Democracia e justiça social só com escola pública
João Capiberibe*

Elas e eles tinham jogado a toalha depois de uma derrota acachapante, dessas que nós não esquecemos tão cedo. Aconteceu em junho deste ano, no segundo mês da greve dos professores. Reunidas em uma sala, além de mim havia dezesseis pessoas; treze professoras e três professores da rede pública estadual. A discussão girava em torno do desgaste político do governo que não aceitava conversar, muito menos atender às reivindicações salariais da categoria. Eu era o único não professor, me limitava a ouvir o desfile de argumentos, até que lá pelas tantas me dirigi ao grupo:
- Ouçam! Por favor, ouçam! posso lhes fazer uma pergunta? Em uníssono eles me responderam:
- Claro!
Quem entre vocês tem filhos estudando na escola privada?

Que goleada. Doze a quatro. Apenas quatro resistentes mantinham seus filhos na escola onde atuavam. Senti que para se contrapor a esse resultado desanimador seria necessário bem mais que retórica política.

Na seqüência da conversa fui informado que o sindicato exigia 10% de aumento, mas o governo só queria dar 4%. A partir daí entramos em outra linha de reflexão sobre a luta da categoria. Mesmo que a paralisação terminasse em vitória e fossem obtidos os 10% pretendidos, ainda assim o aumento na receita familiar não daria para cobrir uma única mensalidade na escola privada, considerando ainda que ali a maioria tinha mais de um filho, era fundamental então focar as reivindicações na melhoria da qualidade do ensino para que seus filhos voltassem a estudar na escola pública gratuita.

Essa posição ganhou adesões e análises mais aprofundadas. Uma professora relatou que seus vizinhos são contra a greve porque só se fala em aumento de salários e que a categoria não está nem aí para qualidade do ensino.
- Na hora que colocarmos nossos filhos na escola pública, nós todos vamos travar a luta pela qualidade, aí então, tenho certeza que a comunidade vai estar do nosso lado na luta por melhores salários, concluiu a professora.

É isso mesmo, interveio outra e acrescentou:
- O professor da escola privada é o mesmo da escola pública, com uma diferença, aqui o governo paga muito, mais muito melhor mesmo!

Finalmente uma voz masculina decidiu quebrar o silêncio, disse ele:
- Se o professor é o mesmo, se o salário do governo é melhor, porque então a qualidade do ensino público é pior? Porque tenho que matricular meu filho em uma escola particular? É essa a questão que precisamos responder.

Na verdade quem está respondendo com precisão e ousadia a essa pergunta é o senador Cristovam Buarque, ele sabe, como eu sei e tantos outros sabem que o problema da escola pública é político, por isso ele está apresentando um projeto de lei que obriga os detentores de mandato popular a matricular seus filhos na rede pública de ensino básico. Nada mais democrático do que o filho do gari estudar na mesma escola do filho do prefeito, do governador ou do senador. Bravo! Esse é o país dos meus sonhos.

Já imagino o protesto dos contrários que alegarão cerceamento do direito de escolha, de falta de liberdade e democracia. Para esses, solução para lá de simples, basta não se candidatar, ninguém é obrigado. No entanto, uma vez candidato por livre e espontânea vontade, uma vez eleito pela vontade do povo passa então a ocupar espaço público, logo deve se submeter à obrigatoriedade. Por último, sugiro que a lei passe a valer para os próximos eleitos, nada de mudar as regras na metade do jogo.

Concluo dizendo, que isso me parece uma sacada genial desse brasileiro que não desiste nunca da utopia da educação com qualidade e para todos, vamos que vamos, um dia chegaremos lá.

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João Capiberibe, ex-prefeito de Macapá, ex-governador e senador do Amapá, é vice-presidente nacional do PSB.