O HOJE DO AMOR
Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

A festa de Cristo Rei encerra o ano litúrgico. Mas nada de esperar a meia noite, nada de fogos e de reveillon. Nada de morrer o ano velho para nascer o ano novo. Isto vale para o ano que termina em dezembro, não para o ano litúrgico que continuamente nos convida a reviver as maravilhas da nossa fé.

Tudo isso porque o reino de Jesus desafia os tempos. Jesus não é um rei triunfalista, é o Rei-Bom Pastor que dá sua vida pelas ovelhas. Tanto é verdade que o evangelho deste domingo apresenta Jesus no único trono digno de quem se colocou como o grão de trigo que somente dá fruto se morrer: o trono da cruz.

O tempo passa, as épocas se sucedem, mas a luz de Cristo, a luz do amor total, continua iluminando a vida dos que confiam no Reino do qual Jesus é rei: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz.

Uma palavra chama a nossa atenção. Uma palavra do diálogo entre dois crucificados, entre Jesus e o bom ladrão. È o Senhor que lhe diz: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”.

É o hoje que é importante. No Evangelho de Lucas encontramos muitos “hoje”. O anúncio do Natal aos pastores: “Hoje nasceu para vós um Salvador”. O hoje na sinagoga de Nazaré, após a leitura do profeta Isaías: “Hoje se cumpriu esta passagem da escritura”, com a Boa Notícia anunciada aos pobres. O hoje de Zaqueu, o baixinho, que subiu numa arvore para ver Jesus, o qual mais tarde, em casa, lhe dirá: “Hoje aconteceu a salvação para esta casa”. Por que tantos hoje?

Hoje significa agora, já. Mas não é a pressa dos impacientes, é a contemporaneidade do Reino, a constante presença de Jesus na vida e na história.

Para quem faz o bem, para quem entrega a sua vida confiando mais na Palavra de Deus, que nas promessas humanas, todo dia é o hoje da salvação. Todo dia pode ser o hoje da paixão, mas pode ser também o dia do paraíso.

Todo dia pode ser um dia bom. Todo dia é “tempo de Deus”, tempo da graça e da salvação. O que passa é a nossa vida. Entra ano e sai ano, inclusive na Liturgia, mas o hoje da vida de Deus permanece.

No paraíso não haverá mais tempo, será um eterno hoje. Não haverá ontem, porque passou; nem o futuro, o amanhã, porque somente haverá a presença de Deus em todos e para todos.

Por este motivo, quem acredita não pode deixar as coisas para amanhã ou saber quando. O Reino pode e deve acontecer hoje. Significa que é hoje que devemos trabalhar para que este Reino se torne visível e reconhecível. O Reino, que tanto aguardamos e desejamos na esperança começa hoje, aqui e agora. Cabe a nós agir para que o futuro do projeto de Deus se torne hoje para nós e para tantos nossos amigos e irmãos um passo rumo ao paraíso. Uma antecipação limitada, mas real, do que será o Reino de Deus para sempre.

Nós não podemos garantir o paraíso para ninguém. Mas podemos nos convencer e convencer as pessoas a terem mais fé, a fazerem da sua realidade um hoje de Deus, um pedaço de paraíso.

O caminho é um só e sempre o mesmo: o caminho do amor fraterno e solidário. Amor de quem já começou a acreditar no paraíso e a querê-lo, para si e para todos, amenizando os sofrimentos, a fome, a exclusão social de tantos.

Nós não podemos dizer a ninguém: “Hoje estarás comigo no paraíso”, mas podemos dizer: “Hoje estás no meu coração porque te quero bem, porque quero ser teu irmão”. É já o começo do paraíso. Ao contrário, o ódio e a indiferença são o começo do inferno.