COISAS DE ANTIGAMENTE
Heraldo Costa

Não sou tão velho assim, mas vez por outra me pego pensando em coisas que existiram e deixaram saudades. Coisas traduzidas em lojas, locais, nomes, cheiros e sons.

Lembrar de como era bom fazer as compras no mercado central, com aquele cheiro de carne fresca no ar e os gritos dos açougueiros, ávidos para concluírem seus trabalhos.

A feira municipal, que nos meus tempos de infância, marcava pela garapa com pão doce no seu brotinho. Aquele pão que as abelhas ficavam rodeando para pegar um cristal de açúcar, tão fartos. Acho que acompanhava minha mãe mais por causa do lanche, isto é, quando sobrava algum trocado.

Lembrar que quem não quisesse ter problemas para trazer compras pra casa deveria levar sua sacola ou compra-las dos meninos pobres que vendiam aquelas feitas de saco de cimento, coladas com goma de tapioca (essa mesma que se toma no tacacá). Cheguei a vender várias.

Da mesma forma, quem não quisesse deixar de comprar o açai, deveria deixar marcada sua vaga na batedeira, nem que fosse com uma lata velha.

A volta pra casa pela Antonio Coelho de Carvalho, passando no lado de um grande lixão, de cheiro horrível, hoje a praça Floriano Peixoto ou pelo meio da praça da conceição e o olhar respeitoso para o “colégio das freiras”.

Subir até o bairro “alto da favela”, passar antes pelo Gato Azul ou pelo Xodó e ficar deslumbrado com um dos primeiros escritórios de advocacia: do Dr. Cícero Bordalo, que antes era no final da Presidente Vargas, já na beira do rio.

Se o itenerário fosse outro, passar pelo “canta galo” (não sei porque esse nome) e descer pela Feliciano e ver o urca bar com uma das primeiras “galerias” de serviços diversificados, como a barbearia do ceará.

Ver o prédio da Sucam e ficar sonhando um dia poder ser um “guarda” com aquela parafernália nas costas que espirrava DDT e espantava os carapanãs da malária.

Por falar nisso, visitando uma certa casa no interior, me lembrei daquele cartãozinho que os “guardas da Sucam” deixavam pregados atrás das portas, os quais não se podiam arrancar, pois marcavam o dia da “borrifação”.

Ver os também imponentes “guardas” do GRUCI (atual corpo de bombeiros).

Enfim, fazer compras na casa Nabil, casa Belém ou comprar remédio na Farmácia do seu Marlindo Serrano, que atendia a todos com aquele jeito bonachão.

Mas para viajar para o Afuá, a maior alegria era descer para o “remanso”para pegar o barco que ancorava no matadouro do Pedro Pinheiro, onde também tinha o comércio do “Seu Reis”. Aquele que vendia picolé de água com alguma coisa. Picolé que após algumas “lambidas” ficava só o gelo e era feito numa máquina que ficava sempre rodando.

Ver ali o movimento frenético das estâncias e dos armazéns e poder se deparar com o finado “Mucura” com seu habitual “quantas carradas patrão” e sua burrica, sempre muito braba e dando coices. O Mucura que jamais conseguiu acertar o nome do meu pai, chamando-o sempre de “Seu Erá” (o nome mesmo é Heráclito).

Lembrar da “carrocinha” que nos deixava sempre aborrecidos quando levava os cachorros de nossa rua, mas ficar deslumbrado em ver a destreza do Eloi que não errava uma laçada (ainda bem vivo e fazendo carreto no Buritizal em sua carroça).

E o que dizer da Vacaria, hoje Santa Inês ou da Vila da Mucura, que ficava no lado da fortaleza de São José onde minha avó e meu amigo Iaci Pelaes moravam e que depois foi remanejada para o Nova Esperança, antes “Coréia”.

São muitas lembranças que serão motivos de outros textos, escrevendo tomando um Café Grão de Ouro, que começou a funcionar em minha infância e que inundava o Buritizal com seu cheiro, acompanhado do gosto da rosca, cacetinho e donzela.

E se você é saudosista como eu e puder me ajudar, é só mandar um email com suas lembranças para [email protected]