AO MANO ISNARD

Vem, cafajeste, dizer que partiste,
E que irás com uma calça de linho
E uma gravata italiana, doada pelo
Preto Jamil, a quem direcionaste
Um insulto afro.

Vende-me um livro imaginário
Por um preço vil, pois lerei tua poesia
Numa madrugada vagabunda.

Tua morte, como a de Manoel Maria,
Veio por uma espiral telefônica,
Deixando-me morto numa quinta vulgar.

Como pediste, tomei uma cerveja
E lembrei teus poemas.

Chorei atônito, e como é de praxe
Para os comuns,
Lembrei tuas virtudes.

Como já não podias fumar,
Baforei em lembranças
Teu português parnasiano.

Pensei em vender teus livros,
E convidar o Fernando Canto,
Para lançá-los em sua perene itinerança.

Ele - sempre debochado -
Disse-me que de um parecer
Fizeste um poema.

Retruquei em gozação,
Lembrando tua origem manauara,
Que um parecer só poderia ter vindo,
De um "pareceiro" pernóstico (mais risos).

Quando partiste deixaste o "Boto Ximango"
Desolado,
O Osvaldo sofreu, como sofrem os poetas,
Preocupados com a falta de crítica.

Ó mano Isnard,
Os teus passos cadenciados e lindeiros,
Ainda ressoam em minha mente,
Quando - Delegado - vigiavas
(perdoe-me Cordeiro Gomes),
A minha falta de estética como teu servil escrivão.

Mano Isnard,
Reservarei para ti uma madrugada,
Colherei flores,
Respingarei uma birita nos transeuntes
E emprestarei do Osvaldo
O chapéu de boto,
Tua metáfora inescondível.

Até um dia, Mano Velho!

Vicente Cruz