300 anos de azar

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Dom Antonio de Almeida Morais Junior, famoso orador sacro e visceralmente conservador, antes de ser arcebispo de Niterói, foi de Olinda e Recife. No dia da chegada, Agamenon Magalhães, governador, foi recebê-lo no navio, com todas as honras. Iam descendo do convés, explodiu o globo de um poste, houve corre-corre, ferindo várias pessoas.

O cortejo passava em frente ao café Lafaiete, dois juízes começaram a trocar tiros lá dentro. Uma loucura. Mortos, feridos, pernas quebradas. Agamenon cochichou no ouvido do chefe da Casa Civil:

- Este pastor não parece estar vindo da parte de Deus.

Chegam ao palanque, armado em frente ao Palácio das Princesas, para a cerimônia de recepção, Agamenon mandou o secretário subir:

- Vá na frente, que este homem dá azar.

Dom Cappio

O santo e valente Dom Luiz Cappio, 61 anos, bispo de Barra, à beira do São Francisco, na Bahia, dois anos depois voltou a fazer greve de fome contra a transposição de águas do rio para o semi-árido nordestino, acusando Lula de "não cumprir a palavra e enganar o povo brasileiro".

Talvez Deus ouvisse melhor do que Lula, se o bispo juntasse fome e reza para acabar com o azar do Nordeste. Já são mais de 300 anos. No século 18, foram 39 anos de secas. No século 19, 29. No século 20, 35 anos.

De 1790 a 1793, houve "a grande seca", que sacrificou todo o Nordeste, da Bahia ao Ceará. Em 1831, Dom Pedro II mal saía dos cueiros e a Regência fez um decreto mandando "abrir fontes artesanais, podendo empregar engenheiros naturais ou mandar vir da Europa os hábeis".

Desde Dom Pedro

De 1877 a 79, foi a maior seca que a história do Nordeste registra: matou de sede e fome mais de 500 mil e expulsou dos sertões um número maior ainda. Por inspiração do Conde D'Eu, foi criada a primeira Comissão Científica, "com a incumbência de estudar os fenômenos relacionados com o meio físico de toda a região atingida pela carência de recursos hídricos".

Em 1909, o presidente Nilo Peçanha criou a IOCS (Inspetoria de Obras Contra as Secas), que em 45 virou DNOCS. Com a seca de 1919, o paraibano Epitácio Pessoa construiu no Nordeste 500 quilômetros de ferrovias, 200 açudes médios e 190 grandes poços. Em 1923, chega o mineiro Artur Bernardes, pára tudo, corta as verbas, demite em massa.

Em 1953, Getúlio chama o paraibano José Américo para enfrentar mais uma seca. E, a partir de 1956, Juscelino, com o DNOCS, "realiza as maiores obras de açudagem do Nordeste, inclusive o Orós, no Ceará".

Nordeste

O Nordeste ocupa 1.600.000 km2 do País, com 42 milhões de habitantes, e 62% de sua área são o Polígono das Secas, com 882.00 km2 e 26 milhões de habitantes. São 40 a 50 dias de chuvas por ano e o resto sol a pino (300 dias). O mestre Bautista Vidal, maior autoridade brasileira em energia, inclusive a solar, diz que "a causa principal das secas não é a falta de chuvas, é a evaporação. No Ceará, chove 700 mm/ano.

A média mais baixa é a da Bahia, 480 mm/ano. Em Moscou (534 mm), Paris (527 mm), Berlim (550 mm), Marselha (448 mm), as precipitações pluviométricas anuais são inferiores às do Nordeste: mas o clima é temperado, a insolação é baixa e a evaporação pequena. A chuva cai e a água fica".

No Nordeste, a evaporação chega a 90%. Um açude com três metros de profundidade, a cada período de sol, seca. Um açude de seis metros, com dois anos de sol, também seca. Por isso terão que ser profundos. "Chove de baixo para cima cinco vezes mais do que de cima para baixo".

Manoel Bomfim

Um livro magnífico que todos deviam ler: "A potencialidade do semi-árido brasileiro", do engenheiro piauiense Manoel Bomfim Ribeiro, prefaciado por Bautista Vidal, seu colega na Escola Politécnica da Bahia. É o mais completo estudo já feito sobre o Nordeste (e não apenas sobre água). Estudou e trabalhou meio século no Nordeste: 9 anos diretor do DNOCS e diretor da Codevasf (Companhia do Vale do São Francisco):

1 - "Construímos durante 100 anos o maior patrimônio hídrico do mundo na captação de chuvas, uma das grandes conquistas da humanidade em terras áridas, e não podemos perdê-la, por falta de conservação".

2 - "Só temos condições de irrigar 2 milhões de hectares, nada além, o que equivale a 2% do Polígono das Secas. O Vale do Rio São Francisco dispõe de 3 milhões de hectares de solos agricultáveis, de excelente qualidade, já possuindo 330 mil irrigados, 11% de sua potencialidade".

3 - "Devido à turbinagem de suas águas no sistema energético de Paulo Afonso, só podemos irrigar mais 700 mil hectares de terras em toda a sua bacia. O Vale do Rio Parnaíba, com sua grande rede de tributários, tem potencialidade disponível para irrigar de 300 a 400 mil hectares".

Transposição

Por isso, o professor Bomfim é contra o projeto da transposição:

"Diante dessa gigantesca riqueza de águas acumuladas e estocadas nos nossos 70 mil reservatórios, a maior rede de açudagem do planeta, a solução para o problema hídrico do Nordeste é somente distribuição, através de um robusto e potente sistema de adutoras.

A infra-estrutura hídrica já está pronta. Só falta a gestão. O semi-árido brasileiro não precisa das águas do São Francisco. A transposição é um grande equívoco. É a bobagem de Russell".