Um altar para Che
Como o guerrilheiro pop virou santo
entre os camponeses
da região boliviana onde morreu

por Marcelo Câmara, de Vallegrande
fotos Marcelo Curia

Num desses pequenos armazéns do interior boliviano, onde é possível encontrar de gêneros alimentícios a artigos de higiene, a comerciante Martha Avalo, de 26 anos, garante a proteção à saúde e aos negócios rendendo orações a um pequeno panteão de imagens de santos penduradas numa viga sob o teto. Uma delas, um quadro de tons azulados, mostra um sujeito de barba aparada, olhando para o infinito com a face iluminada por uma luz vinda do alto, e divide as atenções com imagens de Jesus Cristo e da Virgem Maria.

Não haveria nada a se estranhar se não fosse esse personagem alguém que defendia o fuzil como forma de luta. Mas em Vallegrande, na região central da Bolívia, 240 quilômetros a sudoeste de Santa Cruz de la Sierra, isso é normal. Ali, palco final da frustrada epopéia boliviana de Ernesto Che Guevara (veja boxe), a biografia do guerrilheiro argentino-cubano ganha capítulos inusitados e companhias pouco comuns.

Alçado à posição de beato popular, San Ernesto de La Higuera, como ficou conhecido, é alvo de devoção e tido como protetor. Os 7 mil habitantes de Vallegrande convivem com a presença do guerrilheiro desde o dia da sua morte, em 9 de outubro de 1967. E, por mais que as autoridades e o Exército tenham tentado, durante muitos anos, desestimular quaisquer reverências à sua memória, seu mito cresceu na clandestinidade, espraiando-se como rastilho de pólvora.


Ajuda e proteção
O corpo de Che foi apresentado ao público na província de Vallegrande (acima). Hoje, a imagem do guerrilheiro está por toda parte.

O agrônomo alemão Erich Blossl, de 67 anos, testemunhou grande parte dessa história. Blossl chegou a Vallegrande em 1966 para trabalhar num projeto de colaboração entre os governos alemão e boliviano que visava a prospecção de terras para a reforma agrária. Durante os dois anos seguintes, ficou morando na cidade. "Foi exatamente nesse período que aconteceu a guerrilha", lembra. "O povo da região era totalmente contrário à campanha de Che Guevara." Concluído o trabalho, Blossl voltou para a Alemanha, mas todos os anos viajava para rever os amigos bolivianos, até fixar raízes em Vallegrande. "Quando voltei, em 1976, Guevara já estava morto. As pessoas pouco falavam nele, mas já dava para perceber uma certa admiração popular em relação à sua figura".

Hoje, o agrônomo alemão é proprietário de um restaurante na parte alta da cidade, de onde se tem uma belíssima vista dos vales que circundam a região. Dali, ele observou o nascimento do culto a Che, fortalecido com o passar dos anos.


O epílogo de um mito
Susana Ocinaga (acima) preparou o corpo de Guevara para ser apresentado ao público.


Hoje, 36 anos depois, Favio Giorgio (à esq.) trabalha para ajudar as comunidades da região: vilas e povoados que foram palco dos últimos dias de vida de Che Guevara.

Olhos abertos. Para Blossl, a causa de toda essa veneração foi o fato de o corpo sem vida de Che Guevara ter sido apresentado à população com
a aparência de uma pessoa viva e, principalmente, com os olhos abertos.

Quando chegou a Vallegrande, trazido do povoado de La Higuera del Che, o corpo do guerrilheiro estava praticamente irreconhecível: imundo, roupas rasgadas, ensangüentado, cabelos desgrenhados. "Os militares temiam que os seguidores de Che não reconhecessem o líder naquele estado, não aceitassem a derrota e alimentassem a idéia de que ele permanecia vivo em algum lugar", diz Erich Blossl. Era preciso, então, preparar o cenário para a apresentação do cadáver, símbolo da vitória contra a guerrilha. Para não deixar dúvidas, o comando militar ordenou a preparação de Che para que fosse facilmente reconhecido. Assim, o corpo levado a público era o de um homem relativamente jovem - Guevara morreu aos 39 anos -, bonito, de cabelos penteados. Os olhos abertos passavam a impressão de que ainda havia vida ali. Para o povo humilde e religioso de Vallegrande, era como se fosse um milagre. "E, o mais importante, o rosto lembrava muito o de Jesus Cristo", recorda Blossl.

A enfermeira Susana Ocinaga, na época com 18 anos, também não esquece aquele dia.
Trabalhando no Hospital Nosso Senhor de Malta, na tarde do dia 9 de outubro, quando o corpo chegou a Vallegrande, foi ela a responsável pela preparação do cadáver. Nas suas mãos, Che Guevara transformou-se no personagem visto nas imagens que correram o mundo. "Para mim, era uma pessoa qualquer", recorda Susana, hoje com 54 anos. Em meio à tensão que dominava o lugar, ela lavou o corpo do guerrilheiro, penteou-lhe os cabelos e vestiu-o com uma calça de pijama do hospital.
"Ele não tinha a aparência de um morto. Parecia que estava me olhando", conta.

Aqueles momentos foram assistidos por grande parte da população vallegrandina, que acompanhou em massa a movimentação militar desde o desembarque no aeroporto até a apresentação do cadáver na lavanderia do hospital. A romaria formada para visitar o lugar foi palco de cenas inusitadas. Pessoas ajoelhavam-se para tocar a testa de Che Guevara.
Outros paravam diante do corpo e faziam o sinal da cruz. A gente simples e de imaginação fértil que acompanhava a tudo logo associou a imagem daquele homem com a de Cristo após a crucificação. Os olhos abertos do morto causavam espanto a todos. "Foi incrível. Ele parecia mesmo estar olhando para cada um de nós", diz Erich Blossl.


O fato é que quem presenciou aquele evento saiu dali emocionado. A isso, some-se o quase total desconhecimento, por parte da população local, da pessoa e dos ideais de Che Guevara, permitindo que se chegasse apenas a uma curiosa versão de sua biografia: um homem bom, que tinha ido à Bolívia para
ajudar os pobres e que, por isso, foi assassinado. Estavam reunidos
todos os ingredientes para uma veneração popular que, lentamente, transformou o lendário guerrilheiro Che Guevara no San Ernesto de La Higuera, o mártir, a boa alma que ajuda as pessoas de Vallegrande.


Fé popular. Não se pode apontar o momento exato em que esse fenômeno religioso teve início. O que se sabe é que, logo após a morte de Che Guevara, começaram a surgir velas e flores na desativada lavanderia do hospital, onde o corpo do guerrilheiro foi apresentado ao público.

Hoje, o local é ponto de peregrinação dos devotos de San Ernesto. "Às vezes, as pessoas acreditam em alguma coisa com tanta devoção que ela acaba se tornando realidade", afirma Erich Blossl. "É o que acontece aqui, com Che. Essa gente simples acredita que somente um morto é capaz de curá-la das mazelas da vida e interceder a seu favor."

Pode ser uma boa colheita, um animal recuperado ou a garantia de bons negócios, como acontece na lanchonete Selva Negra, de Betty Alvarado, de 34 anos. Todos os dias, ela vê seu estabelecimento ficar lotado de pessoas interessadas em provar seus deliciosos pastéis, feitos na hora.

Numa das paredes da lanchonete, a imagem de Che Guevara com ar de santo. "Ele é uma alma justa, que olha pela gente", acredita a comerciante. A própria Igreja reconhece a força do inusitado santo popular. Segundo o pároco Fernando Castaño, Che Guevara é um dos nomes mais lembrados nas missas do Dia de Finados. "Se ele tivesse tido uma trajetória religiosa entre o povo, já seria considerado santo por toda a população de Vallegrande", diz o padre.


Quem foi Che Guevara

O argentino Ernesto Guevara de la Serna entrou para a História por sua participação na Revolução Cubana de 1959. Ao lado de Fidel Castro, foi um dos principais personagens do movimento socialista. Sua trajetória teve início poucos anos antes, quando, recém-formado em Medicina, deixou a Argentina para percorrer outros países da América Latina.

Nessa viagem, iniciou-se nas doutrinas socialistas que o levariam à adesão ao grupo de Fidel. Homem de personalidade forte, orador inteligente, hábil estrategista e, acima de tudo, extremamente voluntarioso e decidido, "Che" Guevara (interjeição típica argentina com a qual foi apelidado pelos cubanos) não se adaptou à burocracia castrista e, em 1965, deixou o cargo de ministro do governo de Fidel para seguir com seu projeto de levar a guerrilha aos países do Terceiro Mundo. Após uma frustrada campanha no Congo Belga, retornou à América do Sul, em novembro de 1966, com a intenção de estabelecer um foco guerrilheiro na Bolívia. Isolado num território desconhecido e sem apoio dos comunistas bolivianos, Guevara foi perseguido pelo Exército nacional até ser capturado, no dia 8 de outubro de 1967.

Levado para o povoado de La Higuera, foi assassinado no dia seguinte, sob ordens enviadas pelo comando-geral, de La Paz.

Trabalhando para que a memória histórica de Che Guevara não se perca em
meio à crendice popular, o argentino Favio Giorgio, de 37 anos, coordena o projeto "A Rota do Che", que tem o apoio da ONG Care Bolívia e procura capacitar as comunidades locais para o turismo histórico.
"Minha idéia não é transformar esses lugares em grandes atrações turísticas, até porque sei como é difícil chegar aqui. Mas penso que esse pode ser um bom caminho para melhorar a vida dos moradores da região."

O povoado de La Higuera del Che, 60 quilômetros ao sul de Vallegrande, é o maior beneficiado pelo trabalho de Giorgio. Foi nessa comunidade de pouco mais de 100 habitantes que, na manhã de 9 de outubro de 1967, Che
Guevara foi assassinado. O nome do povoado evidencia a preocupação de seus moradores em afirmar que por suas ruas estreitas passou um dos mais famosos líderes guerrilheiros da História. E traduz, de forma especial, toda essa gama de sentimentos em relação a Che. Essa vila extremamente pobre, onde os homens recebem 2 dólares por um dia de trabalho no campo, conta hoje com um pequeno albergue, uma sala comunitária com painel solar para energia elétrica e uma reformada escola para as crianças. Além disso, o dinheiro levantado pelo projeto de Favio Giorgio possibilitou a construção de uma biblioteca popular.

A administração dos recursos recebidos da Care Bolívia e das doações deixadas pelos visitantes é coletiva. E a própria história de Che é retomada nas aulas ministradas por Giorgio e na preparação dos guias locais, que conduzem os visitantes à Quebrada del Churo, vale de vegetação seca e espinhosa onde ocorreu o combate final e a captura de Che.

Esperança.
Um desses guias é Agustín Robledo, de 25 anos. Tímido e de gestos tranqüilos, Robledo teve de abandonar os estudos em Santa Cruz de la Sierra para trabalhar no campo e sustentar a mulher e a filha.
Cruzando os 2 quilômetros que separam o povoado do ponto onde Che foi aprisionado, ele relata os últimos momentos do guerrilheiro. Sentado na pedra onde Che recebeu o tiro que lhe interrompeu a fuga, Robledo narra, em tom quase poético: "A primeira coisa que Che Guevara ia fazer quando assumisse o poder era criar uma escola e um posto médico em cada povoado. E depois disso ele ia melhorar as estradas da região".

Apesar de não haver registro algum de que o líder argentino-cubano tenha dito qualquer frase parecida, a declaração do jovem guia é marcante pelo anseio que traz em si. No pobre e castigado interior camponês boliviano, que pouco mudou do período da guerrilha até hoje, as transformações continuam sendo necessárias, o que fortalece ainda mais o mito do forasteiro que teria chegado para ajudar o povo local.

Pode-se dizer que esses são sinais do trabalho de Favio Giorgio. Mas, para o povo de Vallegrande, são os verdadeiros milagres de um improvável santo chamado Che Guevara.

*Matéria publicada na edição #142 da revista Os Caminhos da Terra.

 


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Titica
Cipó muito usado para a fabricação de móveis. Chegou à beira da extinção.
Perau
Lugar perigoso do rio. Parte mais funda, onde o rio "não dá pé".
Timbó
Um tipo de veneno usado para matar peixes. Bate-se a planta na água, e o veneno se espalha. sem contrôle, mata.
Catinga de mulata
Catinga é cheiro ruim, mas "Catinga de mulata"é cheiro bom, tanto que virou nome de perfume nos idos dos anos cinquenta
Remanso
Ponto onde o rio se alarga, a terra forma uma reentrância e as águas ficam mais calmas
Bubuia

Aquelas minúsculas bolhas de espuma que se formam na corrente do rio. Viajar de bubuia é ser levado pelas águas. "De bubuia, título de canção popular.
Piracema

Época em que cardumes de peixes sobem os rios para a desova
Pedra do rio
Diz a lenda que que são as lágrimas de uma índia que chorava a perda do amado. É onde está a íagem de São José, na frente de Macapá.
Macapá
Vem de Macapaba, ou "estância das bacabas".
Bacaba
Fruto de uma palmeira, a bacabeira. O fruto produz um vinho grosso parecido com o o açai.
Curumim
Menino na linguagem dos índios, expressão adotada pelos brancos em alguns lugares.
Jurupary
O demônio da floresta tem os olhos de fogo, e quem o vê, de frente, não volta para contar a história.
Yara
É a mãe d'água. Habita os rios, encanta com a suavidade da voz, e leva pessoas para o castelo onde mora, no fundo do rio.
Pitiú
Cheiro forte de peixe, boto, cobra, jacaré e
outros animais.
Ilharga
Perto ou em volta de alguma coisa
Jacaré Açu
Jacaré grande.
Jacaré Tinga
Jacaré pequeno
Panema
Pessoa sem sorte, azarada. Rio em peixe.
Sumano
Simplificação da expressão"ei seu mano",que é usada por quem passa pelo meio do rio para saudar quem se encontra nas margens
Caruana
Espíritos do bem que habitam as águas e protegem as plantas os homens e os animais.
Inhaca
Cheiro forte de maresia, de axilas de homem, de peixe ou de mulher
Tucuju
Nação indígena que habitava a margem esquerda do rio Amazonas, no local onde hoje está localizada a cidade de Macapá.
Montaria
Identifica tanto o cavalo como a canoa pequena, de remo.
Porrudo
Grande, enorme, muito forte ou muito gordo
Boiúna.
Cobra grande, capaz de engolir uma canoa.(Lenda)
Massaranduba
Madeira de lei, pessoa grosseira, mal educada.
Acapu
Madeira preta, gente grossa mal educada.