Perguntou ao vendedor do churrasco quanto custava o espeto. - Uma moeda de cobre - falou o interessado. O juiz pediu a dita moeda, a jogou com força na mesa, de pedra, da banca e perguntou ao dono se havia ouvido o "som" da moeda. Ao receber resposta afirmativa, o juiz exclamou: - O senhor está pago! O cheiro do espetinho foi pago com o som da moeda. O povo aplaudiu, o pobre ficou satisfeito e todos, inclusive o dono da banca, aprenderam a lição.

Bons tempos, quando, talvez, fosse mais fácil resolver as disputas e os juízes andavam mesmo no meio do povo. O evangelho deste domingo fala também de um juiz que acaba atendendo uma pobre viúva pelo simples fato de não agüentar mais as queixas dela. Foi a insistência da mulher que venceu a indiferença do juiz. Talvez naquele tempo ele não tinha como escapar, arquivando o processo, criando prazos e recursos, todas as tramóias nas quais o leigo desentendido se perde.

Jesus, porém, contou essa parábola para explicar a necessidade de rezar sempre e de nunca desistir. Eu aproveitei para falar um pouco da justiça humana. Se a perseverança da oração ganha o coração de Deus, não deveriam também a verdade e o bem ganhar, por força própria, das inúmeras interpretações das Leis, das CPIs, dos habeas corpus e tudo o mais que não deixa a justiça julgar e, menos ainda, obrigar a respeitar as Leis aqueles que as infligiram?

Vamos rezar sempre e nunca desistir, não só para que Deus tenha compaixão de nós e venha em nosso socorro, mas também para que a justiça humana cumpra a sua nobre missão e ajude mais, no que a ela compete, na convivência fraterna na nossa sociedade. Quando a impunidade pode burlar as Leis, devemos nos perguntar: para que servem as Leis se não são respeitadas, se o jeitinho, as articulações, os conchavos e a barganha passam por cima de tudo? O conjunto da própria sociedade fica desmoralizado se as Leis têm valor só para alguns e não para outros. Até o juiz injusto e que não temia a Deus, do Evangelho, fez justiça à viúva. Assim estou convencido de que a administração da justiça seja uma verdadeira tarefa de altíssimo valor para educar o povo, para ensiná-lo o respeito, a convivência pacífica, a tolerância e levá-lo à solução razoável das questões.

"Corruptio optimi pessima", dizia o bom latim. Terríveis são as conseqüências da corrupção dos melhores. Se quem deve ensinar o bem e a justiça, não a pratica o que será de nós? Continuamos rezando e nunca desistimos. Até o juiz mau da parábola acabou agindo bem.