Trânsito: Diretor do SAMU diz que pontos críticos são conhecidos.

Macapá, 30/09/07 - O Amapá é hoje, segundo as estatísticas divulgadas pela imprensa, inclusive nacional, e pelos órgãos que trabalham diretamente com os acidentes no trânsito amapaense, o Estado que figura na primeira posição em mortes no trânsito no país. Depois do Amapá vêm os estados do Rio de Janeiro, Pará, Alagoas, Pernambuco e Amazonas, que completam a lista dos cinco que mais fazem vítimas nas ruas.

Tristes estatísticas - Segundo matéria cedida pela TV Marco Zero, retransmissora da Rede Record no Amapá, para a Audiência Pública promovida nesta quarta-feira, 27, pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, presidida pelo deputado estadual Camilo Capiberibe (PSB), 100 pessoas por ano perdem a vida no Estado em decorrência dos acidentes que, no intervalo de 2001 a 2006, liderou o ranking nacional por três vezes. A falta de uma efetiva engenharia de trânsito, de uma política de educação para a cidadania no trânsito, bem como o uso de bebida alcoólica em excesso, o uso do celular ao volante e as ruas precárias, são considerados fatores que contribuem a cada dia para a perda de vidas.

Até a metade deste ano já foram computados 57 óbitos causados pela imprudência dos motoristas. No ano de 2005, 70,37% dos atendimentos no Centro de Reabilitação do Amapá (CREAP), foram destinados às pessoas que sofreram acidentes graves no trânsito; em 2006, o número subiu para 73,43%. Segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Amapá, já houve até o momento, 1326 ocorrências de acidente de trânsito. A Polícia Militar apontou que de cada 10 notificações feitas nas ações mais efetivas de trânsito, 05 são destinadas a condutores que não têm carteira de habilitação.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), que esteve representado pelo médico Benedito Bahia, de janeiro até o dia 26 deste mês, já atendeu 721 ocorrências de acidentes, 80 por mês, 02 ao dia. Bahia alertou que, além da maioria das ocorrências serem em cruzamentos, “as autoridades sabem que há pontos fixos de acidentes em cruzamentos, mas infelizmente não resolvem nada”, e ainda completou que a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), também é responsável pela deficiência no atendimento. “A CEA também deveria estar aqui para explicar porque não há iluminação em determinadas ruas de Macapá que atrapalham o resgate do SAMU”. O médico denunciou também que o grande número de trotes, 3000/mês, prejudica o resgate de quem realmente precisa do serviço.

Educação no trânsito é a solução, afirmam especialistas.

Outras autoridades participaram da audiência pública, como o inspetor Sid Neves Mira Martel, da Polícia Rodoviária Federal. O inspetor afirmou que a PRF possui estatísticas de que o gasto do governo federal com atendimento às vítimas do trânsito é superior a outras atividades, e ainda sustentou que “o trânsito está sempre em segundo plano em todas as situações. Particularmente não temos nada de específico nessa questão, e por isso fazemos palestras tentando prestar informações à sociedade. Temos buscado o apoio de parceiros como a Empresa Municipal de Transportes Urbanos (EMTU), a Polícia Militar, o DETRAN e o SESC, para fazer chegar às pessoas uma questão mais educativa”. O superintendente de trânsito no município de Santana, Luiz Monteiro concorda, mas vai além enfatizando que a educação deve ser iniciada desde o pré-escolar. “É educando a criança hoje que certamente teremos motoristas e pedestres mais responsáveis no futuro”.

‘Guerra do Iraque’ - O major do Corpo de Bombeiros, José Mont’alverne Neto, enfatizou que “O CBM realiza palestras nas escolas de Macapá, contribuindo com o trabalho preventivo, com o objetivo da formação de motoristas e cidadãos mais conscientes”. A segurança no trânsito se faz com educação, assim como a intensificação de medidas policiais efetivas, que infelizmente não existem aqui”, criticou. O major ainda lembrou que as autoridades precisam ser pressionadas para acabar com os acidentes, pois, “mais de 35 mil mortes por ano acontecem no país, o que já é considerado como desastre pela Defesa Civil; morrem muito mais pessoas no trânsito do que na guerra civil do Iraque”.

Descaso do poder público também contribui com os acidentes.

Além de grave denúncia do deputado Dalto Martins (PMDB), que pertence à base governista, de que no ano de 2006 6 mil carteiras de habilitação teriam sido ‘distribuídas’, o que contribui veementemente para os acidentes de trânsito, as ausências da grande maioria dos deputados estaduais, do diretor-presidente do Detran, assim como do governador Waldez Góes, e do prefeito João Henrique, além da falta de cobertura da imprensa sobre um assunto tão sério (a única a cobrir o evento foi a TV Marco Zero (Record) e TV Macapá (BAND), foram criticadas amplamente pelos debatedores, que pontuaram algumas falhas na administração pública que elevam as estatísticas de mortes no trânsito do Amapá.

Marcelo Fonseca, da Associação Transvida, que já teve um familiar vítima do trânsito, situou que há sérios problemas na engenharia de trânsito da EMTU, que possui apenas dois profissionais especialistas. “A engenharia de tráfico está obsoleta, e com a entrada de 10 mil veículos ao ano em Macapá, não terá como desafogar o caos que ocorre atualmente em nossa capital; não há estratégia de engenharia que dê jeito. O governo do Amapá arrecadou até o dia 18 de setembro, quase R$18 milhões com IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores), dos quais repassou R$ 8,5 milhões para a prefeitura, e nada foi feito. Dinheiro tem, e o que falta para estas autoridades é terem mais consciência a respeito deste problema, mantendo um diálogo sobre um trânsito que mata”.

O próprio parlamentar Dalto Martins fez duras críticas aos governantes. “O maior culpado disso tudo é o poder público; se não há educação no trânsito é porque o governo não está preocupado com isso. A responsabilidade é do Estado, da prefeitura, do Ministério Público, dos políticos. Quando a gente ouve que mais de 6 mil carteiras foram distribuídas até para analfabetos que não sabem ler uma placa de trânsito, alguma coisa não está correta”. O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Joinville Frota, seguiu o mesmo raciocínio. “Os culpados pelas mortes no trânsito têm nome e sobrenome: o governador Waldez Góes, que está no segundo mandato, não está fazendo nada, assim como o prefeito João Henrique; eles são os culpados pelas vidas que estão sendo levadas no trânsito. Se o dinheiro dos impostos fosse investido em melhorias, nossas ruas não estariam caóticas. É preciso fazer um grande movimento contra Waldez Góes e João Henrique”, disse Frota.

O presidente do sindicato dos taxistas (SINTAXI), Rizonílson Barros, falou da precária sinalização nas ruas de Macapá. “A sinalização é uma das razões para se evitar os acidentes. Não existe sinalização nem vertical e nem horizontal para a prevenção. Temos apenas 38 semáforos em Macapá, obsoletos”, e completou: “Não há verba para pagar os próprios funcionários da EMTU, imagine para investir no trânsito, o poder público tem toda a responsabilidade”. Barros ainda apontou as boates e os postos de gasolina com lojas de conveniência como fatores causadores da violência no trânsito. “Os jovens que lá bebem ouvindo o som alto de seus carros possantes saem de lá dirigindo bêbados, sem a mínima consciência de que podem atropelar um cidadão”.

Diretor-presidente da EMTU pede “ajuda”.

O coronel da Polícia Militar, Valdeci Guedes Rodrigues, que administra a Empresa Municipal de Transportes Urbanos, confessou na Audiência Pública que o trânsito de Macapá é caótico, porque “há uma grande deficiência no sistema. A falta de educação no trânsito é um dos fatores negativos; nós todos somos mal educados, não buscamos informação. Há pais que entregam seus veículos aos filhos não habilitados e que dirigem embriagados, e em 35 anos de polícia nunca vi uma arma tão letal quanto o carro. Eu peço ajuda vindo aqui, porque o trânsito não é só uma responsabilidade minha, ela vai desde a imprensa até o próprio pedestre. As questões administrativas impedem que as modificações sejam efetivamente aplicadas”.

Cantor Zé Miguel expõe revolta contra a classe política; “pago meus impostos e quero meus direitos respeitados”.

O filho do cantor e compositor Zé Miguel, Marcos Caíque, perdeu a vida na rodovia Duque de Caxias há dois anos ao ser atropelado violentamente por um condutor embriagado, que sequer teve a carteira de habilitação retida; o caso ainda corre na justiça. A participação do cantor na Audiência Pública representou a revolta de outros pais e mães que sofrem com a perda de um filho. Emocionado, Zé Miguel, ao lado da esposa, desabafou na Assembléia Legislativa contra os deputados estaduais que não estavam presentes no evento promovido pela CDH, assim como também reclamou da retirada do coronel Rodrigues, da EMTU.

“Minha tristeza é ver poucos representantes do povo nesta Casa. Dos 24 deputados, apenas 04 se interessaram. É uma infelicidade quando o povo elege e paga o salário dos políticos, não poder contar com eles. Manifesto meu repúdio também neste momento em que o coronel Rodrigues não está mais presente; veio aqui pedir ajuda, e eu como cidadão é que peço ajuda para saber onde está o dinheiro dos impostos que não são aplicados em nada, nem sequer na identificação das ruas”.

Zé Miguel lamentou ainda que no Amapá vidas estejam sendo interrompidas devido à imprudência e irresponsabilidade de alguns motoristas. “Não agüento mais chorar, porque recebo a noticia todo dia que mais uma pessoa faleceu em via pública, e vejo meu filho morrer de novo, e infelizmente vou continuar vendo. Sofro até hoje, e acho que não vou deixar de sofrer nunca. Estou aqui como pai e cidadão, e peço que a ação de hoje tenha uma continuidade para que possamos ligar o rádio e não ouvir dizer que alguém morreu nas ruas de Macapá”.

Presidente da CDH cobra atitude dos órgãos responsáveis.

O deputado estadual Camilo Capiberibe encerrou os debates sustentando que “não consigo entender porque o povo amapaense é obrigado a sofrer tanto por conta de um trânsito assassino. A gravidade está na falta de vontade de implementar as políticas públicas financiadas pelo dinheiro proveniente dos impostos que o cidadão e a cidadã pagam, o que não ocorre. Se falou em 17 milhões do IPVA dos quais R$ 8,5 milhões são repassados para a EMTU. Não dá para acreditar que com este recursos não seja possível ir melhorando aos poucos. Como é possível admitir que o presidente da EMTU, Coronel Rodrigues, venha no sétimo ano de mandato do Prefeito João Henrique pedir ajuda para resolver o problema da violência do trânsito. Ele deveria ter vindo para explicar o seu plano e infelizmente ficou claro que não existe plano nenhum”.

O deputado do PSB não escondeu sua decepção com a ausência do diretor do Detran, considerando um desrespeito ao poder legislativo e uma afronta à população, ofício indicando que o diretor do Detran não participaria por estar ausente do estado. “Porque ele não mandou um representante já que vários órgãos o fizeram? Isso é um retrato do descaso e da falta de compromisso do governo do estado com este grave problema”. Quanto à baixa participação de parlamentares - apenas os deputados Ruy Smith, Dalto Martins, Ricardo Soares, Michel JK, Moisés Souza além do deputado Camilo Capiberibe estiveram presentes durante a sessão - o socialista disse que alguns políticos não vêm participar porque “discutir a violência no trânsito não dá voto”. Quanto aos recursos, o deputado Capiberibe disse que “tudo indica que há dinheiro em caixa para se fazer pelo menos as modificações básicas para a diminuição de tanta violência, mas nada é feito”.

O socialista finalizou desabafando; “me sinto tão angustiado quanto todos. Não é natural ver tantas pessoas morrerem por causa da incompetência e da falta de sensibilidade. Temos o poder de fiscalizar e, às vezes, somos até taxados de chatos por algumas pessoas, mas prefiro ser chato do que omisso e nossas cobranças quanto ao tema estão apenas começando”.

Raul Mareco