La Higuera é bem aliii…!

João Capiberibe

Na Amazônia quando um ribeirinho te dá uma noção de distância, fazendo bico com os lábios e repetindo, é bem aliii, é melhor se acautelar. Para nossa gente, a noção de tempo e distância é completamente outra, nada a ver com a urgência da vida urbana.

Volto a repetir então, La Higuera é bem aliii! Onde o vento faz a curva.

La Higuera não é apenas a denominação de um lugar distante e de difícil acesso, faz parte também, na companhia de outras expressões, como Quebrada Del Churo, Ñacahuazú, Vallegrande, etc. dos lugares remotos que povoaram minha imaginação nos anos finais de minha adolescência e que, definitivamente, cutucaram meu inconformismo com vara curta.

Na época em que me familiarizei com essas expressões, a opressão e as injustiças sociais que me rodeavam, exigiam decisões mais ousadas e urgentes. Naquela época, os ventos ideológicos sopravam forte, vindos dos Andes para a planície, bastava dar asas às emoções políticas e seguir em frente, foi o que fizemos. Sem perda de tempo partimos para a ação e deu no que deu.

Os lugares remotos chegaram-nos encharcados de utopia e decepção, foi por ali que andou Ernesto Guevara La Serna, o Che, comandando um punhado de homens com uma enorme disposição de mudar o mundo pelas armas, determinados a acender, no coração da América Latina, o fogaréu revolucionário que se espalharia por todo o continente.

Tempos difíceis aqueles do Brasil da ditadura. Os direitos humanos tinham virado farelo juntamente com os direitos políticos. Caetano Veloso decretara que era proibido proibir, porém a ditadura nem ligou à ordem do poeta, tratou de apertar o cerco empurrando os mais afoitos para o caminho das armas.

Nesse clima, de não pode isso, não pode aquilo, chega às minhas mãos uma cópia mimeografada do “Diário do Che”. Depois de uma noite insone sem despregar os olhos da leitura dos registros diários que vão do dia 7 de novembro de 1966, dia da primeira anotação dando conta da instalação do acampamento na região do Rio Ñacahuasú até a última datada de 7 de outubro de 1967, na Quebrada Del Churo, um dia antes do fim.

Concluí a leitura com a certeza que aquele era, definitivamente, o caminho a seguir. Sem entender nada de armas e sem saber atirar, abracei a luta armada me engajando na ALN (Ação de Libertação Nacional) liderada por Carlos Marighella, porém antes de disparar o primeiro tiro, caí preso junto com minha companheira Janete no dia 7 de setembro de 1970.

Deu tudo errado, cá e lá, no dia 8 de outubro de 1967 ferido nas pernas, Che caiu prisioneiro nas mãos do Exército. O governo boliviano consultou a CIA sobre o que deveria fazer. De lá vem à ordem de execução. No dia seguinte, na escolinha da comunidade de La Higuera o subtenente Mario Teran cumpriu a decisão e assassina o homem que se tornaria mito e exemplo para os povos oprimidos do mundo.

Antes de completar um ano de prisão, Janete, que havia sido libertada na véspera do parto de nossa primeira filha Artionka, organiza minha fuga do Hospital da Santa Casa, onde me encontrava sob forte escolta policial para tratamento de saúde. Naquela mesma noite do final de julho de 1971, quando deixei o hospital disfarçado de médico, após cumprimentar meus carcereiros na portaria, ganhei a rua, caminhei duas quadras para juntar-me a Janete e nossa filha, daí empreendemos uma longa viagem subindo o Rio Amazonas, em seguida o Madeira até Guajará-mirim em Rondônia por onde cruzamos a fronteira boliviana.

Após três meses de clandestinidade na Bolívia, conseguimos, num golpe de sorte, cruzar a fronteira peruana e seguir para o Chile de Salvador Allende. Depois de atravessar o deserto de Atacama, finalmente o ônibus em que viajávamos entrou em Santiago no entardecer do Natal de 24 de dezembro de 1971, onde nossa pequena família comemorou a data e a liberdade em segurança.

Muitos anos depois, a convite do coordenador do MST, João Pedro Stédile, eu e Janete voltamos à Bolívia, dessa vez, munidos de passaportes diplomáticos e sem ninguém em nosso encalço. Integramos uma comitiva, da qual faziam parte dois bispos, um católico e outro anglicano; dois monges, um beneditino e outro zen budista; mais onze pessoas, entre músicos e jornalistas. Nosso destino La Higuera. Nosso objetivo homenagear o Che quarenta anos depois do seu assassinato ocorrido na escolinha daquela comunidade.

No domingo, sete de outubro, as vinte três e quarenta e cinco partimos de Guarulhos. Depois de uma escala em Campo Grande, o avião pousou no aeroporto Internacional de Santa Cruz às três e vinte cinco. No dia seguinte cedo colocamos o pé na estrada.

Che em seu diário registra que levou dois dias de jeep para cobrir duzentos e cinqüenta quilômetros de Santa Cruz até a região do Ñacahuazú. Quarenta anos depois, gastamos nove horas para realizar percurso semelhante, em veículo bem mais moderno e confortável. Dividimos a viagem em duas etapas, a primeira de duzentos quilômetros de Santa Cruz a Vallegrande, onde pernoitamos, durou cinco horas e meia. A segunda de cinqüenta quilômetros de Vallegrande a La Higuera, gastamos três horas e meia.

Em Valle Grande, fundada pelos espanhóis no século XVI, com seis mil habitantes e rodeada de montanhas, foi realizada a primeira cerimônia religiosa diante das lápides dos sete guerrilheiros, cujos corpos, foram encontrados em vala comum, trinta anos depois de suas mortes. Entre eles o mais célebre, o mítico e legendário guerrilheiro heróico, Ernesto Che Guevara.

No dia seguinte nove de outubro, partimos para La Higuera. Estrada de terra, poeirenta e muito estreita, em alguns trechos mal cabia as quatro rodas do veículo, que contornando montanhas subia cuidadosamente. O motorista do micro ônibus, muito habilidoso, apesar de marinheiro de primeira viagem por aquele caminho imprevisível e perigoso, transmitia segurança e serenidade a todos.

Fizemos rápidas paradas ao longo do caminho para registro fotográfico, a mais importante foi na Quebrada del Churo onde Che foi ferido e preso pelo Exército Boliviano após onze meses de intensa perseguição.

Finalmente chegamos ao nosso destino, La Higuera, o vilarejo hoje conta com água encanada e aguarda a chegada da energia elétrica 24 horas. Entramos em uma ruela muito estreita, cujas casas construídas em adobe ampliam o cenário de pobreza em que vivem seus moradores.

Logo chegamos à pracinha, palco de todas as homenagens, primeira parada para fotos, ao lado de uma grande estátua, um bronze de corpo inteiro do Che, seguido de mais dois bustos, um pequeno plantado no meio da pracinha, outro enorme assentado em um tronco de árvore sobre uma ravina, tendo duas montanhas como paisagem de fundo e uma cruz branca a sua direita. No lenho que sustenta o busto se lê: “Tu ejemplo alumbra um nuévo amanecer”, a poucos metros adiante se encontra “La Escuelita” onde Che foi executado, agora transformada em museu.

Esse ambiente ao ar livre, no alto da montanha, encharcado de lembranças dos que foram imolados por defenderem a igualdade e a justiça social, nesse dia, estava tomado por visitantes de todo o mundo. O que mais me impressionou foi à tenra idade dos peregrinos, rapazes e moças com suas mochilas e roupas coloridas que se juntaram a comitiva para segurar bandeiras de cada país da América Latina e orar por uma sociedade mais justa, como era o desejo do Che e seus companheiros.

Esse momento de fé religiosa me comoveu e me fez lembrar a pequena comunidade de Mazagão Velho no Amapá, onde todos se mobilizam e a cada ano reproduzem a batalha entre mouros e cristãos, destacando a figura guerreira de São Thiago, que combateu ao lado dos cristãos na Europa do século XVI. Em La Higuera, alguns moradores já denominam Che por São Ernesto, outros o comparam a Jesus Cristo e eu cheguei a conclusão que a água encanada, antena parabólica e a presença de dois médicos cubanos na comunidade, podem não ser milagres mas decorrem certamente da presença do Che na região. Dispor, naquelas lonjuras, de conforto mínimo da vida moderna, só mesmo por obra e graça do Santo Ernesto.

João Capiberibe, ex-preso e exilado político, ex-prefeito de Macapá, ex-governador e ex-senador do Amapá. Vice-presidente Nacional do PSB.