Para Paulo Moura, Lula usou o velho oligarca para eleger-se e governar, e agora vai descartá-lo Segundo o cientista político, doutor em comunicação social pela PUC-RS e professor da Universidade Luterana do Brasil Paulo Moura, os dias do senador José Sarney como “prestigiado” conselheiro e aliado de todas as horas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estão contados. Segundo Moura, Lula imita seu antecessor Fernando Henrique Cardoso e “dá continuidade ao extermínio político dos velhos oligarcas e de seus clones, geneticamente defeituosos”, como Renan Calheiros. “O tucano mor [Fernando Henrique] usou os velhos senhores feudais da política brasileira para eleger-se, governar e modernizar, em parte, a economia e o Estado brasileiros, e depois rifou gente como Antonio Carlos Magalhães, Jáder Barbalho e o próprio Sarney”. Leia, na íntegra, o artigo de Paulo Moura

Renan Calheiros já era. Sarney é o próximo

Paulo Moura.

José Sarney é o último dos grandes oligarcas nordestinos merecedores desse ‘título nobiliárquico’. Quem conhece o Maranhão sabe que o poder do clã Sarney se confunde com o próprio Estado como estrutura institucional e como unidade territorial. De fato, o Maranhão é quase um feudo. Quem passa diante do Tribunal de Justiça maranhense testemunha a estátua gigantesca e imponente do patriarca do clã, eliminando qualquer dúvida sobre a imparcialidade do braço jurídico do Estado no feudo dos Sarney. José Sarney é, também, a encarnação viva da versão arcaica do patrimonialismo na política brasileira. A carreira política de Sarney inicia na década de 1950, quando, em 1955, foi eleito deputado federal. Hoje, portanto, Sarney é o parlamentar mais antigo em atividade no Congresso Nacional. Além de ter sido, por diversas vezes, deputado e senador, Sarney governou o Maranhão entre 1966 e 1971 e atingiu o ápice de sua carreira entre 1986 e 1990, quando chegou a presidente da República por acaso (?), como conseqüência da morte de Tancredo Neves, de quem era vice na chapa escolhida de forma indireta para conduzir a transição do regime militar para a democracia. Ao longo de sua carreira, Sarney foi membro da UDN, depois foi presidente da Arena e do PDS, antes de se filiar ao PMDB em 1988, após uma breve passagem pelo PFL. Político centrista por excelência, Sarney possui a viscosidade típica do fisiologismo característico da maioria dos políticos brasileiros, razão pela qual acomodou-se tão confortavelmente no PMDB. A partir do PMDB, Sarney opera com maestria seus interesses, revelando-se o mais competente de todos os políticos brasileiros contemporâneos.

Ocupando ou não posto formalmente relevante no parlamento, Sarney detém poder político de fato. E o exerce como aliado fiel quando reconhecido, ou como adversário sempre que não lhe é dada a proeminência correspondente ao cacife que tem. Sua arma é o veto; seu estilo é a ação discreta como operador de bastidor que usa prepostos para as ações de vitrine. Sarney paralisa quaisquer governos quando quer, desde que deixou a Presidência da República acuado pela hiperinflação e pelas denúncias de corrupção que marcaram o fim de seu mandato presidencial, em 1988. No futuro, quando os historiadores investigarem os ‘arquivos secretos’ do que se passou na política brasileira atual, não será surpresa se descobrirem a mão invisível de Sarney por trás do impeachment de Collor; da eleição e da reeleição de FHC; da eleição e da reeleição de Lula e, também, da maioria dos impasses que todos os presidentes que o sucederam sofreram no Congresso Nacional, toda vez que questões relevantes envolvendo o controle e a gestão do poder foram objeto de negociação. José Sarney, no entanto, é um oligarca em decadência e vive as circunstâncias da modernização da política brasileira, que acompanha a modernização de uma nação que se urbaniza aceleradamente desde 1930, e hoje se integra de forma singular ao processo de globalização. Sob o governo de Lula, o Brasil tenta a revitalização do patrimonialismo, agora não mais sob comando de oligarquias rurais e empresariais arcaicas, mas através de uma aliança da burocracia sindical com o capital financeiro e setores empresariais, que patrocinam o esquema em troca de benesses.

A base eleitoral de Lula é mesma das velhas oligarquias que manipulavam a ignorância popular e compravam a alma corrupta de um povo imaturo e ainda carente do paternalismo de tipo clientelista, consolidado na cultura política nacional como herança das oligarquias arcaicas que Sarney representa.

Por paradoxal que pareça, a chegada de Lula e do lulismo ao poder é uma faceta contraditória da modernização à brasileira, que busca adaptar nosso patrimonialismo ao paradigma do mundo globalizado, repetindo o padrão da modernização conservadora já exaustivamente caracterizado pela ciência política tupiniquim. Lula, também nisso, imita FHC e dá continuidade ao extermínio político dos velhos oligarcas e de seus clones, geneticamente defeituosos. O tucano mor usou os velhos senhores feudais da política brasileira para eleger-se, governar e modernizar, em parte, a economia e o Estado brasileiros, e depois rifou gente como ACM, Jáder Barbalho e o próprio Sarney.

Lula acaba de ceifar Renan Calheiros, mandando-o para o limbo do poder. O método está evidente aos olhos de quem quer ver. O petismo dá o cargo e a visibilidade e depois fabrica o escândalo fatal. O senador petista Tião Viana, novo senhor feudal do Acre, constrói a prancha com que o PT pretende jogar Sarney aos tubarões. E Lula avisa: ‘A presidência do Senado é do PMDB’. A cadeira de presidente do Senado, hoje, é um patíbulo sobre a qual repousa uma reluzente guilhotina. Senta, Sarney!”