Kelma Capiberibe, poetisa, estudante de publicidade e propaganda, amapaense
nascida em Santana, que guarda no peito um amor imenso por sua terra e sua
gente.

[email protected]



Um auto-relevo do amor

O amor é algo que poucos sabem explicar,
Mas é a mais fiel das ditaduras.
Não se faz referência à ditadura
Que humilhou e deflorou a fina flor,
E sim, a ditadura que cristalizou o amor
Como espelho da paz.
Então descendo pela veia híbrida
A seguir o canal dos devaneios e
Com mil beijos lambiscas os lábios de lis.
O amor imprime um alto-relevo ao olhar pro céu,
Mas pára ao ver a lua.
E na mesma estação
Como uma escultura plana
Que cintila na alma
Sorvendo as palavras envolventes
Do espírito pujante,
Através da luz solar, articula-se.
É como uma correspondência enviada e,
Em contrapartida, espera a volta.
É o sentimento que vai
Expresso em versos cheios de significados,
De valores,
De afeto,
De simplicidade,
De gratidão e,
No reverso, o selo de autenticação.
Portanto, o amor é algo mais
Que duas pessoas que se deleitam
Em um macio colchão
Para juntos alcançarem o êxtase,
Pois o mesmo dura um quinhão,
Dentre uma forte e sólida relação.
Nesse soar latente
Que ecoa do quarto de motel.
Sussurrando mil histórias,
Mil beijos,
Mil verdades,
Mil prazeres,
Mil abraços
Completando mais de mil histórias,
Ouvi a frase de amor
Que nunca mais silenciou meu coração.


Arquivo X

Observo o futuro distante
Da casinha a beira do arroio.
A poma garoa dando sentido às palavras
Que cortam minh’alma
Em silêncio.

Se a esquina é minha paz
Canto meu desassossego.
Em filas caóticas
De tanto tentar
As letras viajam soltas,
Disputando a existência,
Versus a linha do tempo.

E sob as tardes católicas
Vejo deitar o meu alento.
Que em sujeição
Segue os passos de Maria Madalena
Para desposar-se nas estrelas.

O que querem com as cantigas
Do rio que me segreda.
A maré?

Que levou a minha fé.
Ou a correnteza?
Que levou minha adolescência.

A mão que acolá me doa
Cá, com o apagador ignora-me.
E com o punho inclinado
Risca, rabisca a lousa
Em verso e prosa
E no reverso,
Viro o X do momento.

Meu pensamento circula
Dentre o cárcere verde da mata
E os sonhos
Escritos no ventre
Quando menino.
Então percebo
Quão duro foi o tempo
Sobre o meu semblante
Quanto jovem ao meu entender.

Lembram da minha feição,
Áspera e rude de canoeiro,
Quando de fato
Sou o X da sentença.
Colocado em questão,
Viro contos e causos
Senão na vida de fato
Viro um X de contratempos.


Produto bruto?!

Entender-se
Num centésimo de vivência
É subtrair suas outras existências.
Lucrar com um milésimo do mundo
Não me fará um décimo.
Tão visíveis são meus débitos
Contra o tempo a me consumir
Que a vida repudia-me.
A oscilação sanguínea
Nas veias caluniosas
Num trago me leva a falecer.
Somando o meu permanecer
As horas, os minutos e os segundos
São iguais as drogas, viadutos estúpidos.
Nesse manancial onde finda meu ser
Busco viver sem me ver,
Pois os segundos se vão
Como flashes a focar meu coração.
Os minutos passam entre o desvão
E nessa lasca de estação,
Vão-se as flores, os frutos, a chuva e o sol
Como a camada de ozônio
Violentada pela encarnação.
Indenize a passagem,
As horas de contribuições
O residir na minha inexistência.
Nas têmporas o fantasma da alma
Segreda-me nas horas calmas.
Se alguém me entender,
Ouvirá chuva de espinho
Todas as 15:00 horas.
E na terra todos seriamos pares
E ninguém ficaria sob a parreira
Sentado esperando uma chuva de videira.
Mas como não sei mais quem pôr
Nessa louca escravidão,
Fico eu
Com as minhas ilusões.


O regresso


Deixarei na boca da noite
A morada venerada.
Vou lá ao longe
Buscar a nossa fé.
Mergulharei nas águas animosas
Do rio que nos ora.
Solicitarei a São José
Que me reserve
As nadadeiras,
O bom senso da maré
E a Santa Virgem Maria.
Em réplica
Se reencontrar a velha fortaleza
Voltarei genuinamente pra casa honrada
E trarei a confiança furtada.
E se porventura a fé me largar
No rio do minha inconsciência,
Pedirei que a descarregue
Em alguma embarcação peregrina.
Então regressarei ao lar
Só por fora
E rogarei a São José
Que me dê um trevo da sorte,
Uma cara-lisa
E um falso sorriso.


O fantasma


Quem desvendará o labirinto da mente
E guardará as ambigüidades contínuas do ser
Que passam pelas vias respiratórias
Recuando dois, três, suspiros ao passado?
Os laços sanguíneos,
Tornam-se imensos vazios
A magoar-me.
Compor essa triste música
Seria minha última autoria
Sem letras, sem rimas, sem cactos
Somente instrumental.
Mas a vida de fato
Subestima a arte
E importa os sorrisos de falsidade.
Então vejo a miopia
Em cada olhar
Que me invade sem concessão
Retinindo minhas imperfeições.
Luto contra o ébano abatido
Da grinalda que encobre
O rosto engessado.
Quem amará
Uma escultura de neve
Com a marca leonina que a desflora?
Nem os pingüins,
Nem os orvalhos,
Nem os esquimós.
O niilismo nas palavras
São como chuvas de granizos
Que versam a agonia
Do fruto sofrido.
Seguramente é uma alma
Que se enterrou no século passado
E hoje canta seus fantasmas.


Entre a lua


A lua que rege os signos,
Sóbria de lucidez
Leva no ventre
O sol e o girassol.
Rouba o aroma dos lírios
Que verte sobre os tecidos.
Vê sua natureza combinar
As flores e o pomar
Entretom de terra.
Ressalta o arranjo
Que se desdobra
No tablado do impressionismo.
A garganta canta
A inércia do corpo,
Sorvidos pela emoção.
A lua lambisca
O beiço que saliva
O almíscar envolvente
Estilando o aroma amadeirado
Dos frutos a gerar.
Nesta cortina lunática
Que alterna o meu ser,
A única certeza é o ingresso
De chegada e de partida
Do cenário da vida.


As Mil Faces

Oxigeno o ciclo do ar.
Desde o vento que toca
Violando minha face
Até o murmúrio dos pulmões.
Aprecio o traidor
Na essência.
Pois o Senhor tão idem
De seus mandamentos,
Não me ensinou
A repudiar a carne.
E nesta montanha sublime
Do ser que me reuni.
Manifesto-me, pois nunca renunciei
Ao ventre divino
De onde minhas demãos
Esquemáticas ironizam
As mil faces fragmentadas.


Arte final

A escultura mais arcaica do Brasil,
Quem por arte a esculpiu,
Esqueceu de torneá-la no esmeril.
A sombra nua que lhe acompanha
Configura a membrana
Perfumada de fetiche em sua morte ampla.
O sobe e desce na rampa
Demonstra o aristocrata às avessas
Que impulsiona as leis,
Defecando na pobreza.
Na outrora surreal
E nos dedos singulares
De Tarsila do Amaral a solidez secular.
Vistos nos quatros pontos-cardeais
As aventuras do irreal.
E a meia-lua que nos orienta,
Atravessa a constelação
E nos apresenta o presente,
Contundente, da vida sem ficção.
O homem que dorme
Sobre as vísceras genéticas
Do aparelho hereditário da nação, esquece!
Faz uso próprio
Evidente no olhar tátil do estadista teatral
Que no busto improvisa a arte final.


Olhos
(23/12/2005)

Olho o Leste
Pelo Oeste
Observando a mutação
Nas quatro extremidades
Num caos de segundo
Da largura do olhar
Que a mão divina
Nos salvou.


O troco
(23/12/2005)

Pedirei a Papai Noel
Neste Natal:
Devolva-nos
A pureza,
O bom senso,
A honestidade,
A dignidade,
A compreensão,
A simplicidade,
Os valores,
A verdade,
O carinho,
A paz,
A ternura,
A paciência,
O afeto,
A solidariedade,
Que o Diabo
Nos roubou.
Em troca
Devolvo-lhe
A liga.


Em mãos erradas


Esquivo-me do domínio,

Que contradita minha jovialidade,

E entibia sua responsabilidade.

O vermelho que centelha chamejando a juventude,

Depõe contra a cidade.

Órfã minha Macapá.

O pendor que corria sua morada,

Solitário não ouve seu palpitar.

Pulsas porque te desejo sorridente a titilar.

Com muita expectação,

Espero este rio azul sirênico passar.

E o amarelo do sol que amanhece,

Voltar a fulgurar!


Canto das espécies

No coração da Amazônia,

O frêmito ecoa no verde da mata.

E o colibri, que ao descobrir

Nas flores sua outra metade,

Oscula esta paixão plena,

Reverenciada pela bebida dos deuses.

O sol que aviva gretando a mata,

Aduna as árvores consagrando sua beleza,

Expõem sua existência, purga seus opoentes!!!

Jacinto, odorífera, flor de cheiro,

Que enfeitiça e protege a grande mata.

Urucubaca! nas pessoas ignominiosas que as desmatam.

Mas os guardiões imaginários não se acovardam.

Mula sem cabeça, saci perere, cuca, curupira...

Os armipotentes fecham o corpo da mata, mandinga braba!!!!

Sobrevoando as belas águas,

O uirapuru açula a sorte.

Canta, no ritmo dos córregos e das lindas cascatas.

Corrente benta que batiza a verde mata.

Eterniza está floresta de broto borbulhante,

Argüi com os galhos e exora com a voz

Não te calas, pois teu canto, este som rogativo refocila,

E em teu ninho a emoção resguarda.

Reflexão o homem fará, instilando no ventre.

A natureza cópula a alma que acasala.

Regenera a substância, comunga o pensamento.

O canto do uirapuru unifica as espécies.

O arco-íris espreitante aliado ao forte verdejante adverte,

O homem ambicioso que destoa desta comunhão,

Insídia à sua permanência.


Tributo dogmático

A política desmedida do sistema
Vive a lacuna da incompetência.
Eclipsa o caráter do homem,
Fazendo perder a transparência,
Que abatido no imo, ensombra sua existência.
Ferido, fere e perde o altruísmo.
Sanatório dos excluídos que sente,
A ladainha, inebriando a mente.

$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$

A arenga dos polutos obscenos, onipresentes,
Prenunciam o intricado meio.
Controversas direcionam o submundo,
Fragmentado, o indivíduo antagônico traga,
Infeccionado o conduz ao leixamento.
Metástase, a espera, vem o desengano,
Debilitando seu alento.

$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$

Expira a idolatria.
No berço a rede se alastra,
Ramificando a malversação prolífera a traição.
Estrela vermelha macula a bandeira,
Legado outorgado.
Tributo deles, ônus a democracia,
Empirismo desperdiçado,
Por homens camuflados.

$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$

Amotinação ruinosa faiscando o povo.
Nossa terra refrata o turbilhão réprobo,
Falseando uma gente ridente, que alicaída, ouve, vê, sente, pressente,
Desapontados sua vida desbocar,
No esgoto artificial Paranoá.

Kelma Capiberibe da Silva 05/05/2004


Água

A água salubre,
Vivaz sua virilidade.
Fonte que abastece o corpo.
Corrente úbere de amor,
Que transpõe, transluz a alma.
Reflexo da uberdade,
Dos amantes sublunares.
Transparente, lava sem distinção.
Desconhece preconceitos,
Embebe a existência humana,
Sacia a sede dos homens,
Rega plantas e lavouras,
Imbui, o néctar cúmplice da natureza.
Como o remígio envolvente de uma gaivota,
Que volátil se mostra faceira.
Bem-aventurança eterna.
Que abastece, enche, trasborda
Rios, riachos, que correm
Ao redor dos ribeirinhos.
Nutre, alimenta a vida.
Viço exuberante, elixir da vitalidade.
Que banha em abundancia,
O vigor que tonifica a juventude.
Orvalho abençoado,
Cadenciado pelo serenar da noite.
Divina lágrima,
Gota de água que sai dos olhos,
E aflora sentimentos,
Ímpeto do ser.
Amamenta, acolhe mãe natureza,
O COLORIDO, O VIVER...


Reforma

Caído por terra,
Assolaram sua visão.
A sete palmos de terra,
Já deixaram filhos, amigos, irmãos.
O ser comovido, espírito latitudinário.
O legado condena ao latifúndio.
Escarmentado, ultimado,
Indubitável vocifera o justo,
A remição de sua alma.
Inerte o ipê,
Ornamental, já não é tão resistente.
Frágil sem vitalidade.
Uma pátria espúria,
Despetala o bastardo.
Infértil de sépalas e frutos,
Excrescência, obstruída.
Mas suas raízes fortes,
Não lhe abandonam, nem lhe deixam fraquejar.
No sincronismo das folhas,
Ouço o chua, chua do seu bailar,
Polifônico pulsa sem esgotar.
Ventania contínua.
Precípuo o ar.
Vocativo te faz respirar.
Deixa o intimorato da tua natureza vingar.
Quando você se permite perpetuar,
A vida te lapida.
Incrédulo, precisas crer.
A vida não é só deidade.
Provações vão te interrogar-
Cultura a criatura, nada vai te pulverizar.
A chuva que ara a terra,
Exala o suor da esperança,
Na alma do descampado,
Deste chão enraizado.

CAMINHOS DE CERDA
A vida de cerda traz na alma
Sangue e dor.
Fugindo de um mundo fraudulento,
Angustias e sofrimentos.
Repressão, toliu seus ideais.
Por parvos indolentes do saber.
Conspiravam com a dor
Fazendo temer.
Calou a quem deveriam respeito
Os poetas eruditos

Que se faziam entender. Os eternos poderosos,
Marcaram os eternos poetas cantores.
Suas chagas tão profundas

Hoje, soam ao vento.
Nos intentos destes civilizados
Que contam com rigor,
Os caminhos funestos que passaram
E perpetuaram com precisão
A sabedoria de seus pensamentos.

Subsistir escravocratas do poder,
Sem sentido a vida não trazia prazer.
Sua essência sem vigor,
Perdia a força do saber.
Substancial pairava a dúvida
Sujeição ao pensar
Um saber tosado
Para que ter?

Fugir deste chão inverossímil
Escusos queriam gemer.
Suas nênias buscavam cores,
Nutrir suas almas,
Na esperança de libertar e rever
O seu povo que chorava
O direito de ter e reter,
O canto erudito
Tornando real
A verdadeira essência do saber


Reforma Íntima

A lide que decai sobre teu espírito.
Deparando-te com tuas imperfeições.
Invade a alma, aturdes teu ser.
Buscas a liberdade,
Mas não consegues.
Eleva tua mente a procura da fé,
Que remove montanhas e te dignifica.
Não consegues incidir, julgas impossível,
Caótico, utópico, ilógico.
Aquela mensagem mandada por Deus,
Parece distante, uma alusão.
Mas não retrocedas, tentar é perseverar.
Busque o poder benevolente da fé,
Que tem o valor de revigorar a vida,
De trazer energia, paz, amor, solidariedade.
A fé que te faz sonhar, construir, reconstruir.
Faz-te vivenciar o mundo exterior com eqüidade
Em harmonia com a natureza e com os bichos.
A fé que concebe a reforma íntima,
E te devolve o equilíbrio emocional e espiritual.
Combatendo as imperfeições, que tanto te afligem.
Policiar a mente para combater os erros do dia a dia,
Como a inveja, o ciúme, a fofoca, a ira...
Tão banalizados e ignorados.
Pois aí estão as saídas para o que buscas,
A tua saúde interna.
Elimina tudo que é de mais ínfimo.
Extirpa de vez as iniqüidades que te conduz aos teus fracassos
Emocionais e espirituais,
Que te causam dor e tristeza.
Sorri! Aspira o ar.
A vida te espera, não percas tempo.
A fé te guiará.


Um olhar sem direção

Busco uma razão para o que sinto
No meio da escuridão que cerca minha alma.
A obnubilação que transcreve meus sentidos
Obserda meu espírito, cobrindo-o de sombras.
Procuro uma saída, para libertar minha mente
Desta total obstrução, que atormenta meu ser,
Fazendo-me enlouquecer e sentir
Vago, sombrio o meu coração.

Corro atrás do nada, em qualquer estrada.
Procuro meu porto seguro,
O meu futuro.
Então, me olho no espelho
E vejo um espectro;
Talvez eu seja um engano.
Meu coração se cala.
E sem pensar em nada, minha mente vaga
Atrás do desconhecido.
E sem muito sentido
Não consegue achar nada... a noite cai
Mais um dia se vai, e eu não criei, não produzi, não conquistei
Nada !!!!

Vou esperar pacientemente a morte.
Talvez eu tenha mais sorte,
Quando estiver literalmente na mais pura escuridão.
É a única direção para esta cruel agonia
Que atormenta meu ser.
Não consigo ser gente,
Nem olhar pra frente.
Não crio espectativas
Só um vazio passa pelo meu olhar,
E vaga pelo meu coração.
Fazendo acreditar que estou no caminho certo.
Acho que não tem saída.
São profundas as feridas
Que vivenciei durante esta vida.

22/07/03


Ame!!!

O amor lascivo
Que meu corpo espasmo,
A vida se faz rutilar.
Tudo que antes não via, não fazia, não contraia,
Ignota volúpia
Hoje presente.
Hoje enaltece o meu olhar e aquece meu coração.
O fulvo que resplandece libidinoso.
Nada ofusca!
Nada obstrui!
Hirsuto beija minha boca.
Acalenta-me.
Mostra toda esta arte que o ser
Faz instintivamente.
Sou sua, meu rosto, meus sentidos.
Deleite de vida.
Açoita-me de amor
Me envolve e abastece meu espirito.
Desperta, purifica minha alma
Repondo a saúde do meu ser,
Em delírio me faz enlouquecer.
No emaranhado louco amor,
Esperta-me, me desperta
Como num feitiço encanto,
Num ato de fascinação.


Brasília de quase todos os Santos


Facínoras de terno e gravata mostram as caras.
Decai a ética do senado.
Arquivam o grampo, sobrevive o "santo".
Escárnios, impudentes, escarnecem o direito de um povo.
Incineram os nossos votos.
Nossos deveres e os deles, viram cinzas sepultadas,
Junto com a esperança de milhares de cidadãos.

Obscuras senatorias, onde só vejo sombras.
Sepulcrais caveiras.
Cavernas, enxovias, fazem o cenário dos homens.
Espelho de um povo fatigado, amortecido.
Que subjacente se entregam a estes escarninhos do poder.
Compradores da alma, dignidade e humildade.
Inumam cada vez mais, a nossa consciência,
Soterrando os industriosos,
Quem os elegeu.

Nas eleições os engodos são migalhas,
Que enxertam em nossas néscias mentes,
Ludibriando nossa aptidão.
São retrocessos de um sistema.
Que já vem maquiado, inermes somos iludidos.
São tantas as adversidades, os erros,
Que acabaremos céticos,
Diante das situações.

A Bahia acanhada se esconde.
Um povo magoado renúncia suas maravilhas.
A cidade reluzente se penaliza.
O batuque do olodum afônico falha.
O axé cala.
O suingue pára.
Os tambores de todos os terreiros,
Estrepitosos dão passagem,
Para todos os Pais de Santos,
Conspirarem e afastarem,
Do panorama Nacional
Este poderoso senhor, mestre,
Em enganar e grampear,
Sua nação.

Kelma Capiberibe da Silva


A cidade


Desponta no horizonte
O sol quente que nasce
O calor de uma cidade
Que traduz a alma de seu povo
Que suspira, transpira espiritualidade.
De uma gente exuberante
Que canta, encanta, extravasa,
Encarna, canaliza felicidade.

O rio Amazonas galante,
Corteja a nossa cidade.
São José lá de longe
Nos protege e abençoa.
Separada das outras cidades,
Por este perpétuo rio imponente
Que transborda, rege, reflete,
Com palavras a retórica
Desta gente falante.

Fazendinha contempla a nossa cidade,
Com sua vista perfeita.
A noite cai, enluarada chega.
A visão pura da natureza,
Expõem toda sua magnitude,
Deste rio fértil, aponta à visão imutável.
Pra quem um dia meditativo
Perplexo enleva, nobre.
Gratos somos a ela.

Macapá, da chuva que cai,
Com cheiro da terra,
Da terra fria lá da serra,
Da cachoeira que desce pelas pedras,
Do igarapé remansado.
Do rio bonito, literalmente.
Do contraditório.
Da pedra branca, mas que é preta.

Do pescador que não tem pressa,
Dos índios que cultivam suas terras,
Dos negros remanescentes de quilombos,
Que aduzem suas artes.
De uma gente de multiplicidades culturais,
Que somam com as belezas deste chão,
Que idolatro com satisfação.

Kelma Capiberibe da silva

RAÇA NEGRA


Prescindir o elo do consciente de uma gente ultrapassada,
Que ultimou o intelecto de um povo.
Repugnou, inferiorizou esta raça
Deixando -a amordaçada
Por mentes decrépitas
Que sempre fizeram tudo
Para degredar essa massa.

Estigmatizado na memória
O racismo subjacente que escravizou, tiranizou a dor latente dessa gente.
Em uma nação, há uma história.
Que eclodiu com merecimento
A força, a raça dos negros
Que agora determinam respeito
Não aceitando preconceito.

Fiquem em debito
Com sua própria consciência.
Algemaram , somente, nossas mãos.
Insubmissas nossas almas e mentes sempre foram.
Elidir uma raça,
É ter medo do potencial dos negros e da força dessa nação.

Escrevemos o passado e estamos presentes.
O futuro, a Deus pertence.
Somos indeléveis.
Se incomodar, nossos direitos estão lá,
Escritos na constituição.
O homem tirano, bestificado, atormentado
Fique calado, parado!
Não pode mais nos acorrentar.

Kelma Capiberibe da silva



O Colapso

Vivenciando um Brasil ermo
De um povo eito
Rotulado no seu peito
A marca do desprezo.

Pés descalços,
Mãos atadas,
Morando em beiras de calçadas.
Prostituição banalizada
Crianças armadas
Cheirando cola, sem futuro, sem escola.

Fernandinho comanda de dentro.
O cartel urdiu sem defeito,
E a ele somos sujeitos.
Prescrito, crava no peito,
Bandido do crime perfeito
De uma pátria petrificada, amordaçada.

De uma terra extraviada,
De uma nação escravocrata.
Uma cidadania estagnada,
Por déspotas, maestros
Dessa orquestra regenciada
Por eles engabelada.

Cai a carapuça
Dessa vergonha desnuda.
Vamos pra rua, gritar, civis.
Não queremos só um pedaço de pão,
Nem cinqüenta na mão.
Queremos ser indenizados,
Pelo ostracismo, ao qual fomos condenados.


Kelma Capiberibe da Silva