Carta aberta ao jornal impresso “A Gazeta”.

* Raul Mareco

A profissão de jornalista, como todos muito bem têm conhecimento, é recheada de atribuições, na maioria das vezes, despertadas pelas pressões cotidianas que exigem do jornalista a entrega do material textual de acordo com a editoria a que foi designado, o tão propalado (e “tenebroso”, principalmente para os “focas”) dead-line, o prazo final, regido sem perdão pelos jornais impressos.

Dependendo do veículo de comunicação, um profissional possui remuneração suficiente para exercer sua labuta. Esta afirmação é um tanto relativa, pois, pagar bem um bom profissional depende geralmente de uma crescente receita advinda de diversos ganhos, e entre estes, estão os espaços publicitários do jornal, que são milimetricamente calculados, e dependendo do tamanho do box, a negociação é bem-vinda. Há também o processo organizacional das assinaturas de determinado jornal impresso, que também contribui para a elevação do lucro para a empresa.

O processo de feitura dos jornais impressos, principalmente os mais importantes do Centro-Sul, como a “Folha de São Paulo”, ou até mesmo no Norte, como é o caso de “O Liberal”, é extremamente profissional, com algumas exceções negativas, onde sempre o pagamento de funcionários figura. Da reunião de pauta, passando pela produção textual, pela pesquisa intensa e profunda que sustenta uma boa matéria, pela negociação publicitária com as empresas interessadas, pela aprovação do editor-chefe, passando pela gráfica e, por fim, chegando às bancas e revistarias, assim como aos assinantes, gera um sistema claramente interligado e de certa forma complexo.

Os jornais do Amapá são processados da mesma maneira, com um porém. A classe jornalística geralmente não é respeitada pelos donos dos meios de comunicação, em sua maioria ligados intimamente a políticos, forçados a seguir uma linha editorial por vezes distorcida da realidade, da conjuntura factual, para satisfazer o ego destes senhores, isso é fato, qualquer ingênuo reconhece.

A imprensa, por ironia, que é quem deveria noticiar que fatos como o atraso salarial de seus colegas, como vem ocorrendo a quatro meses no Jornal “A Gazeta”, ligada a um forte grupo político, não o faz. Infelizmente, ainda não há uma luta engajada que una a classe jornalística no Amapá, que visa a solução destas problemáticas. Sei que este tipo de noticia não gera receita, tampouco deva interessar ao publico amapaense, mas, poderia servir como um grande alerta para evitar este tipo de constrangimento.

Sim, constrangimento. Quatro meses sem poder contar com um tostão furado nos bolsos, é pôr o indivíduo contra a parede, é desrespeitar o ser humano. Já basta a falta de comprometimento com a real notícia - que não é de forma alguma culpa dos profissionais -, tendo como exemplo as manchetes e fotos de teor altamente sensacionalistas, piores até que os tablóides ingleses, sempre descambando para o “quanto mais sangue, mais venda de jornais”, o que particularmente considero um crime.

Senhores proprietários do jornal “A Gazeta”, vou repetir enfaticamente: são QUATRO meses de atraso salarial. Onde estão seus rendimentos? Oferecer “vale” para seus funcionários não basta, é o mesmo que oferecer uma esmola qualquer para “suavizar” o calote. Tive conhecimento de que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amapá (SINDJOR), através de seu presidente, Volney Oliveira, já esteve conversando com os diretores do jornal, mostrando que o SINDJOR-AP já sinalizou para a gravidade da questão. Mas, outra informação, mesmo depois da preocupação do Sindicato, é a de que nada foi resolvido.

A qualidade de um jornal impresso depende indubitavelmente do acesso aos benefícios reais a que os jornalistas têm direito. Depende do respeito, de uma remuneração adequada, da reciclagem constante destes profissionais; depende, exclusiva e especialmente, do estado psicológico. É um processo sistemático de troca que existe em qualquer outra profissão, onde a relação patronado-funcionários será avaliada, e, dependendo da consciência exercida pelos “senhores da mídia”, a relação não se desgasta, que é o que não vem ocorrendo com o jornal “A Gazeta”. Não faço parte do quadro de funcionários deste jornal, tampouco pretendo fazer, porém, como colega de profissão, me sinto na súbita obrigação de redigir este humilde texto, e de me associar aos que estão sendo mazelados pela falta de bom senso.


* Jornalista, atualmente assessor de imprensa