Natal no Laguinho

Dos natais de minha infância duas lembranças guardo: o porco que passava o ano inteiro no chiqueiro do quintal e virava o prato principal da noite, e a árvore de natal que além das bolas e pisca-pisca que papai mandava buscar em Manaus, era cheia de cartões enviados por amigos e familiares desejando “boas festas e feliz natal”. Hoje o porco que comemos vem do supermercado e cartão é algo que ninguém mais envia, é mais fácil usar a internet ou o telefone. Fora isso meu natal não mudou muito por ter sempre a família por perto e continuar morando no Laguinho. O povo do bairro é festeiro, não sei se por natureza, porque aprendeu a gostar ou porque lá tem uma essência profana que faz com que a maior parte dos moradores se entreguem aos encantos dos sambas, marabaixos e qualquer festejo que junte pessoas, tenha música de qualquer ritmo, o que beber e tira-gosto. O menor bairro de Macapá tem duas escolas de samba, no mínimo dois blocos, um time de futebol, muitos bares e botecos, diversas esquinas e frente das casas com sombra de árvores, calçadas e pátios esperando visitas, isso só pode dar em festa. O natal é apenas um motivo pra fazermos farra com amigos e vizinhos.

Por isso, quando acaba o Encontro dos Tambores o cheiro de natal começa a invadir o bairro, e o cheiro simboliza as mangueiras carregadas de frutas, as calçadas com tapetes de manguinhas que passamos estourando com os pés; as casas se enchem de luzes, algumas casas têm a pintura retocada, em outras as paredes são lavadas pra dar um toque de renovação; tem ainda as decorações alternativas como a árvore de natal da casa do seu Chimba, feita de garrafas peti ou as luzes com abajur feito com o mesmo tipo de garrafas pintadas de verde e vermelho.

Em algumas famílias como a do Seu Arino tem festa todo fim de semana, o motivo é o natal; são muitas confraternizações de amigos de rua, de bola, de quadra junina, amigos da mangueira, da goiabeira, amigos do bar do Valdir, do Gorgia, do Tio Duca, do banco do Giba. Esse fica na Mãe Luzia e todo ano reúne dezenas de amigos que fazem coletas, bebem, comem churrasco e dançam festejando o ano que está acabando e o próximo. Outra festa tradicional é a do Banco da Amizade. Há trinta e sete anos as criaturas mais péssimas do bairro recebem toda a cidade numa festa que começa quando o sol nasce com a matança do boi e só termina quando a EMTU vai retirar a sinalização que impede o trânsito. E tudo começou como a maioria das festas do Laguinho: do nada, pelo simples prazer de reunir amigos e comemorar.

No Banco da Amizade é o lugar de encontro, de fazer as pazes com aqueles que nos desentendemos por futebol ou política, é hora do amarelo abraçar o azul, do verde namorar com os dois; boemistas, piratistas e maracatus celebram o carnaval amapaense; caixas de marabaixo se unem aos tambores do batuque; o urubu do flamengo navega na caravela do vasco; quem é de cerveja toma sua latinha quem é de vinho abastece sua caneca personalizada da festa; caldo e churrasco é pra todos e o samba e batuque animam e celebram a vida. Quando passa a festa do Banco da Amizade praticamente já é ano-novo! E mais comida, churrasco, cerveja e o vinho sangue de boi, que é tradição, não interessa a ressaca do outro dia, pra isso foi inventado o epocler, sal de andrews, boldo e outros remedinhos.

Na virada do ano o bom é ver do bairro mesmo a queima de fogos da Beira-Rio. Depois, na Mãe Luzia, os moradores saem de suas casas e se reúnem no meio da rua, com direito a música ao vivo e fogos, tudo acaba num grande banquete. No amanhecer do dia começa o melhor, o “Demolidor”, pequeno trio elétrico que agita as festas da rua, sai arrastando o povo que ainda agüenta de pé e sai pelas ruas do bairro dando início à temporada de carnaval do bairro!!!Haja fôlego pra morar por aqui. E tudo só acaba depois do carnaval, quando começa o Ciclo do Marabaixo emendando com a quadra junina.

Mariléia Maciel