Pedagogia do Sabiá na Escola Bosque

Na embocadura do rio, onde delta o Amazonas, a 150 quilômetros de Macapá, pelo caminho das águas entre a floresta densa, fica o arquipélago do Bailique. Formado pelas ilhas de Curuá, Parazinho, do Meio, Faustino, Bailique, Franco, Brigue e Marinheiro, o arquipélago é habitado por 8.500 pessoas, distribuídas em mais de 40 comunidades. E para atender toda essa demanda, com o intuito de oferecer educação de melhor qualidade ao povo ribeirinho, o Governo do Amapá, a partir de 1995, tomou a iniciativa de desenvolver o projeto de construção da Escola Bosque.

Como um dos maiores símbolos do desenvolvimento sustentável da região, construída basicamente com recursos naturais e pelos próprios moradores, a Escola, utilizando o método sócio-ambiental, iniciou suas atividades em junho de 1998, com 286 alunos. Esses números, crescentes a cada ano, hoje atingem a elevada soma de 802 alunos matriculados. "Os jovens daqui, com a dificuldade dos pais de mandá-los a Macapá para continuar os estudos, estavam ameaçados de chegar à fase adulta apenas com o primeiro grau. Com a Escola Bosque, o futuro deles agora é muito mais promissor", diz Selma, moradora da Vila Progresso, mãe de três filhos estudantes da Escola. Ayala Gomes de Moraes, 14 anos, que reside na comunidade da Macedônia, aluna da 7a série, falou com entusiasmo sobre a metodologia do ensino: "É muito legal a gente saber mais sobre a natureza. Os professores, que são bons, ensinam a preservar o meio ambiente. Aqui é diferente de todas as escolas que eu já estudei. E depois, todo mundo é muito amigo". Ayala nasceu no município do Amapá, está só há três meses na região e disse que nada é igual ao Bailique.

Música e educação

O projeto Pedagogia do Sabiá, que integra música e educação, chegou ao Bailique sob esse clima de otimismo e esperança manifestado pelos moradores. "Vai ter música na Escola!" – exclamava a linda cabocla de lábios cor de açaí, abraçada ao livro de Iniciação à Ciência, vendo o barco-motor Maria Carolina, que levava os artistas, ancorar no trapiche da Escola Bosque.

O Pedagogia do Sabiá, formado por Ademir Pedrosa (gerente do projeto), Osmar Júnior, Amadeu Cavalcante, Zé Miguel, Joãozinho Gomes, Val Milhomem, Marcelo Dias, Sebastião Mont’Alverne, Ronery e Verônica dos Tambores – músicos, cantores, compositores e poetas –, sai do laboratório para, literalmente, pôr em campo o que vem sendo produzido (são várias canções compostas) em cima das propostas de concepção e execução do projeto de caráter também itinerante. "Aproximar a música da escola é sempre uma grande idéia", ressalta o compositor Osmar Júnior. Referindo-se especificamente ao Bailique, completa: "Nós estamos no maior laboratório do planeta para esta experiência. O trabalho pedagógico, principalmente em relação à criança, que começa a descobrir, assimilar o mundo, o Bailique é propício a esse relacionamento com a nossa música, já que ela reflete a expressão de quem vive aqui".

Junto com os primeiros raios da manhã que incidiam sobre as águas do rio chegavam embarcações trazendo estudantes de todos os lugares do grande arquipélago. "Devido ao movimento das marés, têm alunos que saem à meia-noite da comunidade pra vir estudar pela manhã. Com a maré baixa não há como sair com a embarcação. A necessidade do conhecimento é tanta, que eles vêm na madrugada", conta o diretor Leobino Almeida, impressionando os artistas do Pedagogia do Sabiá.

A Escola Bosque não é só gol

Oito módulos, interligados por passarelas imensas, compõem o complexo da Escola Bosque, encravado no coração da floresta. Quatro deles abrigam as salas de aula que também são quatro, com capacidade para 25 alunos cada uma delas. Os outros módulos fazem o setor administrativo, a biblioteca, o alojamento e o restaurante, que, nos intervalos das aulas, os alunos se alimentam de merenda regionalizada. O açaí, por exemplo, é colhido pelos próprios alunos, nas atividades de Educação Física, ali mesmo na floresta. Na escalada de uma palmeira eles são incomparáveis. O corpo docente da Escola é formado por 42 profissionais do nível médio (de 1a a 4a série) e – a grande maioria – licenciados (profissionais que lecionam de 5a a 8a série e o 2o grau).

Mas a Escola Bosque não é só gol. Como em toda a rede de ensino do país, faltam também educadores. "Atualmente estamos com carência de professores nas disciplinas de Educação Física e Língua Estrangeira. Em Educação Física temos apenas um professor, mas a Escola precisa de dois. Já em Língua Estrangeira, estamos sem nenhum." – conclui, com transparência, Leobino.

Onde canta o sabiá

A Escola Bosque possui bela paisagem natural, de rica vegetação, onde, por todos os cantos, abundam açaizeiros – a mais magra das palmeiras. De repente, enquanto os músicos faziam uma caminhada de reconhecimento do ambiente pelas passarelas, uma avezinha no céu, símbolo do projeto, voando pelo arvoredo, trazia a inevitável lembrança da canção: Minha terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá... Era o pulsar da natureza conspirando em favor do projeto.

Vídeo e show

Não é a primeira vez que o Pedagogia do Sabiá vai ao Bailique. Os artistas já estiveram lá outras vezes, pesquisando as coisas do lugar e analisando o comportamento das pessoas. A partir daí nasceram as canções que eles vão reunir em um CD com lançamento previsto para o próximo semestre.

Patrocinado pelo Governo do Amapá, através da Secretaria de Estado da Educação (o projeto é ligado à Seed), a expedição ao Bailique durou uma semana. Nesse ínterim, tendo como locação a Escola Bosque, imagens foram colhidas para a produção de um vídeo-clipe com a canção tema. A A3 Publicidade mandou os profissionais Gilmar Pureza (cinegrafista), Elielson dos Santos (auxiliar) e Tomé d’Azevedo (diretor de produção) que, durante dois dias, realizaram as gravações. A canção "Sabiá" envolve toda a trupe cantando. Marcelo Dias vai aparecer acompanhado por um coro de crianças de muitos timbres e cores, assim como Amadeu Cavalcante, envolvido pelo encanto de uma bela e alegre ciranda. Zé Miguel e Val Milhomem, passeando pelas passarelas, tendo como cenário o Amazonas, darão ao clip bom tempero afro-brasileiro. Ademir Pedrosa e Joãozinho Gomes – os poetas –, em takes, vão ser vistos distribuindo a letra impressa entre estudantes. Sebastião Mont’Alverne, sempre levado pelo braço de um violão, vai estar no vídeo solando os seus acordes em dissonantes. E Osmar Júnior, como um menino, cercado também por crianças, mandando ver o refrão: Canta, canta sabiá / Que é preciso estudar / Canta, canta sabiá / Canta e vem me ensinar... Ou seja: pedagogia musical ao pé da letra!

Os alunos da Escola Bosque prestavam as últimas avaliações do semestre. Numa noite de lua cheia foram brindados com um show que reuniu todas as estrelas do projeto. Sebastião Mont’Alverne tocou música clássica, Zé Miguel cantou "Vida Boa", Amadeu Cavalcante levou "Tarumã" e Val Milhomem "Formigueiro" – foram algumas das apresentações individuais. Marcelo Dias, acompanhado de tantas vozes, fazia a tradução mais completa da noite: Quero tocar toada / Seja lá onde for / Dança da Marujada / Festa do interior... "O Bailique, por ser um lugar absolutamente mágico e transcendental, permite essa harmonia perfeita da vida com a arte. Estamos todos gratificados e felizes com tanta troca de experiência vivida aqui", comemorou o poeta Ademir Pedrosa.

No encerramento do show, depois do grande bis, os artistas distribuíram autógrafos aos estudantes. Delma Rodrigues, cursando o 1º ano básico, disse: "A música faz parte da nossa cultura, nós temos que valorizar o que é nosso". Ao lado, a filha adolescente, Eltilene, aluna do 3º ano, completou: "O projeto trouxe muita alegria pro Bailique, incentivando a população a cultivar mais a música amapaense. Estou encantada. A noite foi ma-ra-vi-lho-sa!".

Maria Carolina deixou o cais, trazendo de volta os artistas à meia-noite, singrando o maior rio do planeta, iluminado de lua e salpicado de estrelas.


Aroldo Pedrosa

Bombons da Sol
Bombons de chocolate com recheio de frutas regionais.
Deliciosos,
Pedidos pelos telefones 223 4335 e 9964 7433


Tia Neném
Lanches, sucos naturais e comidas regonais e nacionais.
Tacacá especial.
Tradição de 30 anos.
Cônego Domingos Maltez próximo da Eliezer Levy



 

Catinga de mulata
Catinga é cheiro ruim, mas "Catinga de mulata"é cheiro bom, tanto que virou nome de perfume nos idos dos anos cinquenta
Remanso
Ponto onde o rio se alarga, a terra forma uma reentrância e as águas ficam mais calmas
Bubuia

Aquelas minúsculas bolhas de espuma que se formam na corrente do rio. Viajar de bubuia é ser levado pelas águas. "De bubuia, título de canção popular.
Piracema

Época em que cardumes de peixes sobem os rios para a desova
Pedra do rio
Diz a lenda que que são as lágrimas de uma índia que chorava a perda do amado. É onde está a íagem de São José, na frente de Macapá.
Macapá
Vem de Macapaba, ou "estância das bacabas".
Bacaba
Fruto de uma palmeira, a bacabeira. O fruto produz um vinho grosso parecido com o o açai.
Curumim
Menino na linguagem dos índios, expressão adotada pelos brancos em alguns lugares.
Jurupary
O demônio da floresta tem os olhos de fogo, e quem o vê, de frente, não volta para contar a história.
Yara
É a mãe d'água. Habita os rios, encanta com a suavidade da voz, e leva pessoas para o castelo onde mora, no fundo do rio.
Pitiú
Cheiro forte de peixe, boto, cobra, jacaré e
outros animais.
Ilharga
Perto ou em volta de alguma coisa
Jacaré Açu
Jacaré grande.
Jacaré Tinga
Jacaré pequeno
Panema
Pessoa sem sorte, azarada. Rio em peixe.
Sumano
Simplificação da expressão"ei seu mano",que é usada por quem passa pelo meio do rio para saudar quem se encontra nas margens
Caruana
Espíritos do bem que habitam as águas e protegem as plantas os homens e os animais.
Inhaca
Cheiro forte de maresia, de axilas de homem, de peixe ou de mulher
Tucuju
Nação indígena que habitava a margem esquerda do rio Amazonas, no local onde hoje está localizada a cidade de Macapá.
Montaria
Identifica tanto o cavalo como a canoa pequena, de remo.
Porrudo
Grande, enorme, muito forte ou muito gordo
Boiúna.
Cobra grande, capaz de engolir uma canoa.(Lenda)
Massaranduba
Madeira de lei, pessoa grosseira, mal educada.
Acapu
Madeira preta, gente grossa mal educada.