Tribuna da Imprensa

Passagem frustrante de Ban Ki-moon pela Amazônia

Visita do secretário-geral da ONU decepciona ambientalistas e comunidades do Amazonas
BELÉM - A passagem pela Amazônia do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, foi frustrante para organizações ambientalistas e comunidades da região, que esperavam dele algo mais que um simples passeio e reuniões fechadas com algumas autoridades. Ele desembarcou em Belém no final da tarde de segunda-feira para, segundo sua assessoria, "acompanhar melhor o trabalho feito em prol do meio ambiente na Amazônia".

Fora dos gabinetes refrigerados e de explicações sobre ações federais para conter o enorme desmatamento e outros problemas ambientais que atormentam a região, colocando o Brasil no topo das discussões sobre aquecimento global, o raro contato direto do secretário com a realidade amazônica foi uma tímida e rápida visita à Ilha do Combu, em frente à Belém.

Plantadores de açaí mostraram a ele como fazem o manejo da fruta sem derrubar os açaizais, preservando a floresta da qual tiram o sustento de suas famílias. Impermeável ao contato com jornalistas, sempre mantidos à distância por assessores, o secretário parece ter gostado do que viu. E poderia ter visto mais. Na verdade, não viu praticamente nada do que deveria ter visto se uma parte de sua agenda tivesse sido cumprida.

Em Santarém, no Oeste paraense, a quase 1.000 km da capital, Ki-moon iria visitar comunidades da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns e a vila balneária de Alter do Chão. O manejo comunitário praticado pelas comunidades e a luta diária que elas travam contra grileiros de terra, grandes empresas madeireiras e plantadores de soja seriam mostrados ao secretário em um documento com uma série de denúncias.

Naquela região, se dependesse dos predadores da floresta, tudo já teria sido derrubado. Só não foi porque esses caboclos defendem sua casa, a Amazônia, com uma valentia que Ki-monn certamente iria apoiar e aplaudir.

Com o argumento de que a visita havia sido cancelada por "razões logísticas", o chefe da ONU perdeu uma excelente oportunidade de comparar a Amazônia dos números oficiais do governo brasileiro com a região de quem vive nela e resiste a todas as ameaças, inclusive de morte, para abandoná-la.

A carta das comunidades que seria entregue a Ki-moon faz críticas ao Fórum Internacional da Madeira Tropical, que foi realizado na semana passada em Santarém e reuniu empresários do setor florestal de vários países. "Não é coincidência que o evento, de edição bianual, ocorra no Brasil e, em especial, na Amazônia. Aqui estão os últimos remanescentes de florestas tropicais do planeta. É triste de ver: não só as gigantes madeireiras estrangeiras, mas também as nossas autoridades políticas nada mais vêem em nossa floresta além disso", dizem as comunidades.

À certa altura do documento, a verdadeira finalidade da visita do secretário a Santarém é questionada: "qual seria a palavra do secretário-geral da ONU em meio a tais companhias que estão devastando a Amazônia? Ele ficaria solidário às lideranças sociais ameaçadas de morte na região? Ou viria verificar as condições a que são submetidos os trabalhadores da indústria madeireira? Talvez uma visita nas comunidades do rio Uruará, às Glebas Pacoval e Nova Olinda ou à cidade de Novo Progresso, mostrasse outra face da atividade madeireira: violência, ameaças, terror, expropriação e saque das florestas tradicionalmente ocupadas".

No final, o documento ironiza o que chama de "rosto" amazônico que a comitiva do secretário "mantém bem maquiado", perguntando se ele seria "visto realmente". A carta, que não pôde ser entregue pessoalmente, será enviada nos próximos dias pelo correio ao secretário Ki-moon.