Jornalismo ruim não é de esquerda ou de direta. É ruim.

Rui Martins
Blogue do Luiz Carlos Azenha (www.viomundo.globo.com)


Fiquei satisfeito com a tomada de posição em São Paulo, do Luis Fernando Veríssimo, no Salão dos jornalistas escritores, dizendo que a imprensa brasileira de hoje é de direita. Não foi o primeiro a dizer isso, mas, com seu peso e em alta voz, é um dos primeiros. É verdade, compomos hoje uma reduzida minoria, entrincheirada em alguns bolsões da mídia brasileira, onde alguns abnegados disparam e-mails que circulam entre blogs, sem causar grandes preocupações na grande imprensa. A esquerda não tem acesso aos grande jornais, às rádios e à televisão brasileiros. Enquanto isso, a direita dispõe seus canhões voltados para Brasília com o objetivo - ainda sem sucesso - de indispor o povo com o governo. O resto não interessa. Veríssimo falou que, no passado, ou seja, há coisa de 40 anos, a maioria dos jornalistas era de esquerda, ou seja, optava por bandeiras sociais de defesa da população e reunia toda gama do pensamento de esquerda, desde os cristãos progressistas aos comunistas e trotskistas."

Discordo que o PRINCIPAL problema da mídia brasileira, hoje em dia, tenha relação com esquerda ou direita. Estou mais para o que eu já escrevi e o Paulo Henrique Amorim, que certamente não é um jornalista "de esquerda", tem repetido: a mídia corporativa brasileira é tecnicamente fraca. É ruim. Ruim de apuração, ruim de contextualização, ruim de informação. As teses descem "prontas" lá de cima, cabe aos repórteres buscar os fatos que as comprovem. Quem não aceita vai para a geladeira. Os jornalistas da "antiga" foram aposentados antes de mais nada por questões salariais, pela necessidade que as empresas jornalísticas têm de fazer mais com menos. Caça às bruxas existe na TV Globo, sou testemunha pessoal disso, embora a própria empresa não possa abrir mão de todos os seus talentos, caso contrário a TV Record faria a festa.

A ruindade da mídia brasileira resulta da contaminação do noticiário pela linha ideológica dos chefetes, pela inexperiência dos que atuam nas redações e pela falta de senso crítico. Conheço dezenas de ótimos profissionais que não são de "esquerda", de "centro" ou de "direita". São bons jornalistas. Fazem o que os chefes pedem e, em seguida, vão ao banheiro passar mal.

Sou leitor da revista "The Economist" há mais de vinte anos. É uma revista conservadora. Mas é uma revista "de informação", na acepção da palavra. Representa o jornalismo britânico, de altíssima qualidade, tanto quanto a BBC, o Guardian e o Independent. Você termina de ler a Economist e, descontado o conservadorismo, conclui que valeu o que pagou pelo conteúdo. Eu pego um jornal brasileiro, leio duas ou três "notícias" e fim. Não vale o tempo, nem o dinheiro. Não é "direita", "esquerda" ou "centro". É ruim, mesmo.