Chico malo - Por Cláudio Lembo

Fonte: www.terramagazine.terra.com.br

Passaram-se dez dias. A frase tornou-se toque de celular, a imagem correu o planeta. Pela televisão ou internet e permanece disponível em sites especializados.
No mundo globalizado, cada pessoa deve cuidar de sua própria imagem. Não há rede de proteção. Caiu. Fica exposto. Plebeu e rei correm o mesmo risco do julgamento pela coletividade.

Em mau momento, o rei espanhol, João Carlos, aceitou presidir a Cúpula Ibero-americana. Os mandatários da América Latina são avassaladora maioria. Gente difícil: trazem na consciência pesadelos históricos.

Esta América assemelha-se a vulcão em contínua ebulição. A palavra domina a racionalidade. Fala-se, depois se pensa. No espaço hispano falante, a situação mostra-se ainda mais aguda.

Para conviver com latino-americanos, é preciso entender o passado comum da região. Cada espaço possui traços próprios e imensos contingentes de desvalidos. Onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão.

Na América portuguesa, existe menos emoção. Explica-se. Na economia mundial, a colônia tornou-se mais expressiva do que a antiga metrópole. Ainda mais. A independência nasceu do próprio colonizador. Caso único.

Retorne-se a João Carlos. Na ainda recente redemocratização espanhola, o monarca apresentou-se afirmativo. Encontra-se, porém, desabituado às charlas deste continente. Os nossos presidentes empolgam-se com os auditórios. Soltam o verbo.

Hugo Chávez excede-se. Como paraquedista de profissão lança-se em qualquer terreno. Cai por cima dos outros sem qualquer cerimônia. Precisa ser compreendido. Ou é bom sair debaixo.

No constrangedor episódio de Santiago do Chile, perderam-se os limites da urbanidade. O rei aguardava dos expositores linguagem pequeno burguesa. Encontrou pela frente tonitruantes bolivarianos.

Não resistiu o monarca. Acostumado a uma audição de baixos decibéis, agredido em seus ouvidos, lançou seu brado: Por qué no te callas? Surtiu efeito. O presidente venezuelano aturdiu-se. Desconcertou-se.

A lição do episódio ofereceu Zapatero. Impecável. Na defesa de Aznar, seu adversário na política interna da Espanha, apresentou-se competente. Alguém eleito pelo povo, em princípio, merece respeito.

Não importa a doutrina de sua pregação. Eleita pelo voto popular, qualquer personalidade precisa ver preservada a sua integridade moral. Achincalhes são desprezíveis. Insinuações inaceitáveis.

Boa lição para as práticas domésticas. Por aqui, agride-se a imagem alheia sem qualquer pudor. Comentaristas amargos e políticos destemperados não apresentam limites para suas exposições. Vale tudo.

Volte-se, porém, a Santiago. Quantas recordações. Um monarca longe da sobriedade da realeza. Um paraquedista a dar gritos no ar. Alucinante expressão do realismo latino-americano. Inacreditável, mas verdade.

Jovens alunos de Direito, provocados sobre o episódio, apesar da pouca idade, mostraram-se reflexivos e adultos. Recriminaram a Hugo Chávez. Apresentou-se de forma indelicada. Exercia, porém, seu direito de expressão.

Ainda na lição dos estudantes, nos tempos contemporâneos, não cabe a ninguém - nem mesmo a um soberano - determinar silêncio ao expositor, particularmente quando não se coloca na figura de interlocutor.

A dignidade do outro foi ferida. As palavras reais soaram inusitadas. Bom, porém, que Hugo Chávez se auto-analisou e se definiu, em entrevista coletiva, concedida em Caracas.

Como adolescente - somos todos adolescentes na América Latina - o presidente bolivariano proclamou urbi et orbi: Não sou um chico malo. Todos sabem isto. Não é um mau menino. Apenas um menino hiperativo.

O episódio se esgota. Os interesses da América Latina e da Espanha se entrelaçam. Apresentam identidade. A língua comum aponta liame indissolúvel.

De tudo, restou lição. O velho trono existente em Havana, nunca utilizado, se manterá intocado. A América é região de repúblicas. As monarquias precisam tomar atenção. A educação dos meninos, na América Latina, foi descuidada pelos avós.


Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.