As últimas três palavras

Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

Perseverança não deve ser confundida com a cabeça dura de quem nunca desiste das suas idéias, achando-se dono da verdade, apesar dos argumentos e da lógica contrária. Também não é simplesmente a teimosia de quem insiste numa atitude errada, para não dar o braço a torcer ou, talvez, insiste numa atitude certa, não por convicção, mas, simplesmente, por falta de criatividade, ou com a finalidade de conseguir o seu objetivo matando o outro pelo cansaço.

A perseverança verdadeira é uma virtude. Jesus diz claramente que é "permanecendo firmes que ireis ganhar a vida eterna". Perseverar é, portanto, permanecer firmes num propósito, acreditando nele. Ou também, permanecer firmes na busca de uma meta a ser alcançada, cheios de esperança, sempre renovando o próprio entusiasmo.

Não é sempre fácil perseverar. Desponta o desânimo, experimentamos decepções, parece mais fácil desistir. Muitas vezes precisamos ter bastante coragem para dar a volta por cima e recomeçar tudo de novo.

Hoje, todos nós estamos sendo contagiados com a febre das novidades. Isso não é tão grave, quando mudamos continuamente de roupa, de corte de cabelo, de celular ou de perfume. A alegria está mesmo em mudar, em estar ao passo com as modas, onde tudo, o dia seguinte, parece tão velho e sem graça. Para muitos, fica a saudade do que trocaram; para outros, a convicção de que o velho era melhor. Porém, não tem jeito, é preciso acompanhar o mundo em continua mudança. A maioria dos produtos, são pensados, mesmo, para durar pouco, assim está garantida a troca. A propaganda, depois, faz o resto: quem fica com as coisas velhas é apresentado como careta, pão duro, ultrapassado.

A questão é que este frenesi de novidades não fica somente nas coisas e no consumo. A cada dia aparece alguém com propostas "novas" para resolver os eternos problemas da humanidade. Mesmo que sejam velhas teorias disfarçadas com palavras novas e bonitas.

Nem a religião escapa. Palavras como tradição, costume, devoção, soam como antigüidades, peças arqueológicas mais dignas de museu do que da vida cotidiana. Trocar de Deus também faz parte das novidades. Aliás, deixá-lo, de fato, fora da nossa vida é o último lançamento.

Com as suas palavras, Jesus nos lembra que precisamos saber distinguir muito bem o que realmente passa, e que por isso pode ter um grande valor - contudo será sempre relativo - e o que desafia os tempos e as modas. A busca verdadeira e a perseverança devem-se restringir àquilo que acreditamos ser tão grande, tão valioso e duradouro, que ousamos chamá-lo de eterno.

O Mahatma Gandhi, por exemplo, dizia que "a paz e a não-violência são antigas como as montanhas", e que, portanto, valia a pena gastar a vida por elas. Mais, ainda, devem valer o bom Deus e seu Filho Jesus Cristo, para quem tem o dom de não trocar de religião a cada soprar de ventos.

Vou contar uma historinha, que encontrei por aí, para concluir o raciocínio.

Um jovem, no fulgor da idade, estava conduzindo uma vida perigosa, cheia de riscos, drogas, prazeres dissolutos. Um padre, amigo da família, tentou convencê-lo a mudar de vida, a dar um rumo mais sensato à sua existência. O jovem agradeceu o conselho do padre, mas respondeu, com toda tranqüilidade, que não ficasse tão preocupado, porque havia aprendido, no catecismo, que Deus era bondoso e misericordioso e, quando chegasse a sua hora, bastaria dizer três palavras: "Meu Jesus, misericórdia" e tudo se ajeitaria, tudo acabaria bem. Assim continuou a sua vida desregrada. Ora, aconteceu que uma noite, ao participar de um racha doido com sua moto acabou caindo em um buraco. O jovem tombou da moto e, pelo choque, morreu na hora. As últimas palavras dele foram: "Desgraça de buraco!".

Perseverar é repetir sempre: "Meu Jesus, misericórdia", não porque estamos para morrer e nem porque estamos com medo de viver, simplesmente porque, a cada instante, renovamos a nossa fé, confiando mais na eterna palavra dEle do que em nossa existência passageira.