Uns pobres periquitos ao pôr-do-sol de Breves
Carlos Augusto Ramos

- E aí menina?

- E aí maluco?

- Qual é tua sina?

- Putinha de suco.

- De suco?

- De suco travoso.

- Travoso?

- De fruta verdinha,

Miudinha,

Goiabinha,

Que mordidinha,

Dói na entradinha...

- Tá, maluca.

- Só, doidão.

- Por que é sapeca?

- Livrá o boião.

- O boião?

- Da mãe e do pai.

- Do pai?

- Do pai que me falta

Na balsa,

As calça,

A grana falsa

Me tira a graça.

- Ê, doidinha.

- Que é pivete?

- Não sente peninha...

- Não te mete...

- Da tua mãezinha?

- Por quê?

- Ela humilhada,

Vê sua cria,

Vadia,

Bebia,

Fazia

Mil cria.

- Pois pára, garoto!

- Qual é piranha?

- Teu lado é escroto!

- O que o arranha?

- A lata.

- A lata?

- Embriagada.

- Curtição da boa.

- Besteira

Cegueira,

Sujeira

E caveira.

- Num entendi, louca.

- Tu é besta, cagão?

- Tua cabeça é pouca!

- Tu sequer tem razão!

- Razão?

- Do pai

Família.

Esquece!

Pois prece

A ti não cabes

Dos entes!

- Vai pra merda!

- Vai tu peste!

- Tu é lerda?

- Esqueceste?

- Do que?

- Do riso.

- Riso?

- Tu tinha

Carinha

Gracinha

Eu quietinha

Sozinha.

- Sozinha?

- Que foi?

- E os home?

- Uns bois!

- Uns bois?

- Cornudos

Chifrudos,

Imundos,

Porrudos,

Barrigudos.

- E eu?

- O quê?

- E eu?

- Perdido.

- Perdido?

- Mas com jeito

Mil feitos

Respeito,

Defeitos

Aceito.

- Combinemo!

- O quê?

- Tu e eu.

- O quê?!

- Ou mudamu

Ou se estrepamu

Nesse mundo

Mundano.

- Façamu!!


Meninas de Portel

Carlos Augusto Ramos

Criança minha,

Donzela.

Formosa pura,

És bela.

Não apressa

Teu despertar.

Espera o corpo

Aguentar.

Não vende

Tua infância.

Vigia do homem

Ganância.

Mistura de folha

E espinho

Que se toca no verde

Carinho.

Pra não furar

Pra não sangrar

Pra deixar a história

Te iniciar

Sem susto

Sem medo

No tempo

Não cedo.