Semana da Cultura encerra com retaliação a artistas e empreendedores populares em Macapá

Chico Terra

A célebre frase “É proibido proibir” que em plena ditadura militar era proferida por Caetano Veloso ao lado de Gilberto Gil, hoje ministro da cultura, infelizmente não ganhou eco nas ouças do prefeito de Macapá eleito pelo PT João Henrique Pimentel, músico, boêmio de carteirinha, cuja administração, eivada de assessores incompetentes e desprovidos do mínimo senso de convívio com as diferenças políticas, pois, resolveram ao sabor do poder que julgam deter, proibir que artistas usem o mercado central de Macapá para trabalhar e levar cultura aos freqüentadores daquele espaço.

Duas semanas atrás, em virtude da não concordância das empreendedoras populares em não ceder seu espaço de trabalho a um evento gastronômico promovido pelo Sebrae, segundo as próprias donas de boxes do mercado, a energia do mercado foi cortada em gesto mesquinho de retaliação. Para completar, em uma reunião sem a participação dos artistas que tentam resgatar culturalmente o histórico prédio do Mercado Central de Macapá, ficou determinado que não haja música lá aos finais de semana, com a desculpa que o projeto que envolve músicos e empreendedores populares precisa ser autorizado pelo prefeito.

Quem o povo não pode ouvir? O povo não tem direito às letras de Chico Buarque de Holanda; o povo não pode escutar Elomar; a cantoria de Vilal Farias e sua saga Amazônica? Nem pensar! É proibido deliciar-se com os versos de Carlos Drumond; Não pode o povo experimentar as delícias amazônicas de Nilson Chaves; Zé Miguel e João Gomes que enterrem a Pérola Azulada.

Pelas paredes do mercado, administrado pela secretaria de agricultura, sob o comando do arrogante João Carlos Banha, é proibido ecoar boa música e poesia. As pessoas não têm direito ao diverso do que a mídia massifica cotidianamente, essa porcaria que entorpece as massas ao raciocínio. Mas o prédio pode ser mal cuidado, e lá, não há dotação orçamentária sequer para compra de sabão para a limpeza interna, segundo palavras do próprio irmão do secretário, o deputado estadual Joel Banha. Culpa dos artistas?

Proibir o povo ao acesso gratuito à cultura, onde já se viu coisa parecida? Sim, em Macapá isso existe! Proibir o artista a prover o sustento de sua família, aonde? Com certeza em Macapá. Quando combalidos pela perseguição e ausência do estado, resolvemos criar alternativas de trabalho para sobreviver, o poder nos impede. Fazer o que? Assaltar um banco para comer? Não, essa não é nossa praia. Fomos postos aqui para cantar. E embora não tenhamos espaços entre os melhores, ou seja, os que se rendem ao podre poder, infelizmente eleito legitimamente pelo povo, ainda que procuremos criar nossos próprios espaços, vem esses covardes nos dizer, aí não pode! É essa Macapá que será cantada pela Beija Flor no carnaval do Rio de Janeiro ano que vem.

Ah, vocês precisam ser autorizados pelo alcaide da cidade, dizem os asseclas incompetentes.

Não carece que nos autorizem para manifestar nossa arte, berramos nós!

Então, danem-se!, replicam.

Danem-se vocês déspotas! Não precisamos de vossa autoridade. Nos lixamos para vossa prepotência, que se exploda vossa arrogância! O que não podemos mais admitir, é que esse poder eleito pela burrice de um povo mal educado por vossa própria culpa, pense que pode sobrepujar nossa inteligência e aniquilar nossa vontade de lutar. Vocês nos tiraram novamente o sagrado direito de trabalhar, mas, certamente, não nos roubarão os sonhos e a voz que Deus nos deu. E a Ele rogamos, “Pai, afasta de mim esse cálice.”

Ah João, “você vai pagar e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar...”.