União para desenvolvimento sustentável da Amazônia

“Juntar azeite, vinagre, sal para temperar a salada, sem deixar que o prato fique indigesto”. Com esta imagem, Caetano Scannavino, coordenador do Projeto Saúde e Alegria, se refere à formação e ao lançamento do Fórum Amazônia Sustentável [FAS]. A idéia da iniciativa é reunir uma articulação multissetorial - empresas, ONGs, movimentos sociais e instituições de ensino e pesquisa - em torno de uma agenda positiva para a região. Caetano, que participa também da Comissão Executiva do FAS, explica que não é mais possível repetir o modelo econômico desenvolvimentista aplicado no sul do país na região amazônica e que, por isso, o fórum representa a busca por soluções efetivas e pragmáticas que possam construir uma Amazônia que produza negócios viáveis economicamente, mas que, além disso, tenha respeito pelas culturas amazônicas, ribeirinhas e, principalmente, ao meio ambiente.

O evento de fundação e lançamento será realizado de 5 a 8 de novembro, em Belém (PA), e acontecerá em duas etapas. Na primeira, aproximadamente 150 representantes de empresas, ONGs, movimentos sociais e instituições de ensino e pesquisa estarão reunidos, nos três primeiros dias, em encontro fechado, para a constituição do Fórum. No dia 8, em evento aberto, o FAS será lançado oficialmente com a presença de autoridades e outros interessados na iniciativa. A adesão ao Fórum se dará através da assinatura de uma carta de princípios que deve ser seguida com rigor.

O FAS não pretende necessariamente convergir opiniões, mas vai buscar organizar um espaço de debates para atores com opiniões tão diferentes. “É claro que uma iniciativa como esta gera desconfiança em todos. As entidades sociais temem que os empresários não cumpram o acordado no Fórum e participem dele somente para ter uma espécie de selo de responsabilidade. Já os empresários sentem-se melindrados com a possibilidade de serem alvos das instituições ambientalistas. Não vivemos em dois mundos! Temos que organizar esse espaço de diálogo para que as coisas não sejam mais resolvidas com pólvora”, declara Caetano.

A opinião de Caetano é corroborada por Caio Magri, do Instituto Ethos. "Para o Ethos, o FAS é prioritário e estratégico. Estamos jogando todas as fichas nessa iniciativa para a construção de um modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, unido empresas socialmente responsáveis que - de alguma maneira - se relacionam com a floresta. Esse espaço tem que dar certo ou então vamos naufragar com essa possibilidade de desenvolvimento sustentável construído - e, por isso, cumprido - por todos esses diferentes atores."

Combate à ilegalidade e à impunidade também são metas do FAS. Caetano explica que a legislação precisa ser para todos. Ele comenta que um madeireiro que segue a lei corretamente não consegue ter competitividade por causa de madeireiros ilegais. “Ele tem duas opções: fechar seu negócio ou passar a atuar na ilegalidade. Esse empresário precisa do combate à ilegalidade e à impunidade; ele não pode mudar de lado!”

Caio ressalta ainda a falta de planejamento das cidades amazônicas. Para ele, o caos está instalado na Amazônia pela ausência do Estado, fazendo com que, por exemplo, municípios avancem sobre a área de floresta. Neste sentido, ele diz, o Estado precisa ser parceiro dessa iniciativa. "O FAS é uma iniciativa da sociedade, porém temos que ter o Estado como parceiro para realizar as políticas públicas que objetivamos construir. Tanto é, que no último dia do evento, a proposta será apresentada às autoridades que estiverem presentes", explica.

A floresta

A Amazônia é um ícone da diversidade socioambiental. Abriga a maior bacia hidrográfica e a maior floresta tropical do mundo, estendendo-se por nove países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. Ainda assim, sofre com diversas formas de exploração predatória. Porém, a riqueza extraída da floresta, não se converte em benefícios reais ou duradouros para a população da região ou para o país. O desmatamento atingiu 17% da região, sendo que 20% dessa área estão abandonados ou degradados. Há grilagem de terras, trabalho escravo, desmatamento e atividades agrícolas predatórias. Para Caio, não adianta mudar a matriz energética de gasolina para biodiesel, por exemplo, se o país continuar reproduzindo o modelo de concentração de renda e de exclusão social que se apresenta em todo país, mais especificamente na Amazônia.

“Tudo é urgente por aqui”, diz Caetano enquanto comenta sobre seu encontro com Dr. Antonio Nobre, cientista, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e representante institucional no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. “Saí dessa conversa bastante perplexo. O professor coloca que se não tomarmos medidas urgentes, daqui a cinco anos será muito difícil reverter o quadro de destruição da floresta. Os cientistas divergem quanto ao tempo - se isso acontecerá daqui a cinco, dez ou quinze anos - mas o certo é que se todos que se relacionam ou têm interesse em promover o desenvolvimento sustentável na região não juntarem forças, o futuro será mais complicado“, diz.

A secretaria executiva do FAS está a cargo do Instituto do Homem e do Meio Ambiente [Imazon]. Além dele, participam da comissão executiva as seguintes entidades: Banco da Amazônia; Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro [FOIRN]; Fundação Avina; Fundação Vale do Rio Doce; Grupo Orsa; Grupo de Trabalho Amazônico [GTA]; Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social; Instituto Socioambiental [ISA]; e Projeto Saúde e Alegria.

Informações sobre o evento podem ser obtidas com Gláucia, do Imazon, pelos telefones (91) 3182-4000 ou (91) 9116-7299.

Viviane Gomes