Dom Pedro José Conti - O pedaço de pano

Seguindo os ensinamentos do mestre, um discípulo deixou toda riqueza, construiu uma cabana de ramos e folhas, bem afastada do vilarejo, e iniciou a sua vida de ascese. Ele possuía apenas um pedaço de pano para cobrir-se durante o dia. De noite, dormia no chão e pendurava o pano num galho. Uma manhã, quando acordou, viu que os ratos tinham roído quase todo o seu pano. Tomou coragem e foi até a aldeia para pedir outro pano em esmola. Conseguiu e voltou feliz para o seu esconderijo. Infelizmente, na manhã seguinte, viu que novamente os ratos tinha feito a festa com o segundo pedaço de pano. Voltou à aldeia para pedir mais; os habitantes lhe sugeriram:

- Por que você não arruma um gato, nós não temos condição de lhe dar um pano todos os dias.

O homem seguiu o conselho e levou o gato para casa. Porém viu que o gato precisava comer e foi para a aldeia pedir um pouco de leite. Novamente os aldeões ajudaram, mas também lhe disseram:

- Já que você precisa de leite todo dia, porque não cria uma vaca?

O homem conseguiu a vaca, mas também ela precisava se alimentar. Mais uma vez os moradores da aldeia foram generosos, mas lhe sugeriram cultivar os terrenos livres ao redor da sua cabana, assim a vaca teria capim à vontade.

O homem achou a ideia interessante e começou a cultivar os campos. A terra era boa e o capim cresceu rápido. Em pouco tempo, ele precisou de ajudantes para plantar, colher os frutos e cuidar dos animais. Tornou-se, assim, um rico fazendeiro, construiu uma casa e plantou um jardim bonito ao redor dela, com flores e fontes de água cristalina.

Um dia o seu antigo mestre passou por lá. O lugar era o mesmo, mas tudo tinha mudado. Onde estava o eremita? Entrou no jardim e viu o antigo discípulo deitado numa rede pendurada na varanda.

– O que faz aqui? – perguntou o mestre.

O discípulo enrubesceu de vergonha, jogou-se aos pés do mestre e balbuciou:

- A culpa não foi minha, foi do pano que os ratos comeram!

O idoso mestre escutou e depois disse:

- A culpa não foi daquele pedaço de pano, mas do teu coração que a ele ficou agarrado.

Esta simples história nos lembra de como é fácil esquecer, com o passar do tempo, também os melhores propósitos. Quantos juramentos acabam perdidos e, talvez, tenhamos que reconhecer que fomos fiéis a bem poucos daqueles compromissos assumidos, muitas vezes, com tanta solenidade. Pode ser um casal que prometeu amor eterno e acaba se separando, um religioso ou religiosa que desiste dos seus votos, um homem honesto que se deixa corromper, silenciando a sua consciência. Ninguém escapa desse perigo. “Quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair” diz São Paulo em 1Cor 10,12.

Será que existe um segredo para conseguir – ou ao menos tentar – ser perseverantes até o fim às promessas que, um dia, assumimos livremente? Acredito que muito depende do horizonte que escolhemos como limite da nossa vida. Para quem acha que tudo acaba neste mundo, parece mais conveniente mudar ideais e projetos conforme os interesses passageiros. O que se pensa ser a felicidade deve ser alcançado aqui e agora. O resto é conversa.

Diferente é para quem acredita na vida eterna, que somente Deus pode doar aos seus amigos. O tempo não é mais somente o hoje, a nossa vida vai muito além desses poucos dias. Podemos confiar em quem nos aguarda e que nos dá o tempo de agora para aprendermos a construir, mas também a desejar, o mundo de amanhã. Como todos, também quem acredita na ressurreição e na vida eterna busca com dificuldade o caminho do bem e da justiça, porque sabe que, neste mundo, nunca alcançará toda a perfeição, toda a alegria e todo o amor que o seu coração gostaria experimentar. No entanto, nunca desiste de procurar esses bens, porque sabe que o que ele tanto espera um dia o encontrará. Faz isso, não como uma ilusão, mas com a certeza da fé naquele que é fiel e não decepciona os seus amados: o próprio Deus.

Nesta altura, não preciso mais falar muito de Maria, que neste domingo contemplamos elevada ao céu, participando, com seu filho Jesus, antecipadamente, daquela ressurreição prometida àqueles que acreditarem no Deus da vida, vencedor da morte.

Também não podemos esquecer os nossos irmãos religiosos e religiosas que, com os três votos de pobreza, castidade e obediência, lembram a todos nós, todos os dias, o horizonte da vida eterna, onde encontraremos muito mais do que os pobres tesouros fascinantes e tão cobiçados neste mundo passageiro.

Cada um de nós tem o seu pedaço de pano que lhe serve de desculpa para olhar somente o que está por perto, para satisfazer seus interesses materiais. Aprendamos a olhar mais longe, lá onde Maria, Nossa Senhora da Assunção, já está: na glória do céu com seu Filho Jesus.

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Um comentário sobre “Dom Pedro José Conti - O pedaço de pano”

  1. Joncilia Roberto Roque diz:

    Gosto muito das mensagens de Dom Pedro José Conte. Parabéns pela matéria.
    Obrigada.

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