O milagre da multiplicação na Cemar

Luiz Nassif

Coluna Econômica

Na semana passada, a GP Investimentos informou que a Equatorial foi um dos casos de maior retorno de seu portfólio. A GP investiu R$ 30 milhões na Cemar (Companhia Energética do Maranhão) três anos e meio atrás. E vendeu por R$ 493 milhões.

Milagre? Visão extraordinária? Um pouquinho mais que isso. Era uma história com final totalmente previsível.

A Cemar foi privatizada em 2000, vendida para a norte-americana PPL Global. Depois de muito prejuízo o grupo abandonou a empresa, que ficou sob intervenção da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). A empresa estava com R$ 800 milhões em dívidas, 80% das quais vencidas. A PPL se dispunha a transferir o controle por R$ 1.

A maior parte da dívida era com a Eletrobrás: R$ 260 milhões, mais R$ 100 mi de venda de energia pela Eletronorte. Para se habilitar à compra da empresa, os concorrentes teriam que apresentar carta da Eletrobrás concordando com a proposta de renegociação da dívida.

Após a fase de pré-licitação, restaram dois grupos, o SVM e o Mt. Baker, fundo norte-americano, que foi desclassificado por não ter cumprido um conjunto de requisitos burocráticos - como a não-apresentação de certidão negativa de falência ou falta de histórico no setor.

Como escrevi em 20/04/2004, “na véspera do final do prazo, a Mt. Baker melhorou ainda mais as condições. Dispunha-se a pagar metade à vista, e o restante, em 12 anos, com 10% de juros ao ano mais IGP-M. Foi preterido pela SVM, que propôs à Eletrobrás capitalizar R$ 50 milhões e pagar o restante em até 20 anos, parte substancial a taxas de juros de 4% ao ano, com três anos de carência”.

O GP levou a empresa de graça, graças à sua escolha pela Eletrobrás.

O mais grave da história é que, em pouco tempo de intervenção, a Aneel havia eliminado com os prejuízos operacionais. Na época, o balanço fechado mostrava um Ebitda sustentado (lucro antes do pagamento de juros e tributos) da ordem de R$ 120 milhões/ano. A empresa tinha R$ 80 milhões em caixa. Dizia eu, no dia 27/04/2004: “O Ebitda potencial é de R$ 100 milhões/ano. Com R$ 50 milhões/ano de investimento, R$ 30 milhões/ ano de pagamento da dívida, os acionistas podem receber R$ 20 milhões/ ano, com pouquíssimo esforço adicional. Mais: as perdas de energia da empresa estão na faixa de 20%. Exige-se investimento de R$ 4 milhões para cada ponto percentual de redução da dívida -que proporciona uma economia anual de R$ 6 milhões. Ou seja, com R$ 40 milhões de investimento, a empresa passa a gerar mais R$ 60 milhões/ano de Ebitda”.

“Se o próprio governo completasse o processo de reestruturação, fechasse a reestruturação da dívida com a Eletrobrás e os bancos, antes de vender a empresa, todo o ganho da reestruturação seria apropriado pelo setor público. Não se fez, não se sabe por quê. Não se divulgam os termos do acordo firmado com a SVM e o acordo do concorrente que foi afastado. E o país nem sequer sabe o nome dos novos controladores da Cemar.”

Até hoje, não há respostas, apenas desconfianças.