Peixe-boi é item de caça
dos ribeirinhos do Tapajós

O verdadeiro grau de ameaça do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) ainda é um mistério para os pesquisadores. Para tentar esclarecer essa situação, um grupo de estudiosos ligados ao Projeto Peixe-Boi, do Centro Mamíferos Aquáticos/Ibama, viaja pela região oeste do Pará em busca de informações que possam orientar as ações de conservação da espécie.

Depois de percorrer mais de 6.400 quilômetros ao longo dos rios Solimões, Negro, Purus, Madeira e parte do Amazonas, no Estado do Amazonas, em 2000, a Expedição Peixe-Boi da Amazônia encontra-se no rio Tapajós em busca de sinais da presença do peixe-boi. Até meados de setembro deste ano serão visitadas mais de setenta comunidades na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns e na Floresta Nacional do Tapajós, às margens dos rios Tapajós e Arapiuns. O trabalho na região tem o apoio do Conselho Nacional dos Seringueiros. Avistar o animal é difícil.

Já os relatos de caça feitos pelos ribeirinhos e os afiados arpões usados na captura do animal podem ser encontrados em praticamente todas as comunidades por onde passa a expedição. Em Vila Franca, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, o pescador Raimundo Gamboa, 60 anos, diz que aprendeu com o irmão a arte de caçar o peixe-boi. Ele conta que a captura requer habilidades especiais, força e trabalho de, no mínimo, três homens capazes de dominar o animal. É uma prática que passa de geração a geração. A caça ao peixe-boi faz parte da cultura dos ribeirinhos. Vila Franca é um local emblemático na perseguição secular ao peixe-boi amazônico.

Relatos históricos registram que somente entre os anos de 1776 e 1778 foram exportados para a Europa 58 toneladas de carne e 1.613 barris de gordura de peixe-boi processados na vila que funcionava como entreposto comercial da época. Com o advento da indústria do couro na região- entre os anos de 1935 a 1954 - estima-se que mais de 20 mil animais foram mortos para abastecer as fábricas de cola, correias de máquinas, mangueiras e outros subprodutos do resistente couro do peixe-boi.

Dos antigos armazéns de Vila Franca restam apenas algumas ruínas e a memória dos tempos em que o peixe-boi era abundante em toda a região. Atualmente, a caça ao peixe-boi, apesar de proibida por lei, serve como meio de subsistência para os ribeirinhos e produto de comércio para o mercado clandestino que tem em Santarém seu epicentro regional. O quilo da carne custa, em média, R$ 1,00 na mão de quem caça.

No mercado, o preço pode subir um pouco. O extrativista Agostinho de Souza, da comunidade de Maripá, na Reserva Tapajós-Arapiuns, confirma que o comércio clandestino da carne do peixe-boi ainda existe na região mas que acontece apenas “sob encomenda”. Com 68 anos, o homem de traços caboclos lamenta não ter mais a destreza necessária para caçar o peixe-boi. Para provar sua “valentia”, ele exibe como um troféu o arpão de ferro e a haste de madeira com que ele ajudou a matar, “só uns seis” peixes-bois.

Para os ribeirinhos, o peixe-boi representa uma fonte extra de alimento. Eles atestam que a carne possui sabores distintos: “uma parte peixe e a outra é boi”, explica a esposa de seu Agostinho, revelando um conhecimento profundo sobre as técnicas de tratar a carne do animal, mais uma evidência de que os “seis” peixes-bois arpoados pelo marido podem ter sido pura modéstia.

Culinária
Sem estar envolvidas diretamente na captura dos peixes-bois, as mulheres entrevistadas na comunidade de Arumã – uma das comunidades na rota da expedição – demonstram grande conhecimento sobre as formas de “tratar” a carne do peixe-boi. (Mais uma evidência de que a caça ao animal ocorre com freqüência.)

Se os homens são os caçadores, as mulheres são as responsáveis por fazer a carne do animal chegar à mesa. Temperos amazônicos dão o sabor às receitas para a carne servida assada, frita ou cozida à moda. Para conservar a carne durante longos períodos, faz-se a “mixira”, técnica que consiste no armazenamento da carne pré-cozida na própria gordura do animal, que também é usada para fritar peixes e outras carnes. Os ribeirinhos também acreditam que a fricção da gordura pode curar doenças como o reumatismo e outras inflamações. Essa crença é unânime entre os entrevistados.

Desequilíbrio na floresta
A ausência do peixe-boi lagos e igarapés da Amazônia pode provocar desequilíbrios capazes de atingir peixes, plantas e o próprio homem. A alteração afeta todo o ciclo de vida na floresta onde se caça o mamífero aquático. Sem predadores naturais, o peixe-boi tem no homem o seu principal inimigo. Sem saber, o ribeirinho contribui para o empobrecimento da sua fonte de sobrevivência. Ao matar o peixe-boi, elimina-se um dos principais agentes da cadeia alimentar que se forma na água.

Herbívoro, o peixe boi se nutre das plantas aquáticas (aguapés, murerus e outros capins). Cada animal adulto chega a consumir até 20 quilos de vegetais por dia. Se o excesso dessas plantas não for eliminado, elas podem impedir a passagem de luz para dentro da água e provocar a morte dos peixes dos quais se alimentam os ribeirinhos. Da elaboração de sua dieta, o peixe-boi elimina nutrientes que servirão de base para o crescimento de fitoplâncton (algas quase invisíveis de tão pequenas) e zôoplancton (larvas de peixe e minúsculos crustáceos).

Esses elementos são a base da vida nos rios. Sem eles, toda a cadeia alimentar - que atinge inclusive o homem – sofrerá as conseqüências.

Vaqueiros das águas
Um vocabulário muito comum nos Pampas gaúchos, nas extensas fazendas do Pantanal ou nos campos das Gerais tem lugar garantido na fala dos ribeirinhos da Amazônia que praticam a caça ao peixe-boi. Para eles, a fêmea da espécie é “vaca”, o filhote é “bezerro”, “novilho” ou “vitela”, quando fêmea é “mamote” e “garrote” quando é macho. O capim e as demais plantas aquáticas que alimentam o animal são o “pasto”.

Por analogia, os caçadores são vaqueiros, só que nesse caso a montaria são singelas canoas que quase sempre são arrastadas pela força do animal ferido na tentativa de se esquivar da morte. Muitas vezes, os vaqueiros das águas acabam derrubados entre galhos espinhosos no terrível rodeio que acontece bem longe dos olhos do público. Na hora do golpe derradeiro, os peixes-bois estão em desvantagem em relação ao gado.

A morte do mamífero amazônico se consuma com uma técnica que inclui a introdução de tornos de madeira nas narinas do animal, às vezes associada a golpes de porrete nas narinas impedindo a respiração. O fim é uma agonizante morte por asfixia. (IBAMA) (Fotos:Projeto Peixe-Boi/IBAMA)

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Catinga de mulata
Catinga é cheiro ruim, mas "Catinga de mulata"é cheiro bom, tanto que virou nome de perfume nos idos dos anos cinquenta
Remanso
Ponto onde o rio se alarga, a terra forma uma reentrância e as águas ficam mais calmas
Bubuia

Aquelas minúsculas bolhas de espuma que se formam na corrente do rio. Viajar de bubuia é ser levado pelas águas. "De bubuia, título de canção popular.
Piracema

Época em que cardumes de peixes sobem os rios para a desova
Pedra do rio
Diz a lenda que que são as lágrimas de uma índia que chorava a perda do amado. É onde está a íagem de São José, na frente de Macapá.
Macapá
Vem de Macapaba, ou "estância das bacabas".
Bacaba
Fruto de uma palmeira, a bacabeira. O fruto produz um vinho grosso parecido com o o açai.
Curumim
Menino na linguagem dos índios, expressão adotada pelos brancos em alguns lugares.
Jurupary
O demônio da floresta tem os olhos de fogo, e quem o vê, de frente, não volta para contar a história.
Yara
É a mãe d'água. Habita os rios, encanta com a suavidade da voz, e leva pessoas para o castelo onde mora, no fundo do rio.
Pitiú
Cheiro forte de peixe, boto, cobra, jacaré e
outros animais.
Ilharga
Perto ou em volta de alguma coisa
Jacaré Açu
Jacaré grande.
Jacaré Tinga
Jacaré pequeno
Panema
Pessoa sem sorte, azarada. Rio em peixe.
Sumano
Simplificação da expressão"ei seu mano",que é usada por quem passa pelo meio do rio para saudar quem se encontra nas margens
Caruana
Espíritos do bem que habitam as águas e protegem as plantas os homens e os animais.
Inhaca
Cheiro forte de maresia, de axilas de homem, de peixe ou de mulher
Tucuju
Nação indígena que habitava a margem esquerda do rio Amazonas, no local onde hoje está localizada a cidade de Macapá.
Montaria
Identifica tanto o cavalo como a canoa pequena, de remo.
Porrudo
Grande, enorme, muito forte ou muito gordo
Boiúna.
Cobra grande, capaz de engolir uma canoa.(Lenda)
Massaranduba
Madeira de lei, pessoa grosseira, mal educada.
Acapu
Madeira preta, gente grossa mal educada.