Glauber Rocha e a ascensão de um oligarca chamado Sarney

Do blogue do Luiz Carlos Azenha (www.viomundo.globo.com)

Eleito governador do Maranhão em 1966 pelo partido formado para dar sustentação ao regime militar, José Sarney fez uma série de promessas em seu discurso de posse. Amigo de Glauber Rocha, pediu ao cineasta que registrasse a festa. Glauber foi e fez o documentário "Maranhão 66". Contrastou as promessas de Sarney com imagens da realidade maranhense de mais de 40 anos atrás.

Sabe-se que, desde então, o oligarca José Sarney ganhou poder, muito poder. E ficou rico. E entrou na Academia Brasileira de Letras. E é senador pelo Amapá. E tem uma filha senadora pelo Maranhão. E tem um filho deputado federal. E é o retransmissor da TV Globo no estado.

Ver este filme deveria ser obrigatório para quem pretende estudar a história política contemporânea do Brasil. Por isso subi no You Tube. Está aqui. Vai ficar melhor se você assistir ao documentário, de cerca de oito minutos, antes de prosseguir na leitura.

Olhem como estava o Índice de Desenvolvimento Humano do Maranhão em 2000. Para quem faltou na aula de geografia, é o estado grande, em vermelho, com IDH inferior a 0,650. Depois de quase quarenta anos de Sarney o Maranhão competia com Alagoas para escapar do último lugar.

Na eleição estadual de 2006, Roseana Sarney perdeu para Jackson Lago, do PDT. Em 2005, segundo dados do próprio governo maranhense, 38,7% dos habitantes do estado não tinham água encanada; 50,5% não tinham ligação com sistema de esgoto ou fossa sanitária; 40,42% não tinham coleta de lixo; 21,18% eram analfabetos de mais de 10 anos com um ano de escolaridade; 58% ganhavam até dois salários mínimos e 37,41% eram considerados "excluídos", ou seja, estavam abaixo da linha da pobreza.

Estamos falando de um homem que apoiou João Goulart, que apoiou e foi apoiado pelos militares, que foi deputado federal e governador, que foi presidente da República, que apoiou Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Não estamos falando de um político qualquer. Estamos falando de um senador em terceiro mandato.

Estamos falando de um homem que sobe à tribuna do Congresso brasileiro para cobrar democracia da Venezuela. Toda essa autoridade moral, política e econômica resultou num IDH que, medido pelos dados de 2004, era de 0,682, o que colocaria o Maranhão entre Honduras e Guatemala.

E isso DEPOIS de uma evolução marcante, que se deu a partir do governo de Fernando Henrique Cardoso. Antes, com todo o respeito a nossos irmãos africanos, os índices sociais do Maranhão eram comparáveis ao de países pobres da África.

Se o Maranhão se deu mal, o mesmo não se pode dizer da família Sarney. Estas são as mansões da ilha de Curupu. À esquerda, a de Roseana. À direita, a de José Sarney.

Entrevistada pela revista Época, em 2000, deu-se o seguinte diálogo:

Época: Vimos miséria, governadora.

Roseana: Miséria não, pobreza.

Época: Era miséria, governadora.

Roseana: Onde?

Em entrevista à revista CartaCapital, o ex-presidente disse, sobre o Sistema Mirante de Comunicação, que construiu com várias concessões que ele mesmo, no Palácio do Planalto, por decreto, concedeu a parentes e amigos:

"Isso não é ter grupo econômico. Temos uma pequena televisão, uma das menores, talvez, da Rede Globo. E por motivos políticos. Se não fôssemos políticos não teríamos necessidade de ter meios de comunicação."

O Brasl é mesmo um país peculiar. O país da Embraer e da Embrapa convive, no século 21, com um clã político nos moldes do...do atraso do atraso do atraso do atraso.