CHUVAS
* HERALDO COSTA

Neste final de semana choveu bastante em Macapá e, no domingo, passei alguns minutos observando o cair dos pingos e a precipitação da chuva na biqueira.

Lembrei que isso era algo que fazia muito nos dias chuvosos de Macapá de outrora. Inclusive, essas últimas chuvas lembraram o tempo que Macapá de fato chovia, nos quatro primeiros meses do ano.

Nessa observação vi que as primeiras gotas que caêm do telhado, têm trabalho importante na lavagem das telhas, amareladas pela poeira.

Esse trabalho não somente se percebe na lavagem do telhado, mas também do ar e da terra.

O clima fica mais ameno e a água da chuva carrega um turbilhão de coisas inservíveis, que infelizmente, em algumas paragens, geram problemas.

Nesse meditar, comparei as chuvas com lágrimas e observei que as lágrimas tem essa mesma função purificadora, lavando nossa alma das poeiras e carregando sentimentos inservíveis ladeira abaixo.

O grande meste da sensibilidade, JESUS, dizia no início de seu sermão da montanha: "bem aventurados os que choram". Bem aventurado vem da expressão grega "MAKÁRIOS", que quer dizer felizes ou abençoados.

É que as lágrimas purificam nosso íntimo e expressam sentimentos de tristeza mas também de alegria.

Por isso são felizes os que choram.

Lágrimas parecem que nascem no coração, por isso é comum observá-las nos olhos dos agradecidos, dos genuflexos, dos compadecidos e dos misericordiosos.

Quando estava observando a quantidade de coisas que a chuva carrega, não pude deixar de lembrar que, muitas vezes, não demonstramos nossos sentimentos, por isso, mais cedo ou mais tarde, eles vêm à tona, quando ocorre um grande burbulhar.

Essa demonstrar de sentimentos, reprimido nos homens, quando crianças, por conceitos culturais de que "homem não chora", muitas vezes repercute na vida adulta.

Gonzaguinha, O cancioneiro popular, na música "Guerreiro Menino", retratou bem isso:

"Um homem também chora...

Também deseja colo... Palavras amenas

Precisa de carinho, precisa de ternura

Precisa de um abraço da própria candura

Guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis

Guerreiros são meninos no fundo do peito

Precisam de um descanso

Precisam de um remanso

Precisam de um sonho que os torne refeitos

É triste ver este homem guerreiro menino, com a barra de seu tempo por sobre seus ombros

Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra a dor que traz no peito, pois ama e ama

Um homem se humilha, se castram seu sonho

Seu sonho é sua vida, e a vida é o trabalho

E sem o seu trabalho um homem não tem honra

E sem a sua honra, se morre, se mata"

Em meu refletir, vi que a chuva faz um bem danado a todos nós. As lágrimas da mesma forma. Lágrimas são como um desabafo. E desabafar faz bem. Tem o poder de unir, repensar, reavaliar valores e mudar hábitos. Desabafar é contar a própria história.

Diz Ciça Vicente de Azevedo, psicóloga e escritora de São Paulo, que "Quando se conta a própria história, ouve-se o eco das emoções, o que está no interior se expande. O que é realmente importante ganha forma e faz sentido. Você vê as coisas por ângulos que ainda não tinha percebido. Conecta os fatos com as emoções e aumenta a possibilidade de aceitar que a vida é um fluxo constante, que as coisas mudam a todo momento. Esses relatos nos remetem ao que é essencialmente humano: amar, nascer, morrer, querer, ganhar, perder".

BOAS CHUVAS PRA TODOS NÓS

"Tens o direito de chorar, mas mesmo entre lágrimas, não tens o direito de renunciar à alegria." Michel Quoist

*Juiz de Direito da Justiça do Amapa.