Confessavam os seus pecados

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

A pregação de João Batista, o precursor, não foi agradável. Podemos dizer que foi ameaçadora. Toda árvore que não produzir bom fruto será cortada. E a palha? Se for inútil, será queimada. Somente os bons frutos e o trigo vão ficar. O resto será cortado e queimado. Mas o povo ia ao encontro de João. Eles "confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão". Quer dizer que as ameaças de João tiveram um certo sucesso. Não sabemos se foi por medo ou por convicção, pelo menos alguns ficaram tocados pelas palavras de quem "gritava no deserto". Seria o caso de voltar a ameaçar o nosso povo? Não acredito. Até porque o próprio Jesus, apesar de ter também chamado atenção e anunciado castigos, não escolheu o caminho do medo.

Ainda hoje, claro, as ameaças podem funcionar. Sempre terá mãe dizendo ao filho que vai batê-lo, em vez de conversar com ele. Sempre haverá alguém indo à Missa de domingo, só por cumprir uma obrigação, para se sentir seguro de não correr nenhum perigo. A idéia de um Deus que castiga, que atrapalha os nossos planos, que gosta de nos ver sofrer, sempre terá alguns adeptos ou alguns seguidores: profetas zangados de um Deus justiceiro. Sinceramente, é difícil amar um Deus assim, e, mais difícil ainda, acreditar que Ele seja o Amor.

Estou convencido de que Deus Pai não precisa ameaçar ninguém, e nem enviou o seu Filho para amedrontar. Prefiro pensar num Deus que sofre conosco, porque, na realidade, são os caminhos errados que percorremos que nos fazem sofrer. De uma situação injusta, nunca nascerá algo de bom. Facilmente virá mais ódio e mais desejo de vingança. Da violência nunca virá a paz. De uma guerra nunca surgirá a fraternidade. Para ter paz e fraternidade, tem que acabar com a guerra e a violência!

Por isso Jesus mandou Pedro repor a espada e se ameaçou, com os seus famosos "ais", foi só para lembrar aos ouvintes que estavam no caminho errado. Do mal não pode vir o bem. A não ser que quem pratica o mal entenda o seu erro e aceite corrigir-se. Quem acorria ao deserto e aceitava o batismo de penitência de João, "confessava os seus pecados", quer dizer que se declarava abertamente, ou pelo simples fato de estar ali, reconhecia a necessidade da sua conversão.

Como é difícil mudar de vida. As ameaças dos pais espantam a criança, no entanto fazem rir o adolescente e o jovem. As profecias dos desastres do planeta terra, hoje tão na moda, não conseguem conter o consumo, o desperdício e a poluição. As multas doem, mas não temos certeza de que salvem alguém da morte, quando a adrenalina de uma corrida desenfreada elimina todo medo e prudência. Se o pensamento, ou a lembrança, da prisão surtissem efeito, teríamos vagas nas penitenciárias.

É algo de mais profundo que deve ser mudado e transformado. Infelizmente, ainda acreditamos mais no medo do que no amor; confiamos mais nas armas do que na força do exemplo e da convicção. A brutalidade, a violência e a morte, ainda parecem ser o caminho mais curto e mais fácil para resolver os problemas. Na realidade, nunca resolvem nada, somente silenciam a questão, fecham as bocas, prendem os corações, anestesiam as consciências.

O Natal está chegando. Todos dizem que é a festa da paz, todos dizem que se sentem mais generosos e bondosos nos dias de Natal. Quem dera que esse continuasse a ser o caminho certo para mudar as coisas! O caminho do diálogo e não da agressão. O caminho da honestidade e da justiça e não da corrupção e da desigualdade. Ainda temos alguns dias, entre uma compra e outra, entre uma festinha e a outra, para reconhecer os nossos pecados, para pedir perdão, para recomeçar de novo, sem medo, sem ameaças, só com a força do bem e da verdade. As únicas armas do Menino Jesus.