A desmoralização da mídia brasileira

Luiz Carlos Azenha, no blogue: www.viomundo.globo.com

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Era 1h25 da manhã de segunda-feira, dia 3 de dezembro, quando este site anunciou o resultado do referendo na Venezuela e a derrota da proposta de reforma constitucional de Hugo Chávez, desde Caracas. Neste mesmo horário, a manchete acima estava na capa da Folha Online. Eram 3h25 da manhã no Brasil. Não é horário de ler notícias na internet, com certeza. Porém, estranhei que a manchete permanecesse ali por um bom tempo, completamente equivocada em relação ao resultado, acompanhada por um erro factual - não foi o presidente, mas o vice quem reconheceu que a apuração estava "apertada" - e por uma análise prevendo que a votação abria "era de incerteza para Chávez".

Como assim? A previsão já contava com o resultado? Ou a "era de incerteza" independia do resultado? É o que tenho escrito aqui, repetidamente: até o menos ruim dos jornais brasileiros é tecnicamente fraco. "Escuálido", diriam os chavistas. Ao desembarcar no Brasil, vindo de Caracas, ganhei um Estadão e li parte da cobertura, no táxi. Que pobreza.

Um dos grandes destaques foi a manchete segundo a qual Chávez teria demorado sete horas para reconhecer o resultado. Que estupidez. Quando o resultado foi oficialmente anunciado pelo Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela nem todos os votos haviam sido contados. Os votos no Exterior não haviam sido contados. Nem aqueles de regiões remotas, não conectadas à rede informatizada. Chávez admitiu a derrota por pequena margem, ANTES MESMO DO FIM OFICIAL DA APURAÇÃO, diante da informação de que a tendência era irreversível e não havia margem para o SIM reverter a diferença de cerca de 145 mil votos.

Porém, essa informação não combina com a cobertura manipulada, mentirosa e distorcida que a mídia brasileira vem fazendo sobre a Venezuela. Quando contei a venezuelanos que se opõem a Chávez qual era a imagem da Venezuela no Brasil, de uma ditadura enrustida, muitos deram risada. E é assim que a mídia corporativa brasileira, aos poucos, vai se desmoralizando. Jamais vai admitir que errou e corrigir o erro. Como vocês sabem, só o Lula erra. A mídia brasileira não erra nunca.

Essa gente acha que você, caro leitor, é estúpido, que não pode ter acesso a outras fontes de informação, que foi devidamente imbecilizado pela cobertura maniqueísta, descontextualizada e, francamente, vagabunda. Eu não compro mais jornal. Não quero que meu dinheiro financie esta safadeza.

Como já escrevi várias vezes aqui, existe um governo muito poderoso que não quer a Venezuela no Mercosul. Que contava com violência na Venezuela para derrubar Chávez. Que não aceita que ele permaneça no poder por motivos óbvios, dentre os quais pelo fato de que pretende exercer a soberania do país e se nega a entregar o petróleo e o gás venezuelanos de graça, como acontecia no passado

Ontem o Congresso americano, com um surpreendente apoio de democratas, aprovou o acordo comercial dos Estados Unidos com o Peru. Quando se trata de defender os interesses nacionais, os americanos se entendem. Tudo o que eles NÃO querem é um bloco econômico independente, no que sempre consideraram, desde a doutrina Monroe, sua área natural de influência.

Aqui no Brasil, prestadores de serviço usam concessões públicas, que pertencem à população brasileira, para defender a política externa e os interesses comerciais dos Estados Unidos. Se fizessem isso abertamente, com argumentos, seria maravilhoso. Teríamos um debate enriquecedor. Porém, essa turma sabe que colocar os interesses americanos acima dos brasileiros pega mal. Fazem o servicinho sujo por baixo do pano, como já fizeram no passado, quando foram bater nas portas da Casa Branca para pedir ajuda na derrubada de um governo eleito de forma legítima pelos brasileiros.

Os Estados Unidos são um importante mercado para o Brasil. São parceiros em várias iniciativas. Porém, existem conflitos naturais quando se trata de interesses geopolíticos. É natural que os americanos defendam com unhas e dentes seus próprios interesses. É bacana ver republicanos e democratas colocando suas diferenças de lado quando se trata de algo que fortalece os interesses comerciais do país. Vivi mais de 16 anos nos Estados Unidos, tenho apreço pelo país, tenho duas filhas brasileiro-americanas e sei que os gringos são pragmáticos quando se trata de comércio. Se você deixar, levam as suas calças. Se peitar, trocam a sua camisa social por duas T-shirts e saem felizes com a barganha.

O meu problema não é com os americanos. É com os brasileiros que, vestidos com a camisa da seleção brasileira, querem entregar as calças em troca de um espelhinho. Eu duvido, duvido muito que os jornais, as emissoras de rádio e de TV brasileiras divulguem os nomes dos jornalistas que já fizeram tours dos Estados Unidos com tudo pago pelo governo americano. Eu gostaria de confrontar essa lista com a dos que tiveram viagens patrocinadas pelo tesouro venezuelano.