DENTRO DE MIM UM POEMÍCULO
C.B.Souza

A tristeza tem que desculpar

Se a faço minha cada dia mais

Sem que me abandone o sofrer

Que não me deixou jamais. JAMAIS

Solitário e triste é que pareço PAREÇO

Falta-me bar, poesias, bêbados

Alegres fantasias e adereços

Consciência de mim desde o começo. COMEÇO


Sou pedra que não serve a obra SOU

Sou folha áspera, hera morta

Planta rude, esta hera, da sobrepedra. MORTA


Estão disponíveis os segredos desta solidão SOLIDÃO

Tome-os e a pedra como lição

Grave-os se tem (no) coração.


Macapá, 28/04/00


SERRA DO NAVIO
(Um poema de forma fixa, com métrica disforme)

Se a água da chuva não amolece a crosta.

E o império do sol cresta ímpio a terra,

Matuta o velho agricultor: não haverá roça,

nem fé, nem farinha, nem fiado na taberna.

Pensa triste o velho minerador: é emboscada do destino.

Vida passada? (que dúvida) Bons tempos aqueles?!

A boemia se confunde com o clarão matutino.

Não há mais alvorada (nem novos dias) tudo parece perdido!

Sobre a velha cidade a veste do tempo tece-se de nuveotas.

O brilho da vida, é o das estrelas e o do sol.

O desespero, tão somente, tempera os cozidos de mandioca.

Não se recomeçará a vida, nem o dia, sem alvorada.

Sem as lágrimas das nuvens, a terra endurecida se cobrirá de sol e poeira.

A fuligem nuviosa que hoje cobre as lembranças, já é o nada.

 

Cesar Bernardo - Macapá, fevereiro/98.



DA TERRA AO HOMEM

(DO AMAPÁ)

Recusa-te, definitivamente, à miséria extrema

Nega-te abandonado de todo gênero humano.

Tens que domar a fera que te esgana.

Não te vale suplicar do céu a piedade suprema.

Digo-te lavrador: faz teu pão.

Não te alimento mais, lavra, semeia.

Dou-te fibra: faz tua morada.

Teu destino? Toma nas mãos.

Acorda em nova aurora, real.

Expulsa de ti companheiras indolentes.

Mas trata-me melhor sou tua parceira mais natural.

Onde sonhas, em qual mundo, afinal?

Do que te orgulhas, o que te envaidece?

Previno-te, virá o tempo. O teu, qual?

 

César Bernardo – abril/1999