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Valter Pomar

A Veja desta semana dedicou sua capa ao Che. Intitulada “A farsa do herói”, a revista promete “verdades inconvenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte”.

É claro que Che virou um mito e, portanto, há uma distância entre o homem e a lenda, que pode ser (e muitas vezes é) explorada por críticos de esquerda e direita, resultando ou numa destruição mais eficaz, ou numa compreensão mais correta do personagem e suas circunstâncias, inclusive daquelas que o transformaram em mito.

Mas Veja não faz nada disto. Cada vez mais parecida com a Seleções do Reader’s Digest, o semanário da Abril tenta construir um antimito: alguém cuja vida, “exceto na revolução cubana, foi uma seqüência de fracassos”.

Como são poucos os de quem se pode dizer que fracassaram em tudo, “exceto” numa revolução que marcou a história da América Latina, a interpretação que Veja faz de Che só agradará a direitistas muito ignorantes.

Pois direitistas medianamente inteligentes não engolirão o antimito proposto por Veja: um “ser desprezível”, com uma “maníaca necessidade de matar pessoas”, uma “crença inabalável na violência política”, buscando de forma “incessante” uma “morte gloriosa”.

Para Veja, o mito de Che se “sustenta no avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante a sua existência”. Se isto for verdade, trata-se de um caso único na história, pois em geral os mitos têm algum tipo de contato com a realidade, por menor que seja.

Segundo Veja, o Che real seria “incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a tiros os adversários”; ajudou a “estabelecer um sistema de penúria em Cuba”; era “aferrado com unhas e dentes à rigidez do marxismo leninismo em sua vertente mais totalitária”; um comandante “imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a morte”.

Para fazer estas afirmações, Veja toma entre suas “fontes” alguns exilados cubanos, mesmo reconhecendo que o “rancor pode apimentar suas lembranças”. E para desconsiderar fontes potencialmente favoráveis, afirma que “o regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial”.

Veja nos poupa da “ladainha oficial” e de qualquer opinião favorável ao Che, nos submetendo a mais vulgar ladainha anticomunista. Isto tudo para concluir que no rastro das concepções revolucionárias de Che, “a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada”.

O argumento é conhecido: a luta armada empurrou as acossadas elites latino-americanas a desencadear golpes militares. Na mesma linha, teria sido a radicalização esquerdista que levou ao golpe contra Allende; teria sido a guerra fria que levou as ditaduras a seguir existindo, muito tempo depois da derrota da luta armada; e, mais recentemente, seriam os “excessos” dos governos Evo, Correa e Chávez que explicariam o golpismo das elites destes países.

Veja poderia ter nos poupado de besteiras desse tipo, limitando-se ao que está no editorial da revista: “para a juventude que quer mudar o mundo, o Che encarna os ideais de justiça e igualdade”.

Esta é a principal fonte do mito: o mundo em que vivemos. Um mundo que precisa de mudança, de socialismo, de revolução. Que Veja não aceite isto, é compreensível. Mas que seus argumentos sejam tão toscos, é sinal dos tempos.

Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT