A tentativa de assassinar o debate

*Heverson Castro

“São tantas as coisas, mas eu não sou as coisas e por isso me revolto.” (Carlos Drummond de Andrade)

Os últimos dias da vida política do PT ficaram marcados por várias “relíquias políticas”, que são criadas constantemente por setores ligados ao campo majoritário que dirige atualmente o partido em Santana. O Processo de Eleições Diretas do Partido (PED), que conta com quase 1030 filiados aptos a votar no município, começou primeiramente, pelos bastidores, de forma movimentada, com a tentativa de se fazer “acordos” que visassem à consolidação de uma candidatura a presidente e uma chapa de consenso das diversas correntes políticas que se encontram no PT.

O que é de se estranhar é que quem entrou em cena não foram pessoas que fazem parte da atual direção do PT, mas a tropa de choque do governo local, que operou de forma desqualificada no processo, se achando a melhor alternativa para o partido, simplesmente porque detém a máquina partidária e do governo em suas mãos.

Pois a juventude é um gigante,
coração de estudante
e as mãos de lavrador
”. (Naldo Maranhão)

De outro lado, enquanto tentava-se construir um consenso de maneira brutal, dado pela força dos cargos comissionados, outro campo político composto por militantes da esquerda do PT (DS E MPT) colocava em cena uma nova alternativa que visasse forçar o debate político dentro do partido. Essa alternativa que hoje é na sua maioria composta por militantes da juventude do PT, era tratada de maneira desqualificada pelos dirigentes do governo, como a candidatura dos “moleques” do PT.

A movimentação política desencadeada pelo governo não visava apenas construir (impor) uma candidatura pelo consenso da força dos cargos, dado pelos acordos esdrúxulos que visam um programa meramente eleitoreiro para 2008, de uso da máquina pública e partidária, que com certeza se aprofundarão no decorrer do processo político do PED, mas também tinha como eixo principal, assassinar o debate político em torno da nova direção que vai dar os novos rumos para o PT de Santana no próximo período.

Essa tentativa de reduzir o PED a uma lógica mecanicista eleitoral, da prática vergonhosa de buscar o filiado em casa para votar, sem fazer um debate profundo sobre os problemas pelos quais passamos, não comunga com a nossa trajetória política de construir convergências baseadas em um programa que defenda nossas bandeiras históricas, de luta ideológica e de classes, onde o PT possa desencadear no seio da sociedade a transformação social. E principalmente criar uma plataforma organizativa, onde nós possamos retornar ao antigo modelo de vitalidade política constituída pelos núcleos de base, pela formação política e de novos quadros, na vinculação direta com os movimentos sociais, valorizando a militância de rua e fazendo um debate fraterno e critico sobre nossos problemas, que hoje tem como “epicentro da questão” o engessamento político, organizativo e ideológico do PT, atrelado a outro elemento: o governo local.

Nestes 27 anos de historia do PT aprendemos, pela arte da democracia interna, a construir a unidade política nos moldes da pratica de esquerda. Fazendo um debate de cunho programático visando à hegemonia pelas idéias e não pela força, seja ela qual for, e que nesse momento se expressa pela pressão dos cargos comissionados e pelas alianças que o prefeito Nogueira realiza no seu governo. Não foi assim que aprendemos a discutir o PT, com as velhas práticas do “caciquismo político” nas estruturas do partido, utilizando o aparelho do Estado. Foi através do debate, da autocrítica, da maneira fraterna, democrática e solidária, que sempre resolvemos nossos problemas e é assim que queremos continuar resolvendo.

Sinceramente a Articulação Unidade na Luta já foi muito boa em construir convergências, baseadas num debate qualificado do programa democrático-popular, esta deficiência teórica vem desde 1995, quando o PT nacional, dirigido por esta corrente e outros grupos que faziam parte do campo majoritário, começou a verticalizar a sua estratégia de centro-esquerda e fazer alianças com setores fora do campo democrático-popular. Tal deficiência (crise) se aprofundou em 2005 e vem se refletindo em todas as instâncias dirigidas pelo grupo majoritário do partido, não é de se estranhar que o governo local tenha no seu arco de alianças, nada mais nada menos, do que os Democratas (ex-PFL), o que se tem de mais reacionário e conservador na política brasileira.

A candidatura colocada pelo campo majoritário não comporta as esperanças e os sonhos das centenas de filiados, militantes, simpatizantes e dos lutadores sociais, que ainda vêem no PT uma ferramenta de luta das classes populares e dos trabalhadores, desejando para o futuro do PT a sua reafirmação de ser um instrumento democrático, socialista e de massas. Ela é o continuísmo da atual direção, marcada pela instrumentalização a um mandato parlamentar, pela oligarquização do partido, autoritarismo, desvalorização da militância e de nossa juventude, reduzindo o partido a uma mera “correia de transmissão” do governo municipal, governo este que nem aos menos pode ser chamado de popular, pois é vinculado pelo uso da máquina pública, nepotismo e por alianças espúrias com a direita e que não consegue pelo menos implantar as políticas do modo petista de governar.

Todos nós sabemos a realidade vergonhosa do PT em Santana, ela é de desmotivar qualquer militante comprometido com a nossa historia. O partido que está no governo local, não tem se quer sede e não conseguiu realizar nesses últimos dois anos um curso de formação política de base. A atual direção não tem sequer o respeito pelos filiados que contribuem financeiramente com PT, não fazendo as prestações de contas, do que arrecadam e onde gastam essa contribuição. Além do que não tem sequer a ousadia de criticar e apontar os erros do governo e reunir a sua direção pra fazer um balanço da sua gestão.

O que está em jogo nesse PED são justamente as “relíquias políticas” citadas por mim logo no inicio deste artigo, elas devem ser combatidas e destruídas da nossa prática militante cotidiana. Não podemos reduzir o PT a uma mera máquina eleitoral, o que temos que fazer é deixar que o PT continue sendo um instrumento político de luta social, combatendo a exploração do capital, as injustiças sociais e defendo os excluídos. É preciso avançar na construção de uma nova alternativa política que seja o contraponto fundamental a atual direção vigente no partido.

À nova direção cabe a tarefa de mudar os rumos do PT e do governo local, sendo a contra-mola de um novo debate político que reconstrua o campo democrático-popular em Santana, só assim é que poderemos novamente em 2008 retomar o projeto político iniciado em 2004, com a derrocada da direta e a vitória dos velhos sonhos de criança. Mas pra isso acontecer temos que ter coragem de mudar e ousadia pra lutar o bom combate.

Vamos ao debate e a LUTA, até a vitória sempre!

Heverson Castro é candidato a presidente do PT de Santana-Amapá.