Prêmio de consolação
Pedro Paulo Ribeiro

a busca pela coisa vã
nos faz heróis
de batalhas perdidas

ao vencedor só resta
a lembrança
cotidiana e amarga
da vitória inútil


Cancioneiro do desespero


os caminhos que me trouxeram
a esta cidade foram
tomados pelo esquecimento

os papéis que guardavam
meu nome, em algum
arquivo devorado pelos mais
vorazes cupins, hoje
apodrecem definhando
meu corpo, minha história
e meus sonhos


As osgas


acho que antes de
uma leitura
assim de coisas dispersas,
um minuto de sabedoria:

as osgas
copulam
por entre as frestas
em silêncio


Ciranda dos bichos
Pedro Paulo Ribeiro

Era uma borboleta
presa no colorido
do jardim vizinho.

Quase que me insetei também.

II

Eu fugia dos braços
obsequiosos
da rainha-mãe.

Não sei se abelha,
formiga ou Elisabeth.

Se venerasse sua realeza
entomológica
seria vassalo com prazer
e não este escrevente
de desejos mínimos.

III

Felizes os tracajás
que se guardam
das impurezas do mundo
se infiltrando
na carapuça
que lhes é própria,
como a mim
esta incerteza
entre o verso
e o universo deste.

IV

A lagarta me contou
que no tempo certo
ela se deslagartiza
e borboleteia.

Eu lhe confessei
que num tempo
sem previsão
só me é permitido
poetizar o indizível.