À beira de um colapso

A pergunta que não quer calar: Por que a mulher ainda sofre violência? É de se entender, porque no auge da tecnologia, da ciência de mãos dadas com a comunicação, a mulher ainda não saiba qual é o seu verdadeiro lugar (que não é só na cozinha, como diz o velho ditado machista). Infelizmente, uma carga cultural e histórica secular ainda pesa sobre nós que não afeta só a mulher, mas todo o seio familiar.

Quem pensa que a violência contra a mulher é caso isolado, se engana. A questão se banalizou. Não resta dúvida. Mas as “coisas” não podem ficar na inércia. Quando uma mãe é agredida, seja de que forma for (não é só a agressão física que fere, a difamação, por exemplo, também deixa marcas profundas), sofrem os filhos, os netos, os avós, os parentes, os amigos. Mas, por que a mulher aceita essa vida tão conturbada? Engana-se quem pensa que só as mulheres de baixa renda e sem instrução escolar estão submissas à imposição dos homens, sujeitas à violência dentro de casa. É complicado, mas não se pode aceitar que essa cultura machista, continue a nos cercear por muito tempo.

As últimas estatísticas indicam que o quadro é bem mais preocupante. Nas ocorrências estão também aquelas de vida social e econômica bem estruturada, que não teriam que usar o argumento das outras classes, de que estão com o companheiro porque dependem dele financeiramente. As que são “bem de vida” também são dependentes do companheiro, mas emocionalmente, o que ainda pior. Um juiz de Direito, que tem acompanhado os processos judiciais de casos de violência, foi taxativo: “É impressionante (argumenta), que seja uma faísca apenas, a situação pega “fogo” e tudo acaba sobrando para mulher”. Segundo ele, às vezes, uma “fofoca” de vizinho resulta em casos graves e a vítima é sempre a mulher.

Sabe-se que se trata de um ciclo histórico e cultural, a começar pelo modo de criação dos nossos pais. Essa história de que “homem não chora” já não convence mais. “Homem tem que ser durão” isso também é muito presente na nossa cultura. E a menina, mais meiga, delicada, sempre deve ser submissa aos pais e aos irmãos mais velhos. Essas são convenções históricas, o que não representa, sobremaneira, uma verdade absoluta. Algumas delas são amarras para o progresso em qualquer contexto, incluindo o evolutivo. Mulheres, homens em qualquer status social, presos a convenções do tipo: “Homens não choram”, “lugar de mulher é na cozinha”, são contribuições diretas do machismo que leva a cada 15 minutos no Amapá uma mulher a ser agredida.

No último dia 22 de outubro deste ano chegou ao conhecimento da imprensa o caso de uma garota de 12 anos viva maritalmente com um homem que tem quase o dobro da idade dela. Depois de um acidente em uma embarcação que a deixou com parte do corpo desfigurado por causa de graves queimaduras, a menor foi abandonada no hospital. Embora o marido não tenha sido o causador do acidente, o abandono diante da dor e da doença é uma agressão, tão marcante quanto às queimaduras. Ficou claro o tão pouco valor que é dado à mulher. Isso ainda hoje pesa sobre a sociedade injusta, hipócrita e machista que muitas de nós ajudamos a construir e o que é pior, a mantemos. Uma realidade crua e nua. Estamos à beira de um colapso.

Francicleide Freires

Acadêmica do curso de jornalismo da Faculdade Seama