Carta aberta à sociedade brasileira e internacional
Em repúdio à violência policial
:
"Reaja ou será morto! Reaja ou será morta!"
Pela liberdade de manifestação da juventude negra


Nos dias 05 e 06 de maio aconteceu em São Bernardo do Campo o Encontro Regional de Juventude Negra do ABC, preparatório para o Encontro Estadual e o Encontro Nacional de Juventude Negra (ENJUNE).
O evento foi aberto com o Ato Público em Repúdio ao Genocídio da Juventude Negra, como parte da campanha "Reaja ou será morto! Reaja ou será morta!", que já é impulsionada há dois anos na Bahia. Nossas principais bandeiras no ato foram: contra a redução da maioridade penal, contra a violência policial que tem a juventude negra como principal alvo e por emprego para a população negra.
Para a realização do ato, informamos a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), mas tivemos que alterar nosso trajeto já que a Igreja da Matriz não aceitou nossa solicitação, feita com antecedência, para que o encerramento do ato acontecesse na Praça da Matriz - local utilizado historicamente para as manifestações públicas da região do ABC.
Quando chegamos a uma rua menos movimentada, o carro de som (que foi cedido pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC) foi parado pela polícia militar, que arrancou alguns dos nossos cartazes e exigiu que o ato fosse encerrado naquele momento. Quando os manifestantes já estavam na calçada, a polícia levou quatro manifestantes ao 1º Distrito Policial de São Bernardo sem dizer por qual motivo. Quando Mara do Hip Hop, uma das manifestantes, perguntou ao policial por qual motivo tinha que ir para a delegacia, o policial disse que se ela não fosse, ele a arrastaria pelos cabelos. Na delegacia foi registrado Boletim de Ocorrência contra Gilson Negão e Mara do Hip Hop, por "desacato".
Durante as várias horas que ficamos em frente à delegacia aguardando a liberação dos quatro manifestantes (Eduardo, militante do coletivo Rosas Negra de Mauá; Gilson Negão, acessor do deputado federal Vicentinho; Luciana do coletivo de resgate afro-indígena Quilomboca de Ribeirão Pirres; e Mara do Hip Hop, da Corrente Operária do PSOL e da Casa de Cultura e Política do ABC), recebemos a solidariedade ativa de parlamentares, organizações, militantes e estudantes. Estiveram no local: o deputado estadual Vicentinho, Paulo Dias do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Milton Barbosa do MNU, DCE-USP, Centro Acadêmico de Ciências Sociais da PUC, CEUPES-USP (centro acadêmico de ciências sociais), estudantes que estão ocupando a reitoria da USP (contra ao ataques do governo Serra à educação), Espaço Socialista, Liga Estratégia Revolucionária, Juventude e Revolução dentre diversas outras organizações, militantes e parlamentares. No estado de São Paulo está explícita a linha dura do governo de José Serra com uma repressão policial brutal.Somente nesse fim de semana, além do que aconteceu no ABC, vimos a repressão policial na Favela da Bela Vista, na zona norte de São Paulo, e na Praça da Sé, durante o show do Racionais (momento da Virada Cultural em que havia maior concentração de jovens negros) com bombas e cassetetes. Seguimos denunciando a violência policial que tem a juventude negra como o principal alvo.


Nenhuma punição aos manifestantes do ato do dia 05!
Basta de violência policial contra a juventude negra!
Contra a criminalização do movimento negro!
REAJA OU SERÁ MORTO! REAJA OU SERÁ MORTA!



Assinam:
Fórum de Juventude Negra do ABC, MNU - Movimento Negro Unificado, Comissão de Combate ao Racismo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Coletivo Rosas Negras, Posse Hausa, Coletivo de Resgate Afro-Indígena Quilomboca, Posse Kilombagem, Corrente Operária do PSOL, Casa de Cultura e Política do ABC, Organização Manos de Paz, Liga Estratégia Revolucionária, Núcleo Cultural Força Ativa.



ENJUNE - Encontro Nacional de Juventude Negra
[email protected]
Lista Nacional: [email protected]
Lista Estadual SP: [email protected]
Lista do ABC: [email protected]



DEPOIMENTOS DOS NEGROS E NEGRAS REPRIMIDOS PELA POLÍCIA NO ABC


Hoje, dia 05 de maio por volta das 16h, a polícia deu mais uma mostra de seu caráter reacionário e racista. Cerca de 150 jovens, trabalhadoras e trabalhadores negros estavam reunidos em São Bernardo, perto do Paço Municipal, se manifestando contra o genocídio da juventude negra, fruto da violência policial que todos os dias tira a vida, reprime e humilha jovens e trabalhadores negros e negras. O ato era parte do Encontro Nacional da Juventude Negra (ENJUNE) do ABC. Tudo corria normalmente quando a polícia apareceu reprimindo mais uma vez. Leia abaixo as declarações dos jovens e trabalhadores negros e negras que foram reprimidos.

Por Jornal Palavra Operária

"A gente foi para a rua para denunciar o genocídio da juventude negra. Segundo os números oficiais 70% dos jovens assassinados pela polícia são negros. Estávamos protestando contra a violência policial, mas também contra o desemprego. Daí a polícia veio e disse que estava "ofendida", me puxou pelo braço e me bateu com o cacetete. Meu braço ficou dolorido. Quando ele ia me bater de novo, chegou o resto do pessoal e entrou na minha frente para me defender. Não me lembro do nome dos policiais, só vi um que chamava 2º Tenente Honorato. Eles não pensam duas vezes em avançar contra nós. Prenderam diversos companheiros, como a Mara do Hip - Hop. Nós denunciamos a violência policial porque tudo mundo sabe que ela reprime os negros. Saímos na rua para dizer que não aceitamos mais isso".
Jaqueline - Organizadora do ENJUNE Interior e militante do movimento Hip-Hop de Sorocaba


"Sou uma das organizadoras do Encontro e uma das idéias que tiramos era fazer o ato contra o extermínio da juventude negra. Alguns cartazes falavam do caráter racista da polícia. Partimos da Av. Marechal e quando chegamos numa rua que estava meio deserta, uma de nossas irmãs foi agredida porque estava segurando os cartazes. Quando a gente saiu chegaram muitos policiais. Apareceram umas quatro ou cinco viaturas. Os policiais disseram que a gente tava fazendo "apologia". Em nenhum momento conseguiram explicar o suposto crime que estaríamos cometendo. Eu vi três manifestantes sendo agredidos. Isso é uma ação que mostra para que serve a polícia: proteger a burguesia e seus bens. A maioria das pessoas que morre assassinada pela polícia são negros e pobres. Temos certeza de que isso é racismo. Temos o direito constitucional de nos manifestar, e a postura da polícia é totalmente autoritária e repressiva. Acho que o dia de hoje não será facilmente esquecido pelo movimento negro".
Cathaiara - militante do Quilombagem


"A gente tava na organização do EJUNE querendo debater as demandas da dos negros e negras da região. A juventude do ABC tirou como tema para o ato de hoje "Juventude negra vai à luta" e tinha como atividade uma passeata denunciando o genocídio da juventude negra e do desemprego. São Bernardo do Campo tem 38 % de população negra, e uma imensa parte destes estão desempregados. A falta de emprego é um dos piores tipos de violência, porque nega que a gente tenha uma vida digna. O que aconteceu foi que quando pegamos uma rua um pouco menos movimentada, porque a igreja proibiu que o ato fosse encerrado na Parca da Matriz, chegou a polícia. Eles disseram que iam prender todo mundo por "apologia contra a polícia". Agora pouco liberaram eu e a Luciana. Os dois principais policiais que mais reprimiram acusaram a Mara do Hip-Hop como a que teria feito a principal intervenção que os "ofendeu".
Isso que aconteceu é mais que uma arbitrariedade. Dependendo de como for, se você reclama que não tem emprego, sendo negro ou branco até pode ser que passe batido. Agora se você for negro, a coisa piora muito, porque tudo que é denunciado como racismo nesta sociedade tende a ter uma repressão muito maior".
Eduardo Rosa - representante da entidade Rosas Negras e um dos detidos.


"Hoje dia 05 estava sendo realizado encontro regional de juventude negra do ABC, e na programação do encontro estava previsto um ato contra o genocídio da juventude negra, contra a redução da maioridade penal e por emprego para juventude negra. No meio do ato os policiais pararam o carro de som dizendo que nós tínhamos que tirar os cartazes por que eram cartazes contra violência policial. Além disso, eles mandaram que a gente usasse só uma faixa da rua. Atendemos ao pedido, mas mesmo assim eles quiseram encerrar o ato. Então a gente decidiu voltar pela calçada. Daí os policiais disseram que iam levar a gente para a delegacia. Perguntei porque a um policial, e ele não respondeu. Disse que se eu não fosse ia me arrastar pelos cabelos até a viatura. Viemos para delegacia. Este foi um primeiro ato da juventude negra do ABC contra o racismo, e demonstrou como quando o povo negro sai às ruas a polícia não hesita em reprimir. Mas o povo negro tem uma história imensa de lutas heróicas, e este tipo de violência contra nós só aumenta nossa disposição de luta. Não baixamos a cabeça".
Mara do Hip-Hop - militante da Corrente Operária do PSOL e impulsionadora da Casa de Cultura e Política do ABC