MEU E MINHA

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Se for verdade que no mundo tem mais mulheres do que homens, talvez a pergunta que fizeram a Jesus, hoje deveria ser feita ao contrário; seriam mais mulheres para um só homem. Mas, fiquemos com o que está escrito, sem incomodar as estatísticas.

O caso da mulher que teve sete maridos nesta vida, apresentado pelos saduceus a Jesus, tinha a clara finalidade de por em xeque a mensagem dele sobre a ressurreição. Queriam ridicularizar uma visão do céu cópia, mais ou menos aperfeiçoada, deste mundo. Daí a curiosidade deles em querer saber com quem, afinal, a mulher ia ficar, pelo fato de ter sido esposa de sete maridos. Tudo isso não intimidou Jesus. Ele tinha muito mais a dizer sobre este mundo e o outro.

Difícil, mesmo, era para eles entenderem algo que não fosse tão parecido com essa realidade, com todo o peso da corporeidade, dos costumes e das acomodações de quem não sabe olhar além dos seus interesses, do seu prestígio, dos seus negócios. Queriam tudo bem visível, palpável e ao seu alcance.

O Bom Mestre aproveitou para dar uma lição, mais do que sobre o céu, sobre esta vida, visto que o céu é a meta dos que souberam fazer o bem sobre esta terra.

Em primeiro lugar, Jesus nos lembra que ninguém é propriedade de ninguém, nem neste mundo, nem no outro. Menos, ainda, o homem é dono da mulher.

O amor conjugal só é bonito quando se baseia sobre o dom recíproco, a oferta gratuita de si mesmo ao outro, ou à outra, que amamos, para sermos também amados. Propriedade não é relação de amor!

A segunda lição é, também, sobre o matrimônio e, indiretamente, sobre a vida eterna. Quando um casal se ama, deveria ser feliz, dentro das limitações, dos altos e baixos da vida Esse amor, feito de momentos e acontecimentos, é um ensaio do grande amor, aquele que nunca acabará, porque consistirá em participar do próprio amor de Deus. O amor conjugal é um caminho, nem sempre fácil, para descobrir e reconhecer o quanto seria bonito amar-se sempre, caminhar unidos toda a vida. Porém tudo isso, neste mundo, não é perfeito Passa por fraquezas, decepções, voltas e mais voltas.

O reconhecimento da nossa fragilidade, das nossas infidelidades, com os conseqüentes sofrimentos, não deveria nos afastar do sonho, do desejo de um amor verdadeiro, grande, perfeito, incorruptível. Não deveríamos cair na tentação de desistir, mas deveríamos procurar sempre o caminho da conversão, entendida como busca do melhor; e com isso chegar ao reconhecimento que somente em Deus encontraremos o Amor perfeito, inclusive o verdadeiro amor conjugal.

E aí, com quem “ficará” a famosa mulher dos sete maridos, perguntaram os curiosos? No céu os esposos e as esposas se amarão de maneira perfeita, não por ser um propriedade do outro, e sim por ser Deus a comunhão e a felicidade total para todos.

Vai chegar lá quem souber gastar energia, tempo e vontade para construir o amor, desde já, aqui, nesta vida, ficando o desejo de algo mais e melhor para depois. Se a hipotética mulher conseguiu amar, ao menos um pouco, um ou outro, dos seus sete maridos, ficará com nenhum e com todos ao mesmo tempo, porque o amor não será mais somente de um para com um outro, mas com e para todos, mergulhados no único e grande amor de Deus. Infelizmente, entre namorados, entre marido e mulher, ainda são muito usadas as palavras “meu” e “minha”. Cheira muito a ciúme, a chantagem, a querer mandar.

Se ao menos entrasse um pouco do amor de Deus, outros entrariam também: os filhos, os amigos, os pobres. Na liberdade do amor a dois está o caminho para amar a todos, que também o caminho para chegar ao amor perfeito de Deus.