Rugatto Boettger - Geologia Amadora

Tudo começou nos longínquos tempos da separação dos continentes. Depois veio a submersão da Atlântida e a elevação da Cordilheira dos Andes a qual, por sua vez, inverteu o curso do rio Amazonas que, de tributário do oceano Pacífico, teve que se adaptar como tributário do oceano Atlântico. E, então, começou a nova formação sedimentar da Amazônia Oriental, retendo as formações minerais nas montanhas distantes, enquanto a sedimentação aluvionar foi moldando a nova calha do grande rio.

Todas as terras baixas da parte oriental da calha do rio Amazonas são sedimentares quaternárias e suas alterações prosseguem até os dias atuais. Em função desta instabilidade há formação de novas ilhas e erosão de outras, a profundidade do delta é inferior à do médio curso, planícies úmidas ora tendem a secar ora tendem a submergir, as ribanceiras sedimentares são formadas por diferentes camadas de solo dependendo do volume das cheias e suas durações. Toda a área ribeirinha baixa do Estado Amapá enquadra-se nestas circunstâncias. E nas ribanceiras, onde foi possível, formaram-se matas cujas raízes estabilizaram o solo dando a impressão de perenidade.

Com a cobertura de matas robustas e estáveis, as ribanceiras se tornaram estáveis. O entrelaçado de raízes no subsolo formou uma espécie de rede de aglutinação das terras de origem aluvionar, mesmo nas ribanceiras elevadas. Mas, com o projeto da instalação do porto de embarque de manganês (Santana-AP), em meados do século passado, foi preciso remover as matas. No entanto, o entrelaçado de raízes no subsolo permaneceu e manteve a estabilidade da ribanceira transformada em porto. Até que na década de 90, a outrora estável ribanceira se rompeu, levando para o fundo do rio todos os equipamentos pesados. A empresa responsável, surpresa com os prejuízos, envidou esforços para esclarecer o acidente. Peritos locais e de alhures foram consultados. Muitas teses geológicas e físicas foram levantadas. No entanto, uma observação chamou a atenção: o outrora entrelaçado de raízes que segurava a ribanceira, agora estava apodrecido e, além de não segurar mais nada, seus vácuos facilitavam a penetração da água, amolecendo o solo e induzindo o desabamento da ribanceira. Chegara o momento da obrigatoriedade da construção de um cais de concreto.

A empresa, prestes a encerrar suas atividades, reconstruiu o porto conforme as suas necessidades. E, mais tarde, o porto foi adaptado para o embarque de minério de ferro sob novas administrações. A luta hercúlea para cobrir os custos operacionais e satisfazer a pesada carga tributária, foi protelando a inadiável construção do cais de concreto. E, o pior, a fiscalização do poder público, obrigatória em quaisquer iniciativas empreendedoras, até a hora do novo sinistro, não havia percebido a verdadeira ratoeira em que se transforma uma ribanceira quaternária quando apodrecem as raízes que a sustentam. A omissão está escancarada.

E, para ilustrar, respeitadas as proporções, o antigo cemitério de Santana, situado nas imediações, já sofreu desabamento igual. O madeireiro holandês, Peter Cornelius von Scherbenberg, dono da Madesa, pediu aos seus irmãos maçons que, quando morresse, o enterrassem próximo da margem do rio Amazonas onde se pudesse ouvir o marulhar das suas águas. O pedido foi cerimoniosamente atendido. Mas, poucos anos depois, a desmatada ribanceira do cemitério desabou e levou inúmeras sepulturas para o fundo do rio, onde permanecem até hoje. E Scherbenberg continua nas lembranças dos seus irmãos, no fundo do rio que ele tanto amava.

3 comentários sobre “Rugatto Boettger - Geologia Amadora”

  1. luiz pessoa diz:

    excelente artigo, principalmente na análise da história geológica da amazonia, em especial na parte inicial, onde comenta sobre as movimentações das placas tectônicas.

  2. Elmirador diz:

    COMO SÓ SE PERDERAM AS VIDAS DE PESSOAS POBRES, TUDO VAI FICAR COMO ESTÁ. AGORA, SE MORRESSE O SARNEY, O CAMILO,O BRAHUNA,OS DEPUTADOS ESTADUAIS E FEDERAIS, O PREFEITO, COM CERTEZA, AS PROVIDENCIAS URGENTÍSSIMAS SERIAM TOMADAS, INCLUSIVE COM A INTERRVENÇÃO PERMANENTE E ETERNA DO PORTO.

  3. Flávio Henrique de Barros diz:

    Rugatto Boettger, na Geologia Amadora, apresenta em poucas linhas mais do que um diagnóstico das causas de uma tragédia esperada. As informações técnicas são elementares, obrigatórias a qualquer profissional da área da construção e fiscalização portuária. As frases no texto denunciam o desleixo, corrupção, despreparo, desprezo pela vida humana e da comunidade das pessoas e autoridades que são pagas para zelar pela proteção dos demais. Além do desmoronamento, como minério contaminado fica depositado na beira do rio? Essa denuncia é antiga!É preciso saber a cadeia sucessória e acionária das empresas que se sucederam na exploração desse terminal portuário e, consequentemente, a responsabilidade empresarial de fato. Tirando da empresa a condição de alegar desconhecimento de um histórico da década de 90. Mas fica a pergunta: como uma empresa com exploração portuária se lança a um empreendimento sem fazer diagnóstico técnico do terminal de embarque?

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Iniciado em 16/07/2012