Charles Chelala - A tendência de queda nos juros

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Os juros são o custo do dinheiro, ou a remuneração recebida pelo sacrifício em não gastá-lo agora, guardando-o para uso futuro. Em um sistema econômico complexo como o atual, a taxa de juros exerce um papel fundamental, uma vez que influencia fortemente as decisões de todos os agentes econômicos (consumidores, empresários, governo, especuladores, investidores, etc.), alterando expectativas e impactando em temas tão amplos como a inflação ou o nível geral da atividade econômica.

Desde o Plano Real, que logrou êxito em derrotar a inflação, o Brasil tem tido que pagar o preço pela superação daquele mal, dos quais o mais oneroso é a taxa de juros altíssima, que impede o crescimento econômico mais vigoroso, uma vez que reduz o consumo e os investimentos produtivos, além de atrair capital externo meramente especulativo, o que redunda na valorização do Real e consequente desestímulo às exportações, impulso às importações e pressão sobre a indústria nacional.

Até então, não havia firmeza em se enfrentar a política de juros altos por conta de um temor descabido de aumento da inflação. Há centenas de teorias pseudocientíficas que afirmam ser o ponto de equilíbrio da taxa de juros no Brasil superior ao de outros países. Com isso, o sistema bancário no país bamburra, com os quatro maiores do setor apresentando lucros exorbitantes próximos aos de R$ 15 bilhões ao ano (neste primeiro trimestre de 2012, houve uma ligeira queda em relação ao ano passado, mas os resultados do setor permanecem elevadíssimos). Não há, entretanto, esta relação inversa tão linear entre juros e inflação.

Pois bem, desde meados de 2011, a grande novidade na política econômica do governo tem sido o enfrentamento mais sistemático aos juros altos, primeiramente com reduções sucessivas da taxa básica Selic, hoje em 9% ao ano. Isto já representa a menor taxa de juros real (descontada a inflação) da história do país, em 2,45% anuais, e com tendência prosseguir baixando. Além disso, por determinação do governo, o Banco do Brasil e Caixa Econômica reduziram as taxas de juros de determinados produtos, o que também deverá ocorrer com os bancos privados.

A última e controversa medida governo foi a redução dos rendimentos para novos depósitos da Caderneta de Poupança, buscando impedir a migração de investimentos de outras carteiras que são tributadas pelo Imposto de Renda (já que a poupança é isenta) e possibilitando assim novas reduções na Taxa Selic. Hoje o mercado projeta-a para algo em torno de 8% até o final do ano.

Mexer na poupança é sempre delicado, uma vez que se trata de uma aplicação de pequenos investidores. Segundo o economista britânico John Maynard Keynes, o motivo do aplicador em Caderneta de Poupança é a precaução (preocupação com o futuro) e não a especulação. A equipe econômica cogitava adotar esta medida só após as eleições, mas o cenário externo e a redução da atividade econômica antecipou a decisão. No entanto, apesar de indigesta, há certo consenso de que foi uma ação correta, sem a qual não haveria como reduzir mais ainda os juros básicos da economia.

Ainda restam problemas estruturais a serem solucionados no setor financeiro, como o ainda excessivo spread (diferença do custo de captação e de empréstimo do dinheiro); as altas taxas de serviço; a concentração bancária, com pouca competição entre os grandes; a carga tributária elevada; a reduzida disponibilidade de crédito para alguns segmentos (pequenos empreendedores e agricultores, por exemplo); as regalias ao investidor externo (que não paga Imposto de Renda), dentre outros. No entanto, o caminho de redução dos juros parece estar firme e deverá contribuir para contrabalançar a crise externa e estimular o desempenho interno da nossa economia.

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